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quarta-feira, abril 08, 2020

Um conto do hoje


Dotado de uma licença poética e audaciosa, esboço uma paródia da incrível e revolucionária fábula de Rachel Carson, da obra Primavera Silenciosa.

Era uma vez uma cidade no interior do Brasil onde tudo parecia estar em constante harmonia.  Os seres humanos e os animais coabitavam um espaço rico e belo em natureza, um lugar mágico. A formação geológica ensinava sobre a dimensão do tempo e espaço; os cursos d’água e suas quedas aludiam à importância dos ciclos e potência da vida; as árvores e os pássaros revelavam a beleza de pertencer e estar num lugar. Tudo isso compunha uma paisagem cênica impar. Na cidade formava-se um vale, de onde - do alto - se via o horizonte, o amanhecer e o anoitecer em sintonia com um cenário repleto de riquezas biológicas e ecológicas de um país tropical.
Pelo caminho, era possível ver nas gramíneas os orvalhos, sentir o cheiro da terra, o frescor do clima e o barulho das águas. Para chegar à primeira cachoeira, descia-se uma escada lapidada pelo homem, serpenteada pela vegetação e, lá em baixo, encontrava-se uma gruta e um pequeno represamento natural. As crianças brincavam na água, alguns se arriscavam, saltavam e pulavam, outros se penduravam nos galhos e balançavam até se soltarem. Casais, amigos e famílias faziam piqueniques aos finais de semana. Os viajantes que passavam por lá ficavam encantados com o oásis de verão.
Às vezes a neblina dificultava ver o horizonte, nada que tirasse o encanto e os mistérios do lugar. Ao contrário, estimulava a atenção curiosa, remetia os sonhos de infância e a admiração pela vida bucólica, tranquila e silenciosa junto aos sons naturais.
Vários fatos se sucederam naquele lugar.  Certa vez, um senhor, munido com pedaço de pau, se defrontou com uma cobra, domando-a para sua segurança. Em dada ocasião, uma pessoa, desacreditada na vida, jogou-se peral abaixo. Numa manhã, em que uma forte neblina pairava sobre o local, um guarda ordenou que um meliante corresse o mais rápido que pudesse em direção ao penhasco para que não morresse à bala e ninguém sabe seu fim. Conta-se também que numa tarde de chuvas fortes um gado teria entrado no córrego e sucumbido à velocidade da água, caindo de cima da maior cachoeira. No passado, as mulheres iam lavar roupa naqueles arroios e as crianças, acompanhadas de amigos e familiares, aprendiam a nadar nos pequenos represamentos. Num entardecer viu-se uma senhora fazendo suas preces e dispondo no curso d’água suas oferendas.
Os dias seguiam como sempre, mamíferos (incluindo os seres humanos), répteis, anfíbios, aves e insetos viviam e transitavam naquele lugar, próximos às nascentes, aos arroios e córregos.  Tudo em equilíbrio no bioma com a maior biovidersidade do mundo, a Mata Atlântica.
Eis que tudo começou a mudar, como se um feitiço encerrasse a magia daquele lugar. Os animais começaram a ir embora, proliferaram espécies invasoras, infiltraram pragas e multiplicaram os animais peçonhentos.
As pessoas deixaram de ir para aquele lugar, deram as costas. Não mais o enxergando, começaram a jogar todos os seus dejetos, descartando lixo e entulho, despejando esgoto e até desovando corpos. O lugar foi se desfigurando, não mais visto como aquele lugar colorido e vívido. Passou a ser visto como um buraco, uma sobra urbana, cinza, pálida, suja e fétida. A única vida possível notada passou a ser a marginal, da drogadição, da decomposição, da delinquência e dos descartes.
Com efeito, foram aparecendo novas doenças infectocontagiosas, virais e respiratórias. Mais ainda as pessoas  se afastaram, presas e enfermas em suas casas, onde ilusoriamente encontravam a segurança de um bem-estar.
O mato foi crescendo, os grupos de turistas não passavam mais e no imaginário social aquele lugar era cada vez mais perigoso e sujo. Não mais misterioso, passou a ser suspeito. Até mesmo os livros que citavam esse lugar foram esquecidos.  Os desejos foram se sobrepondo, a tonalidade da água modificando, os animais e espécimes vegetais se extinguindo. Até o solo foi se desconfigurando, assoreando os cursos d’água, erodindo a terra e dilacerando as fendas com a velocidade da água.
Não foi nenhuma atividade mística ou bruxaria que condenou esse lugar, mas, sim, a própria população que o devastou e – hoje- enxerga suas consequências. Essa cidade existe, pode ser Americana, no interior de São Paulo, ou São Francisco de Paula, no estado do Rio Grande do Sul. Não apenas essas cidades, mas tantas outras Brasil afora. Cenários de um processo conflituoso de antropização do meio natural.

*A presente fábula foi publicada na tese de doutorado "Consciência política e ambiente: a desproteção de parques municipais em Americana (SP) e São Francisco de Paula (RS)", defendida no Programa de Psicologia Social da USP. Para acessar a tese, clique aqui.


Um conto do hoje aqui.




sexta-feira, março 29, 2019

Adeus outras sete quedas?


“Sete quedas por nós passaram e não soubemos amá-las”, assim dizia o texto de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1982 no Jornal do Brasil, uma crítica à construção da hidrelétrica de Itaipu e a destruição do Parque Nacional das Sete Quedas.   

Marco no movimento ambientalista no Brasil, a resistência contra o represamento do Rio Paraná nos revelou um ideal equivocado de progresso, no qual outras leituras desenvolvimento local, relação ser humano e natureza e proteção da biodiversidade foram solapados e submersos por uma visão hegemônica de mudança social e intervenção no meio. Represou-se toda potência turística, riqueza natural e força d’água para simplesmente tornar-se energia.

Embora o fato tenha ensinado muito, enquanto brasileiros, aprendemos pouco, haja vista a reprodução das mesmas práticas nos dias de hoje. Assusta-nos os desastres ambientais em Mariana e Brumadinho, mas não olhamos pro nosso próprio quintal. Em Americana, assistimos à fragmentação da maior área natural pública, o Parque Natural Municipal da Gruta, uma unidade de conservação, frente à construção de outro logradouro para o fluxo de carros, mercadorias e pessoas alienadas em seu cotidiano e experiência do espaço-tempo.

