Em junho de 2015, a maioria dos 5.570 municípios brasileiros aprovou
seus Planos Municipais de Educação (PME) ao final do prazo previsto no
Plano Nacional de Educação (PNE). O processo de construção dos planos
inclui diversas etapas, desde a formação de comissões de trabalho para
elaboração de um diagnóstico local até a construção de uma lei por meio
das casas legislativas, a qual é sancionada pelo poder executivo. Convém
apontar que os documentos de abrangência municipal precisam estar
alinhados às políticas de educação dos respectivos Estados e,
certamente, aos parâmetros curriculares nacionais. Ocorre que nesse ano,
os planos municipais de educação foram alvos de pressão política
exercida por setores conservadores e fundamentalistas da sociedade
civil. Líderes religiosos, políticos das bancadas cristãs e seus pares
defensores do fundamentalismo, corrente conservadora que enfatiza a
interpretação literal da Bíblia para princípios básicos e obediência;
pressionaram as comissões de trabalho a excluírem o termo “gênero” dos
planos de educação, justificando serem contra uma “ideologia de gênero”,
como assim nomearam. Na realidade, um contrassenso semântico e
discursivo, a ser explicado no presente ensaio.
Mostrando postagens com marcador gênero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gênero. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, março 31, 2016
Sexualidade, Gênero e Educação: desafios éticos em tempos de recrudescimento fundamentalista.
Em junho de 2015, a maioria dos 5.570 municípios brasileiros aprovou
seus Planos Municipais de Educação (PME) ao final do prazo previsto no
Plano Nacional de Educação (PNE). O processo de construção dos planos
inclui diversas etapas, desde a formação de comissões de trabalho para
elaboração de um diagnóstico local até a construção de uma lei por meio
das casas legislativas, a qual é sancionada pelo poder executivo. Convém
apontar que os documentos de abrangência municipal precisam estar
alinhados às políticas de educação dos respectivos Estados e,
certamente, aos parâmetros curriculares nacionais. Ocorre que nesse ano,
os planos municipais de educação foram alvos de pressão política
exercida por setores conservadores e fundamentalistas da sociedade
civil. Líderes religiosos, políticos das bancadas cristãs e seus pares
defensores do fundamentalismo, corrente conservadora que enfatiza a
interpretação literal da Bíblia para princípios básicos e obediência;
pressionaram as comissões de trabalho a excluírem o termo “gênero” dos
planos de educação, justificando serem contra uma “ideologia de gênero”,
como assim nomearam. Na realidade, um contrassenso semântico e
discursivo, a ser explicado no presente ensaio.quarta-feira, outubro 28, 2015
“Frescáh no Círio”: a tríade resistência estética, linguística e moral de Leona Vingativa*
![]() |
| Imagem do clipe "Frescáh no Círio" Acervo virtual, autor desconhecido. |
Com irreverência criativa, Leona Vingativa e seus amigos, de Belém do
Pará, fazem uma paródia do Círio de Nazaré por meio de um vídeo compartilhado
no YouTube. Frescar, na linguagem
popular, significa tirar sarro, zombar. Na presente interpretação, a sátira
estrelada por jovens paraenses representa a tríade resistência estética,
linguística e moral frente à hegemônica leitura do corpo e sexualidade na
sociedade brasileira. É um contraponto artístico à leitura fundamentalista, puritana
e classista operante em todo país desde sua colonização ibero-cristã.
Tal
resistência é observada desde as cenas, scripts
e personagens apresentados no videoclipe. O cenário não compreende as paisagens
dos grandes centros urbano-mercantis, nem mesmo a ostentação da propriedade
privada e dos espaços de glamour das sociedades fashionistas e do espetáculo. O vídeo mostra, dentre outras coisas,
as periferias de casas inacabadas, os equipamentos públicos de lazer fora do
mercado de consumo e o despejo do esgoto, produção humana, nas bacias
hidrográficas. Retrata sujeitos que não se adequam às expectativas e posturas disponíveis
na cultura cristã, heteronormativa, machista e burguesa. Assim, os personagens reivindicam
um lugar ao sol àqueles que estão marginalizados, junto à corda de uma das
maiores manifestações religiosas do Brasil, considerando que a fé é um direito de
todos. Essa é, certamente, a primeira ruptura estética, quando o ideal de belo
não se restringe às elites.