A obra de interligação dos bairros Parque das Nações e Parque da Liberdade, pela Av. Florindo Cibin, representa o soterramento e transposição de terra e cursos d'água, extração vegetal, ameaça aos pequenos mamíferos que ali resistem e prejuízos irreversíveis à paisagem e integralidade do parque, tudo referendado por interpretações frias de burocratas alheios à importância da área e suas minuciosidades.

Curiosamente, as águas das sete quedas do Parque da Gruta, hoje ainda mais ameaçadas, caem no Rio Piracicaba, escoando no Rio Tietê, que por sua vez deságuam no Rio Paraná e encontram as sete quedas submersas.

quinta-feira, setembro 08, 2016

Anti-urbanismo em Americana (SP, Brasil)

*Texto originalmente escrito para colaboração ao jornal O Liberal.

Lago no Parque N. M. da Gruta. Fotografia: Fábio Ortolano, 2016.
Estimo que, encorajados e entusiasmados, possamos mudar a triste realidade que nos é apresentada como única possibilidade de vida e ordenamento territorial na contemporaneidade.  A remodelação do espaço segundo os interesses privados e da cultura mercantil, unida à histórica desigualdade socioeconômica e cultural, traz a miséria na qual nos submetemos na atualidade. Justificativas pífias e arbitrárias em detrimento aos valores socioambientais.

Como não se bastasse o abandono do bairro histórico tombado de Carioba e a especulação imobiliária de suas áreas adjacentes, a subdivisão de lotes em áreas de preservação, como na região da represa de Salto Grande, a construção de um terminal de ônibus sem respeitar o gabarito de altura e a ambiência de um patrimônio cultural, como é o caso da Estação Ferroviária, a inexistência de saneamento básico em alguns bairros da cidade, entre outros, avançamos a passos largos rumo à destruição da maior unidade de conservação de proteção integral do município: o Parque Natural Municipal da Gruta.

Chama-se atenção para os problemas decorrentes das obras de prolongamento da Av. Florindo Cibin, relacionados à destruição da flora e fauna locais e ao agravamento da qualidade dos recursos hídricos da bacia do Rio Piracicaba. Destaca-se o soterramento de afloramentos d’água, de um lago e da vegetação nativa dos biomas Mata Atlântica e Cerrado, bem como outros prejuízos aos cursos e quedas d’água.

A transposição do Córrego da Gruta não se justifica pela mobilidade urbana. Afinal, a ausência de planejamento à época de loteamento dos bairros do entorno não pode ocasionar a destruição de uma unidade de conservação criada no intuito de salvaguardar a integridade da área.

Em tempo, há alternativas. Ao invés do prolongamento proposto, sugere-se a duplicação da Av. São Jerônimo, a 900 metros de distância, com ligação na continuidade da Av. F. Cibin no final do Parque, considerando uma ocupação sustentável do território e a preservação do ambiente natural.  

quarta-feira, março 23, 2016

Parque Natural Municipal da Gruta: Morrer para germinar?

Fotografia. Joviniano Netto, 2015. 
Caros leitores, como podemos aceitar essa postura destrutiva que nos reduz a dicotômica parte contraposta à natureza? Será preciso morrer para germinar?  Essa nossa renúncia coletiva diz de uma forjada divisibilidade entre nós, humanos, e o meio ambiente.  E dessa forma, morremos todos.  
Há anos acumulamos uma série de denúncias, processos, requerimentos, projetos, trabalhos e textos acerca do Parque Natural Municipal da Gruta. Paralelamente, como temos mostrado por meio de registros fotográficos compartilhados nas redes sociais, transformamos a maior unidade de conservação de Americana num lixão a céu aberto. O Parque, ainda resquício de Mata Atlântica e cenário ímpar por sua formação geológica e nascentes, é destruído pela população e obras públicas. 
Os crimes ambientais são graves e vergonhosos para uma cidade de médio porte como Americana. Construção de logradouros, desmembramentos de lotes nos arredores, despejo de esgoto e entulho na área, erosão, ocupações irregulares, desmatamento do resquício de Mata Atlântica, mortalidade da fauna local e problemas de saúde pública. 
Nos últimos meses, junto ao coletivo Amigos da Gruta, temos articulado uma série de iniciativas no Parque, inclusive pressionando o poder público a cumprir o básico de suas responsabilidades. O executivo tem feito algumas ações, a passos lentos e limitado.  E ainda alguns políticos tentam aproveitar a carona. 
Bem, eis que em meio aos trabalhos de conscientização ambiental, pesquisa, encontros e conversas com as comunidades do entorno, nas últimas visitas, identificamos novos focos de despejo de esgoto sem tratamento no local. O Departamento de Água e Esgoto parece aguardar a construção da nova estação de tratamento da Balsa, uma obra parada. Lastimável tamanha irresponsabilidade ambiental, um crime. Nesse cenário, me assusta a indiferença do Ministério Público que, mesmo recebendo nossas denúncias, não move qualquer ação por conta do mau gerenciamento do Parque. As autoridades públicas, sobretudo do DAE, devem ser responsabilizadas. 
Com efeito, infelizmente, Americana não merece o título de município Verde-Azul. Aliás, surpreende termos tido esse selo, haja vista o descarte de esgoto sem tratamento numa área com afloramentos do Aqüífero Tubarão, sedimentação de arenito e queda d’água de 18m de altura. Independentemente dos problemas e reformas na estação de tratamento de Carioba, bem como os bons projetos de educação ambiental, como alegam os técnicos, a titulação não pode ser conferida diante dessa negligência grotesca com a principal unidade de conservação de proteção integral da cidade.   
Como diria Gilberto Gil, na música Drão, há que se plantar nalgum lugar, ver ressuscitar no chão, nossa semeadura. 

segunda-feira, junho 22, 2015

O golpe do falso testemunho à educação

* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal e ao Portal Novo Momento


 Os planos municipais de educação de várias cidades do Brasil, inclusive do estado de São Paulo e sua capital, acabam de sofrer um golpe forjado em falso testemunho e todos nós, sociedade civil em geral, devemos estar atônitos, pois sofreremos as consequências que continuarão escoando sangue por meio da violência doméstica nas famílias, das agressões nas escolas, dos assassinatos cotidianos e da violência estrutural de Estado.