O
clipe inicia com duas cenas deflagradoras da tentativa de instituição do
fundamentalismo na cultura. A primeira apresenta o pastor e Deputado Federal
Marco Feliciano solicitando o uso da força policial para inibir a demonstração
de afeto homossexual num culto religioso. A segunda relaciona a transcrição de
um versículo bíblico em paralelo ao retrato das religiões assimilacionistas,
como a Espírita e a Umbanda, sempre perseguidas no Brasil. Esse embate entre as
cenas reproduzidas e criadas no vídeo exemplifica o controle sobre os corpos
exercido pelos dispositivos de poder nas sociedades ocidentais.
O vídeo, enquanto um campo de interlocução
e ação, rompe com a desconstrução moral de crenças que não se enquadram na
perspectiva monoteísta cristã, esta cristalizada historicamente em nossa
cultura pelo uso da força e das instituições. A ironia do “Frescar o Círio” aponta
novos sentidos e significados ao que é simbolizado coletivamente, como o
gênero, o corpo e a sexualidade.
Leona, a diva do roteiro, ao
invés de aparecer num carro conversível ou de luxo, sobe e samba num caminhão
Ford da década de 1980. E, ao que parece, não se trata de uma opção pelo vintage, mas sim do que se tinha disponível.
Na sequência da corda, momento em que se mistura erotismo, desordem e fé, os movimentos
dessincronizados denotam a negação do erudito em detrimento ao popular. Revela
as potencialidades e possibilidades do uso do corpo.
A indumentária também chama a atenção. Ao centro, a figura de Nossa Senhora de
Nazaré, com manto e coroa alusivos à santidade, mas também usando cinto e
calça collant, trazendo a humanidade
de sujeitos históricos. As demais personagens vestem minissaia, top, vestido e
bandana de tecidos e cores variadas, impactando numa concepção sagrada,
essencializada e normatizada para ornamentação dos corpos. Outra contraposição
estética, somada à dança erotizada e aos termos de cunho afetivo-sexual. E na música atestam: deixarão as barrocas chocadas.
Barroca, na gíria LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), refere-se às mulheres velhas, segundo
Aurélia – a dicionária da língua afiada. O uso de uma linguagem do gueto, de
uma minoria política, além de dizer da escolha por termos que afirmam algumas
identidades, neste caso, faz uma crítica ao conservadorismo seletivo, que julga
moral e belo apenas um modelo estabelecido de script. Nesse sentido, a produção discursiva pela afirmação da
multiplicidade de ser no mundo e pelas manifestações diversas da sexualidade é
uma resistência linguística.
E nesse universo do possível e
de neologismo, duas vezes saltam ao discurso as referências animalescas. Talvez
as aproximações aos bichos primem por uma interpretação mais sincera de
humanidade, fazendo frente à divisibilidade do ser humano, que lhe põe separado
do meio ambiente, distingui corpo e alma e distancia conhecimento e prática. A
provocação do clipe supera a ironia crítica, sejam os atores conscientes ou não,
pois traz novas formas de conhecimento e legitimidades por meio de uma nova
arte.
*Pequeno ensaio escrito para disciplina de Pós-Graduação "Conhecimento, compreensão e novas legitimidades" do DIVERSITAS USP
*Pequeno ensaio escrito para disciplina de Pós-Graduação "Conhecimento, compreensão e novas legitimidades" do DIVERSITAS USP
segunda-feira, junho 22, 2015
O golpe do falso testemunho à educação
* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal e ao Portal Novo Momento
Os planos municipais de educação de várias cidades do Brasil, inclusive do estado de São Paulo e sua capital, acabam de sofrer um golpe forjado em falso testemunho e todos nós, sociedade civil em geral, devemos estar atônitos, pois sofreremos as consequências que continuarão escoando sangue por meio da violência doméstica nas famílias, das agressões nas escolas, dos assassinatos cotidianos e da violência estrutural de Estado.
Os planos municipais de educação de várias cidades do Brasil, inclusive do estado de São Paulo e sua capital, acabam de sofrer um golpe forjado em falso testemunho e todos nós, sociedade civil em geral, devemos estar atônitos, pois sofreremos as consequências que continuarão escoando sangue por meio da violência doméstica nas famílias, das agressões nas escolas, dos assassinatos cotidianos e da violência estrutural de Estado.
Instituições como a Fundação
Perceu Abramo, o Instituto de pesquisa econômica aplicada (Ipea), a Central
180, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Instituto Avon, o Data
Popular e o Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm apontado
há anos números estarrecedores: mais de 1 milhão de mulheres são vítimas da violência
doméstica por ano, sendo quase 60% delas agredidas todos os dias. Entre 2001 e
2011 ocorreram mais de 50 mil feminicídios no Brasil. Em 2013 foram quase 15
mil inquéritos que chegaram à Justiça do Distrito Federal por meio da Lei Maria
Da Penha. Em 2014, 03 em cada 05 mulheres jovens sofreram violência em seus
relacionamentos.