Instituições como a Fundação Perceu Abramo, o Instituto de pesquisa econômica aplicada (Ipea), a Central 180, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Instituto Avon, o Data Popular e o Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm apontado há anos números estarrecedores: mais de 1 milhão de mulheres são vítimas da violência doméstica por ano, sendo quase 60% delas agredidas todos os dias. Entre 2001 e 2011 ocorreram mais de 50 mil feminicídios no Brasil. Em 2013 foram quase 15 mil inquéritos que chegaram à Justiça do Distrito Federal por meio da Lei Maria Da Penha. Em 2014, 03 em cada 05 mulheres jovens sofreram violência em seus relacionamentos. 

Quanto à homofobia, sabemos que o Brasil é a nação que mais mata homossexuais no mundo. A cada 28 horas um homossexual é assassinado no país. Só em 2012 foram quase 10 mil denúncias de violação junto à Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, sendo 338 assassinatos motivados por homofobia, e os números, pasmem, aumentam ano a ano.

As propostas substitutivas aprovadas nas diversas câmaras por pressão de setores religiosos rompem com anos de pesquisas, debates e trabalhos de acadêmicos e movimentos sociais. Mais que isso, denotam uma irresponsabilidade dos parlamentares que ignoram o sistema democrático. Os Planos Municipais de Educação são frutos de pelo menos seis anos de discussões públicas, com ampla participação democrática.  São produtos de conferências articuladas desde 2009 com as comunidades escolares, os gestores públicos da educação e a sociedade civil para pensar desde o ensino fundamental ao superior. Isso quer dizer que diversos atores construíram coletivamente durante anos os documentos e propostas para a educação, visando o futuro do país e da sociedade. Eu mesmo participei dessas etapas e constatei que as demandas por tratar gênero e orientação sexual nas escolas vinham, sobretudo, de sua base, da comunidade de alunos e professores, que faziam cartazes expressando a necessidade de debater violência contra as mulheres e homossexuais, certamente por serem parte dessas estatísticas acima mencionadas. E, afinal, as escolas são parte da sociedade e cumpre respondê-la com a educação para cidadania. A necessidade de tratar gênero e orientação sexual representa uma reparação de injustiças históricas.

Assim, é assustador ver pessoas e setores da sociedade que nunca promovem a participação política em detrimento da condução de rebanhos se pronunciarem contra a “ideologia de gênero”. Isso representa uma desonestidade e ignorância sem dimensão. As emendas de consenso nada mais foram que o silenciamento das minorias políticas. Infelizmente, até compreensivo considerando, por exemplo, Americana, onde temos um parlamento de homens e uma única mulher que nunca fala ou defende as causas das mulheres, a maioria insensível ou pouco conhecedora desses temas. Em Campinas e Santa Bárbara D'Oeste tiveram até a pachorra de proibirem discutir gênero e sexualidade nas escolas, uma inconstitucionalidade. Aliás, já está expresso nas Lei de Diretrizes e Bases da Educação que isso é um tema transversal, portanto, a ser abordado em todas as disciplinas não apenas na biologia como alguns mais conservadores gostariam. Gênero e sexualidade são qualitativos para humanidade, impossível normatizá-los e essencializá-los.

A substituição dos textos não está de acordo com os princípios previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos como apontado em algumas falas, haja vista que silencia as vozes das minorias, universalizando os sujeitos ao invés da dignidade da pessoa humana, não considerando também o princípio da reciprocidade, outra incompreensão pela ignorância. Os demais argumentos são tão incabíveis como este, próprios de quem nunca trabalhou com educação ou pouco sabe quais as demandas que emanam nas instituições de ensino, de quem mal compreende nossa história social. Há até uma absurda defesa da família, instituindo um modelo único possível, obviamente o patriarcal, monogâmico e cristão, desconsiderando os diversos arranjos familiares que temos no Brasil, como aponta o IBGE, e no mundo, desde as culturas indígenas às comunidades orientais e africanas. Isso é um golpe pelos privilégios como se fez brutalmente desde nossa colonização. 

O que os Estados Unidos viveram nos anos 60 e 70, reproduzimos hoje no Brasil, personagens e enredos que de tão parecidos, parecem ficção. Aliás, aqui mesmo falamos sobre as semelhanças de John V. Briggs e Jair M. Bolsonaro.  Fomos incapazes de aprender com erros históricos do passado e promovemos um horror ao invés de um futuro pela igualdade e justiça como prescrevem os acordos internacionais que somos signatários. 

Quanto aos setores religiosos que subitamente apareceram, penso que o perdão da Igreja à humanidade pelo genocídio que desenvolveu na Idade Média não foi capaz de redimir a perversidade de alguns de seus vulgos discípulos, estes tão incompreensíveis. O mesmo ocorre com os demais fundamentalistas religiosos, sem generalizações, que se levantam em falso testemunho, vociferando atrocidades em nome de outro maior, absoluto e incontestável, como a figuras de Deus e Jesus, cristalizadas em nossa cultura. Fundamentalistas que fazem uma interpretação oportunista de um mito, pois o Deus e o Jesus sagrados são amor, ternura e compaixão, não indiferença, ódio e irresponsabilidade intelectual e política. 

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Resposta à crise financeira e aos óculos escuros

* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal para seção de opinião

Na década 50, em que nos destacávamos como pólo têxtil da America Latina, nosso município apontava para sua vocação industrial. Na mesma época o país cujos emigrantes nos conferiram o nome, transformava sua sociedade e economia. Os Estados Unidos à época diversificava sua mão de obra e investia no comércio, nas finanças, nos transportes, etc. O setor terciário responde hoje por aproximadamente 77% do PIB e 79% dos empregos.

Não que eu seja entusiasta do modelo capitalista americano, tão pouco suponho que o histórico político e social não infiram nas ações econômicas, mas há algo que me toca ao pensar em mudança social, que é a diversidade, em todas as dimensões. Não apenas o multiculturalismo traz respostas às mazelas sociais, como também a diversificação da economia pode significar novas perspectivas de futuro e frentes de ações, públicas e privadas para a transformação da realidade.

Antes da eleição de 2012, na qual infelizmente elegemos Diego De Nadai, eu tentei contato com os candidatos para apresentar um plano estratégico de turismo para Americana, que fiz enquanto cidadão. Apenas um secretário de campanha do Omar Najar me atendeu, mas de qualquer forma não fez coro ao projeto. 

No ano passado entrei em contato com dois vereadores que foram receptivos à idéia, mas preferimos aguardar os desfechos políticos da atual crise. E nesse momento, assim como compartilhei com nossos parlamentares, gostaria de refletir sobre a proposta junto aos leitores do Liberal e às autoridades que lêem o artigo. 

Diante da atual crise financeira e política, nos cabe atenção, criatividade e participação. Pra mim, não será o mais do mesmo que nos salvará do caos instaurado, nem a indústria que há tempos não possui o potencial de antes, tão pouco as autoridades vendidas e cúmplices que decidiam os destinos do município sob “óculos escuros”. Não digo cabresto, pois não vejo a ignorância e muito menos a ingenuidade dos eqüinos nos legisladores que nesses últimos anos foram escudos e munição de Diego De Nadai. Refiro-me metaforicamente aos óculos escuros pela negligência e indiferença que tais representantes nos olharam enquanto cidadãos e para nossa cidade.

À luz de que do lixo podemos construir algo novo para Americana e de que o setor terciário tem sido a aposta dos países em desenvolvimento, modestamente acredito que a nova gestão deve orientar-se em três pilares: aproveitamento do legado deixado, diversificação da economia e gestão participativa. Em se tratando do legado, falo dos equipamentos que surgiram, mas não como fins em si mesmos; sobre a diversificação da economia acredito no potencial de turismo receptivo e social e quanto à gestão participativa, acredito numa política descentralizada de inserção cidadã, vislumbrando que a economia esteja voltada às comunidades e que estas, em parceria com o poder público, se desenvolvam por seus caminhos.  

quarta-feira, setembro 10, 2014

Eleições 2014 e o reacionário interior de São Paulo



            Curioso pensar como o cenário político das eleições 2014 mudou após a morte de Eduardo Campos. A estabilidade de Dilma, a queda de Aécio Neves e o levante de Marina Silva. Afinal, quais são os motivos que levam os eleitores escolherem seus representantes? E por que o interior de São Paulo é tão reacionário, configurando-se como um dos locais de maior força dessa reviravolta abrupta? 

            Ao que me parece, simbolicamente no imaginário social, a morte do candidato à presidência representa uma metáfora do luto pelas mazelas cotidianas, oportunamente trabalhada discursivamente por aqueles que buscam a condução das massas. É a promessa de vida! Pois tudo, a partir de então, será diferente. O assassinato diário dos cidadãos pelo sucateamento dos serviços públicos e redução do Estado é abafado por falas fantasiosas, promessas vazias e sem sentido na atual conjuntura.

            Ignorância e contágio emocional caminham de mãos dadas. E já dizia Le Bon, pensador do final do século XIX e início do XX, muito relido em tempos atuais, “as massas se tornam burras”. Essa volatilidade dos eleitores, entre outras coisas, aponta para uma falta de consciência política, visão holística e da totalidade. É proposital: os rebanhos não conseguem transpor os limites do curral.

            O interior de São Paulo tem muito que amadurecer politicamente, pois ainda não rompemos as cercas do curral. Somos reacionários às transformações reais. Falamos de mudanças em esfera nacional e mantemos há mais de 20 anos a mesma gestão no estado de São Paulo. Uma incoerência, não? A suposta defesa da mudança e do novo é uma farsa e falácia, pois aqui, na maioria das vezes, nos posicionamos junto às forças hegemônicas. Olhemos para nosso cenário! Transferência do espaço urbano ao mercado imobiliário e especulativo, manutenção das antigas formas de reprodução do capital, inventivo a uma indústria obsoleta, políticas sociais e de cultura à deriva, etc.

            Convido o leitor e eleitor que acredita nessa promessa do novo fazer um exercício: pensar o que é esse novo e quais os caminhos efetivos para a mudança, pois não podemos ser incoerentes e rasos. Isso é descompromisso. Falar em pautas consensuais, como educação e saúde, é tão óbvio  como rezar uma missa com a paróquia cheia. Não sejamos ludibriados e tenhamos motivos claros e coerentes para votarmos, isso é um compromisso nosso enquanto cidadãos.  

segunda-feira, setembro 09, 2013

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal



Americana-SP e o neoliberalismo

            Há algum tempo venho ensaiando escrever sobre a aceleração no processo de imersão de Americana-SP no neoliberalismo. Não que isto seja uma novidade para o município, afinal desde seu processo de ascensão na década de 50, quando se destacou como pólo têxtil na América Latina e cidade de maior desenvolvimento no país, já delineava em sua história uma aproximação ao sistema capitalista. Na ocasião em que vivíamos o auge da industrialização, tínhamos como prefeito Antonio Pinto Duarte, de família tradicional no município e que muito se beneficiou do acúmulo de capital. Na mesma década iniciou-se a construção da Matriz Santo Antônio de Pádua, cujas paredes foram pintadas pelos irmãos italianos Pedro e Uldorico Gentilli, sendo hoje a maior igreja em estilo neoclássico do país. Detalhe: é preciso pontuar a origem européia. Assim, já elucidamos como os valores tradição, família e propriedade vão se enraizando em nossa cultura local.
            Por sorte ou conseqüência da redemocratização do país, durante gestões passadas, sobretudo sob o governo de um ex-preso político da ditadura militar, Waldemar Tebaldi (PT, PDT e PMDB), as políticas sociais frearam ou, de certa maneira, amorteceram os impactos da transformação das coisas em mercadoria. O tripé saúde-educação-habitação que norteava as principais políticas públicas da época dizia de um Estado, ainda que com problemas, presente. Entretanto, no desenrolar do processo histórico, mudou-se os governos e também as perspectivas do planejamento urbano. Já na gestão de Erich Hetzl Júnior (PDT), sucessor póstumo de Tebaldi, mudou-se os rumos de Americana. Eu mesmo, enquanto estagiário de ensino médio, acompanhei o sucateamento de dois projetos sociais que trabalhava, “Orientação e Vivência” e “Adolescentes”, da secretaria de promoção social. De um ano para outro, de 17 bairros contemplados com os projetos, apenas 05 continuaram a desenvolver as atividades e atender as crianças e adolescentes que estavam filiadas ao programa federal de erradicação do trabalho infantil – PETI.
            Se o Estado já anunciava sua retirada neste último cenário, é nas gestões de Diego De Nadai (PSDB) que ele oficializa sua ausência, seja pelas parcerias público-privadas no trato da saúde pública e transferência de suas responsabilidades ou na venda dos espaços públicos e da cidade como um todo na publicidade performática – que oferece o espaço como mercadoria de investimento. Adentramos, nos últimos anos, num dos caminhos mais perverso e traiçoeiro do capitalismo, em que significamos tudo como mercadoria, orientados por uma lógica competitiva de mercado.
            Atenção! Isso não significa que não transformemos a realidade, nem que ela seja em sua totalidade má. Contudo, é preciso notar a distinção entre a mudança social e a mobilidade social. Enquanto a primeira orienta-se pela transformação coletiva e alteração da percepção e do contexto comum, a segunda prima pela ascensão pessoal, do individuo pelo individuo. Daí, ainda que tenha reflexos sobre o coletivo, sua perspectiva atente o ideal burguês, capitalista e egocêntrico, responde a um projeto de vida e destino sócio-individual, ou seja, individualista.

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal

            Três fatos ocorridos neste último sábado (7) em Americana-SP ilustram como todos eles estão interligados, concatenados por uma ideologia que atravessa nossa experiência cotidiana. As comemorações da independência nacional e os protestos daqueles que contestam a história oficial e a ordem vigente, a vinda do deputado federal Marco Feliciano (PSC) para o 20º Congresso da UMADAME (União da Mocidade da Assembléia de Deus de Americana) na igreja evangélica Assembléia de Deus - Ministério de Belém e o lazer de jovens burgueses num barzinho desses com mesas na calçada.
            Os registros das comemorações de 07 de setembro desse ano trazem algo histórico no país: Não foram as imagens alegóricas alusivas à ordem, daqueles que desfilam, muitas vezes alienados à realidade nacional e local, ostentando um valor social forjado pela suposta independência, que tomou conta da produção discursiva a respeito, inclusive na mídia internacional. Foi sua negação, sua parte antagônica, o protesto desalinhado ao hegemonicamente ordenado e daqueles que não compactuam com esse consenso imaginário de uma realidade justa e glorificada.
            Comemoramos a independência nacional e mal concebemos a liberdade em nosso cotidiano. Estes protestos falam disso. Não somos mais a colônia lusitana da America. O nosso colono agora é o Mercado, que dita tudo como mercadoria. Nesse processo, desconstruímos o Outro e o público, pois consideramos sua importância apenas como mercadorias. Adquirirmos namorados(as), amigos(as), parceiros(as), sócios(as), grifes universitárias, parques e praças higienizados, etc. Pouco nos interessam aqueles e aquilo que não compreende o nosso círculo e cenário de sociabilidade.  
            Não nos interessam porque não fazem parte desse projeto de vida e destino sócio-individual. A ausência do Estado e o controle do mercado acirram a competição como forma de existir e viver no mundo. Para as elites pouco importa se a educação, a saúde e o lazer não são mais responsabilidades do Estado, afinal, quando se paga, de um jeito ou de outro, se têm o esperado dentro de um sistema capitalista – e o esperado também é uma construção social que se transforma nos processos históricos. Atualmente, consumimos desenfreadamente e irracionalmente numa inércia que nos atropela e nos deixa apáticos à critica social e de nós mesmos.
            Em Americana multiplicam-se os grandes supermercados em todos os bairros; pipocam as vendas dos planos de saúde, eleva-se o número de carros alusivos aos tanques de guerra – potência necessária para proteção da família num cenário de guerrilha urbana -, de salões de beleza e clínicas de estética; aumenta a especulação imobiliária de uma cidade dormitório – E pasmem! Ainda vendemos os espaços públicos. É o projeto de vida e destino sócio-individual que reforça aquele velho valor: tradição, família e propriedade.   
           E o que sobra aos sem nome, sem o modelo de “família Doriana” e sem propriedade? O desejo de consumir todas essas coisas, óbvio. Não à toa, esse valor socialmente construído atravessa a cultura, as religiões e o Estado. Todos nós somos co-produtores dessa realidade e desse valor socialmente estabelecido e instituído como meta de alcance pessoal. Desde os pagantes dos planos de saúde e dos boletos de escolas privadas aos marginalizados que demandam as políticas sociais.
            Nessa perspectiva, sobrevivem os mais aptos, ou seja, aqueles que consomem. Consumimos lugares, educação, pessoas, saúde e bem-estar e até crenças. Não que a fé não tenha seu mérito e relevância – que isso fique bem claro – mas as crenças muitas vezes nos respondem ou confortam diante da nossa incapacidade de olhar o Outro, da nossa irresponsabilidade sobre si e o mundo. Projetamos tudo como vontade divina, de forma que justifiquemos nossa exclusão e marginalidade, sejam compulsórias ou voluntárias. 
         Não por acaso, concomitantemente a ascensão neoliberal, eleva-se o número de igrejas neopentecostais.   Com o Estado ausente e os sujeitos despontencializados para participação política e para intervenção na realidade, as igrejas aparecem como soluções ao caos. Estas representam bem o mercado, pois tratam dos fiéis como consumidores passivos, apenas como sujeitos contemplados com seus produtos/serviços. Deturpa-se, assim, o manejo das demandas sociais, antes sob controle do Estado/cidadãos e nesse contexto aos cuidados das igrejas/mercado.
            Entendamos, a partir de um exemplo local: Na última sessão ordinária do legislativo americanense, o vereador Thiago Brochi (PSDB) e o presidente da Câmara Paulo S. V. Neves – Paulo Chocolate - (PSC), no momento em que discutiam a concessão de locais públicos a igrejas evangélicas, falaram da importância do trabalho de tais instituições ao bem social. Ora, demanda social não é caridade de instituições religiosas, é obrigação do Estado! Contudo, as opiniões de tais legisladores não são de se estranhar, apesar de serem absurdas. Incoerentemente, eles não falam do trabalho do Estado, como deveriam, o projetam a outrem, no caso às igrejas, desvirtuando como deve ser o atendimento das demandas sociais, não mais como obrigação do Estado, em que a população é co-responsável, mas como caridade e benfeitoria de sujeitos e entidades benevolentes. Nesse cenário, o cidadão passivo é consumidor e beneficiário do que almeja. A tutela religiosa é compreensível, pois desempodera os sujeitos sobre sua realidade e desconstrói sua consciência política de participação, empoderando, em contrapartida, os líderes e o mercado.
            E todos nós sabemos como se conduzem os rebanhos na busca por votos. Não é mesmo? Marco Feliciano disse com todas as letras, durante o culto, que nas próximas eleições pretende ser o deputado com mais votos no estado de São Paulo. E para tanto, juntamente com alguns colegas disse algumas mentiras, todas ao som orquestrado de forma a fortalecer o contágio emocional. Feliciano vociferou que hoje as escolas brasileiras representam um mal por corromperem os valores morais e que as crianças devem estar mais tempo próximas aos pais e à família, esquecendo-se de que a maior parte dos pais das crianças em tempo de escola no Brasil trabalha e não possui condições como ele de enviar seus filhos para outro país. Além disso, deixou de dizer que a educação brasileira vai mal também por conta do descaso crônico de nossas autoridades – como ele – que cada vez mais faz do Estado um aliado do mercado. O pastor comentou que a mídia e o movimento LGBT têm o perseguido por seus valores fundamentarem-se numa doutrina milenar. Mentira! Desde quando a grande mídia ocidental não está totalmente atravessada pelas doutrinas cristãs? Haja vista, como exemplo, a “católica” Rede Globo e a evangélica Record.  Ademais, fora os boçais fundamentalistas, quais são os líderes religiosos que o movimento LGBT persegue? Bem, mas como contestar essas mentiras num culto que até orquestra embala o discurso do pastor? Tudo vira uma falácia.
          Ao mesmo tempo em que o coro dizia amém, alguns cidadãos estavam na delegacia por conta da prisão de militantes do protesto de 07 de setembro. Militantes estes que muito têm a ensinar sobre democracia, pois na mesma sessão em que os vereadores acima mencionados discutiam projetos de lei enviados a toque de caixa pelo executivo, os mesmos militantes refletiam sobre as conseqüências e implicações de tais projetos a população. De um lado, o "Pulta Catraca" e outros coletivos têm mostrado que democracia não se faz pelo consenso e sim por um dissenso em que as múltiplas perspectivas são respeitadas, sem oportunismos políticos. Do outro, curiosamente, os mesmos políticos que criminalizam os movimentos sociais, são aqueles que encaminham seus capangas para sufocar qualquer reivindicação popular que não seja a do seu interesse, que participam de cultos e missas aos domingos e que defendem a família e os bons costumes.
         E enquanto uns protestavam e alguns faziam uso da força e ordem arbitrária, outros consumiam naqueles bares com mesas na calçada. Estes quase todos com o mesmo perfil fenotípico produzido - modelos de uma juventude burguesa de Americana – tradicional, elitista e classista. E ali se viam aqueles rostinhos que saem na coluna social do Wagner Sanches e os carros de guerra estacionados, alguns com aqueles adesivos da família ou com inscrições religiosas.  

terça-feira, maio 21, 2013

Americana no "Proteste Já"


            Ainda que eu não acredite na mídia como modelo de participação política, por ora é um dos poucos meios que tem gerado respostas rápidas aos descasos e desmandes de autoridades públicas. Diante da politicagem contemporânea, em que os votos dizem mais que qualquer ética e compromisso social, não importa a realidade, mas o que se vê e percebe-se dela, mesmo que superficialmente. Mais uma vez, a cidade do espetáculo, da performance, como definiriam alguns autores, move-se apenas por aquilo que se tem visibilidade. Contudo, aprendamos a lidar com o que temos para o agora, objetivamente. Mesmo que carreguemos o peso de uma possível alienação, o pragmatismo nos põe em ação e os movimentos precisam disso. Mais uma vez um escândalo envolvendo a gestão de Americana. E não são poucos os fatos que descredibilizam e deslegitimam a atual gestão. Só para refrescarmos a memória:
            Denúncias de irregularidades nas obras atreladas ao PAC - Programa de Aceleração do Crescimento na Avenida Brasil. Executivo, num retrocesso pela transparência democrática, propõe revogação da lei mentor - a qual obriga a prestação de contas com gastos de publicidade e câmara aprova em bloco pela base aliada. Fantástico mostra a investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) de Sorocaba, a qual aponta suspeita de propina com envolvimento do prefeito e secretário da saúde em parceria com a instituição SAS. Ministério Público eleitoral acusa prefeito Diego De Nadai e seu vice de terem praticado caixa 2 na campanha por conta de um montante de R$ 350 mil que não possui comprovação. Ministério Público Federal recebe uma denúncia de fraude no SUS, em que a direção do hospital municipal está "coagindo" médicos a registrar internação mesmo quando os pacientes são atendidos e liberados – para receber repasses do governo federal. Corrupção associada ao projeto 2º tempo, ligados a Federação Paulista de Xadrez (envolvendo R$ 3,4 milhões) – Investigação do MPF de Piracicaba. Nepotismo – Diego De Nadai nomeia irmã como secretária da promoção social e Paulo Chocolate contrata a própria namorada para assessorar a presidência. Diego De Nadai concede por meio de decreto uma área de 120 m² à Frente Regional de Defesa da Cidadania e dos Direitos Sociais cujo líder é seu assessor, Capivara. Esposa do ex-assessor da Prefeitura de Americana, Marco Antonio de Paula (Capivara), ocupa seu cargo após exoneração e recebe mais de R$ 50 mil como funcionária fantasma. Gestão de Diego De Nadai (PSDB) é investigada pela Polícia Civil sob a acusação de fraude na licitação que resultou na terceirização de parte da merenda escolar.
            A de hoje: a cidade aparece no quadro “Proteste já” do CQC por uma obra prometida há dois anos, sem qualquer avanço. Sejamos francos, será que o prefeito de Americana não teria como sanar esse engodo junto ao seu “padrinho” governador tucano? Ele não responde e deixa a tarefa ao seu assessor, que cá pra nós, não responde nada objetivamente. 
- Respostas por avaliação e diagnósticos não dizem nada, nos tragam o parecer e soluções, por favor! 
                Os representantes estão para isso. Curioso pensar que as obras da Avenida Brasil mesmo embargadas tiveram seqüência. Ah, como disse uma entrevistada, foi a eleição! Uma avenida central da cidade tem visibilidade, representa votos, portanto, deve estar bem iluminada! Aliás, com luminárias robustas a cada metro. Uma estrada às margens da cidade quem vê? Dessa vez, por sorte ou azar, dependendo a perspectiva, foi a mídia. E segue o link para vermos a matéria: 


terça-feira, janeiro 01, 2013

Composição da mesa diretora da Câmara municipal de Americana - SP


Mais um passo ao retrocesso histórico para o município de Americana. Mais uma vez as cartas marcadas foram postas na mesa. E o que jogamos? É uma brincadeira? Temos 137 anos e ainda brincamos? Quais são as regras que nos orientam?
Ao que parece, estamos no jogo da democracia. Contudo, faltam peças, o tabuleiro já tem marcas, o dado está viciado, os jogadores usam as mesmas táticas. Será que ainda somos crianças preguiçosas que nem lemos as instruções?
Paulo Chocolate foi eleito presidente da Câmara e Valdecir Duzzi seu vice. Leonora do Postinho compõe a mesa diretora. Era tudo previsível, não é? Aliados e oposição de governo, como sempre previsíveis. Números exatos de votação, tudo certo, objetivo, afinal, todos os representantes, das inúmeras frentes ideológicas e partidárias que compõem o cenário político americanense pensam semelhante. Eu entendi certo?
Para uma cidade que poderia se orgulhar dos índices de desenvolvimento humano que conquistou na sua história, mergulhar num cenário de marasmo político, de cartas postas e previsíveis, é vislumbrar um futuro pouco promissor.
Daí, engana-se aquele que confere e associa à contemporaneidade o bom IDH que o município apresenta. Seríamos levianos, ingênuos e, em certos casos, até oportunistas em afirmarmos isso. A educação, a saúde e a longevidade de uma sociedade, por exemplo, que nos apontam a qualidade de vida de um lugar e de um povo, são produções sociais que se moldam em ações e contextos históricos que compreendem épocas, gerações, e não apenas anos e momentos pontuais.
Numa leitura simples da nossa realidade sócio-histórica nos vejo como presas de um capitalismo selvagem. A sociedade da tradição, família e propriedade se isenta propositalmente de uma racionalidade crítica. Nossa indiferença e pouco caso com a política local muito têm a dizer sobre os valores e a ética que concebemos no cotidiano. Adiante teremos os reflexos de tudo que temos produzido hoje. 

sexta-feira, agosto 26, 2011

Sociedade do Espetáculo

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.
Essa frase, de DEBORD, ao tratar da Sociedade do Espetáculo nos mostra o quanto a performance vêm tomando lugar do ser. E isso revela uma desconstrução de nossas perspectivas sobre o SER humano, pois não importa mais o ser e sim o parecer ou o estar momentaneamente.
Na sociedade do instantâneo, tudo é passageiro, diluísse nas representações que, no minuto seguinte, já está no passado, sem qualquer valor. A imagem é para o agora, no presente, e o que importa é a performance.
Feuerbach, no prefácio à segunda edição de A Essência do Cristianismo, coloca que em nosso tempo prefere-se a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser, pois a verdade está no profano. Ou seja, conforme decresce a verdade, a ilusão aumenta e o sagrado cresce. O cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado. 
Assim, as praticas de nossos representantes políticos tem muito a nos revelar sobre essa experiência performativa da vida. E um bom campo para análise desse espetáculo são as paginas de relacionamento e redes sociais, onde se fala muito e há muita performance.
Já que em seus perfis nas redes sociais são apresentados como representantes políticos, há de se esperar que se portem como tal. Entretanto, ao invés de publicarem suas ações e reivindicações preferem postar passagens bíblicas, frases poéticas e dizeres de pensadores, sem qualquer reflexão sobre o que postam. Esquecem-se de ali é um espaço para a publicação de um pensamento próprio e não apenas do outro. Ou então, a pergunta que motiva as postagens, em uma das redes, seria "O que os outros estão pensando agora?"
A mim me soa até como uma apropriação descabida de reflexões de outrem. Parece-me que tais políticos pouco sabem, de fato, sobre as percepções e entrelinhas presentes nas transcrições que postam e compartilham. Entretanto a ausência de lógica é lógica na sociedade do espetáculo, pois não importa a verdade e a realidade e sim, como já dito, a performance.

sexta-feira, julho 15, 2011

A legitimidade posta à prova

            Caros conterrâneos, como se constitui a legitimidade de nossos vereadores em legislar por nós? O que confere a eles o direito de definir e aprovar pautas na casa das leis? Seria somente o voto nossa autorização e consentimento às decisões de nossos representantes? A maioria de nós votaria pelo cancelamento da lei “Mentor”?
            Para mim, não. Conceitualmente legítimo é estar de acordo com a verdade, com a justiça e a lei. É coerência e racionalidade sobre alguma coisa. No senso comum, legitimidade é fazer jus as atribuições e responsabilidades que cabe a determinado papel, assim, as ações dos atores devem estar baseadas nas premissas que os caracterizam como determinados personagens. Logo, cada vereador deveria dar voz a quem ele representa, não silenciar o cidadão e impô-lo seus discursos.
            Conscientes de que não teríamos direito a fala, algo irônico num sistema representativo e democrático, mesmo considerando as formalidades e regas de organização das instituições, eu e meu irmão fomos até a Câmara Municipal de Americana na sessão extraordinária de ontem e entregamos uma carta aos vereadores nos posicionando a favor da lei 2.641, conhecida como a “Lei Mentor” - a qual obriga nossos gestores a prestar conta dos gastos com publicidade. A demanda por revogá-la veio do poder executivo em regime de urgência, curiosamente após ter sido publicado os 14 milhões a serem gastos em dois anos de mandato do prefeito Diego De Nadai. Número bem acima dos dois milhões que a prefeitura tanto se gaba em ter conquistado do governo do estado para o Hospital Municipal.
            Estávamos munidos de um abaixo-assinado de alguns moradores do Jardim São Paulo e com cartazes. Não éramos os únicos, haviam membros da associação “Amigos do bairro Jardim da Paz”, moradores de outros bairros, partidários, etc. Manifestamos nosso repúdio a ações como a revogação da lei que obriga nossos representantes prestar contas. E pasmem! Não foi suficiente a manifestação dos cidadãos ali presentes. Devo deixar registrado que não havia nenhuma manifestação popular em defesa da revogação, ao contrário, as manifestações ali ocorridas eram pela lei que determina aos nossos gestores a transparência em suas ações.
            Sendo assim, não justifica sob qualquer argumento o cancelamento de uma lei que obrigue um prefeito a prestar contas de seus gastos, ainda que a lei esteja defasada. Se os cidadãos manifestam-se por qualquer bandeira, por quais motivos os legisladores não devem acatar? O que e quem os confere legitimidade?

Veja os vereadores que votaram pelo cancelamento da lei. (Clique na imagem para ampliá-la)


segunda-feira, julho 11, 2011

Porca miséria!

Mais uma vez o disparate dos políticos de Americana- SP apresenta dimensões inaceitáveis. Como se não bastasse os altos salários, o dispêndio de recursos com construções de fechada sem qualquer mudança estrutural e novos projetos, o inchaço da maquina pública com comissionados beneficiados pelo patronato, empréstimos para obras higienistas, entrega descarada de recursos públicos às empresas privadas em anistia de dívida, alguns representantes da casa das leis mostram-se pouco atentos às contas de seus gabinetes. O que mais chama atenção é o montante do vereador Paulo Chocolate, o qual gastou R$ 4.071,47 só com telefone, em cinco meses de governo. Atrás seguem os vereadores Leonora do Postinho e Capitão Luiz Antonio Crivelari, R$ 3.531,64 e R$ 3.199,65 respectivamente. Os três fazem parte da base aliada do prefeito de Americana, Diego De Nadai, outro gestor público que não parece preocupado com o orçamento da cidade. Chegam a ser ridículas as notas publicadas no portal da prefeitura, as quais enaltecem o recebimento de 3,5 milhões de reais do governo do estado de São Paulo - o mais rico do pais, ao passo que o município interiorano,  de aproximadamente 200 mil habitantes, gastará R$ 14 milhões com MARKETING em apenas dois anos de mandato do atual prefeito, como aponta o jornal O Liberal. Enquanto isso, de acordo com o censo 2010, a rica RPT (Região do Pólo Têxtil - auto classificação provinciana) é cenário de 4,9 mil cidadãos vivendo em miséria absoluta, com renda mensal de até R$ 70,00. Mas não sejamos levianos, o executivo e alguns vereadores estão  pensando nessa fatia da população! De alguma forma estão! Senão, não teríamos o bolsa moradia, benefício a ser dado às famílias que se cadastrarem munidas de seus títulos de eleitor. Porca miséria!

Da esquerda para a direita, os vereadores: Paulo Chocolate (PSC), Antonio Sacilotto (PSDB) e Capitão Crivelari (PP), durante a discussão sobre o bolsa moradia.



Painel de votos para aprovação do bolsa moradia ¬¬

 
Assista ao trecho em debate na sessão de 07 de julho de 2011:

quinta-feira, abril 28, 2011

Ao prefeito Diego De Nadai

Ao saber que nosso prefeito tinha uma página virtual hesitei em fazer-lhe uma visita por conta de um medo de indigestão. E posso dizer que eu estava certo, mas as informações não são apenas indigestas, elas causam ânsia. Ânsia por vomitar todas as respostas e palavras de revolta em ver a demagogia e marketing barato de políticos como o que aponto nesse artigo.

Começa pela biografia, sua “trajetória de vida pessoal e política”. “Um jovem expoente da política de São Paulo”, eleito prefeito com “x” votos, escolhido um dos vereadores em 2000 aos 20 anos e candidato a deputado federal. Como assim? “Expoente” por isso? Quais foram suas causas, as bandeiras pelas quais militou, os coletivos que representou e as obras que realizou?

Não depois de empossado num cargo público, é claro, pois estas estão bem divulgadas nas inúmeras placas pela cidade. A propósito, senhor prefeito, gostaria que investisse o dinheiro público em outras obras, pois chega ser incoerente sua ação. Se eu, um cidadão, estou transitando por uma praça que foi remodelada, não preciso que me digam que ali foi feita uma obra, eu vejo! E aqui vai uma orientação, “revitalização” não pega bem, não há nada morto ou sem vida para políticos ilustres e oportunistas darem novamente vida.

Voltando ao site, “Gente é pra brilhar... Gente é pra ser feliz”. Que gente? Explica-me isso. O que quer dizer com essa frase de impacto? Qual é o conceito de felicidade que o senhor e seu publicitário têm de felicidade? Olha, objetivamente, para alguém brilhar precisa primeiro ter assegurado: alimentação, saúde, educação e lazer. Será que todos os munícipes de Americana estão contemplados com esses direitos para brilharem? Ou o senhor acredita que todos podem pagar um marketeiro que cuide da sua imagem?

Na página tem também as fotos do prefeito. As legendas são transcrições perfeitas das típicas ações dos políticos de Platão. Um jóia na unidade móvel entregue aos bombeiros, um aperto de mão com um empresário, um passeio e sorrisos em meio a criançada. Isso é bonito, dá credibilidade. Não importa que tudo isso é fruto dos altos investimentos, vulgo impostos, que a população confia nas mãos dos governantes.

Caro prefeito, não fale de si, deixe que façam por você. A verdade sempre vem à tona. Falarão bem, falarão mal, infelizmente é assim. Mas você, um gestor público, não pode jamais usar de benefícios oriundos de seu status para construir ou difundir uma imagem pessoal.