Quanto à homofobia, sabemos que o
Brasil é a nação que mais mata homossexuais no mundo. A cada 28 horas um
homossexual é assassinado no país. Só em 2012 foram quase 10 mil denúncias de
violação junto à Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da
Presidência da República, sendo 338 assassinatos motivados por homofobia, e os
números, pasmem, aumentam ano a ano.
As propostas substitutivas aprovadas nas diversas câmaras por pressão de setores religiosos
rompem com anos de pesquisas, debates e trabalhos de acadêmicos e movimentos
sociais. Mais que isso, denotam uma irresponsabilidade dos parlamentares que ignoram o sistema democrático. Os Planos Municipais de Educação são frutos de
pelo menos seis anos de discussões públicas, com ampla participação
democrática. São produtos de conferências articuladas desde 2009 com as comunidades
escolares, os gestores públicos da educação e a sociedade civil para pensar
desde o ensino fundamental ao superior. Isso quer dizer que diversos atores
construíram coletivamente durante anos os documentos e propostas para a
educação, visando o futuro do país e da sociedade. Eu mesmo participei dessas
etapas e constatei que as demandas por tratar gênero e orientação sexual nas
escolas vinham, sobretudo, de sua base, da comunidade de alunos e professores,
que faziam cartazes expressando a necessidade de debater violência contra as
mulheres e homossexuais, certamente por serem parte dessas estatísticas acima
mencionadas. E, afinal, as escolas são parte da sociedade e cumpre respondê-la
com a educação para cidadania. A necessidade de tratar gênero e
orientação sexual representa uma reparação de injustiças históricas.
Assim, é assustador ver pessoas e
setores da sociedade que nunca promovem a participação política em detrimento
da condução de rebanhos se pronunciarem contra a “ideologia de gênero”. Isso
representa uma desonestidade e ignorância sem dimensão. As emendas de consenso
nada mais foram que o silenciamento das minorias políticas. Infelizmente, até
compreensivo considerando, por exemplo, Americana, onde temos um parlamento de homens e uma única mulher que nunca
fala ou defende as causas das mulheres, a maioria insensível ou pouco
conhecedora desses temas. Em Campinas e Santa Bárbara D'Oeste tiveram até a pachorra de proibirem discutir gênero e sexualidade nas escolas, uma inconstitucionalidade. Aliás, já está expresso nas Lei de Diretrizes e Bases da Educação que isso é um tema transversal, portanto, a ser abordado em todas as disciplinas não apenas na biologia como alguns mais conservadores gostariam. Gênero e sexualidade são qualitativos para humanidade, impossível normatizá-los e essencializá-los.
A substituição dos textos não está
de acordo com os princípios previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos
como apontado em algumas falas, haja vista que silencia as vozes das minorias, universalizando
os sujeitos ao invés da dignidade da pessoa humana, não considerando também o
princípio da reciprocidade, outra incompreensão pela ignorância. Os demais
argumentos são tão incabíveis como este, próprios de quem nunca trabalhou com
educação ou pouco sabe quais as demandas que emanam nas instituições de ensino,
de quem mal compreende nossa história social. Há até uma absurda defesa da família,
instituindo um modelo único possível, obviamente o patriarcal, monogâmico e
cristão, desconsiderando os diversos arranjos familiares que temos no Brasil,
como aponta o IBGE, e no mundo, desde as culturas indígenas às comunidades
orientais e africanas. Isso é um golpe pelos privilégios como se fez brutalmente
desde nossa colonização.
O que os Estados Unidos viveram nos anos 60 e 70, reproduzimos hoje no Brasil, personagens e enredos que de tão parecidos, parecem ficção. Aliás, aqui mesmo falamos sobre as semelhanças de John V. Briggs e Jair M. Bolsonaro. Fomos incapazes de aprender com erros históricos do passado e promovemos um horror ao invés de um futuro pela igualdade e justiça como prescrevem os acordos internacionais que somos signatários.
Quanto aos setores religiosos que
subitamente apareceram, penso que o perdão da Igreja à humanidade pelo
genocídio que desenvolveu na Idade Média não foi capaz de redimir a
perversidade de alguns de seus vulgos discípulos, estes tão incompreensíveis. O
mesmo ocorre com os demais fundamentalistas religiosos, sem generalizações, que
se levantam em falso testemunho, vociferando atrocidades em nome de outro
maior, absoluto e incontestável, como a figuras de Deus e Jesus, cristalizadas
em nossa cultura. Fundamentalistas que fazem uma interpretação oportunista de
um mito, pois o Deus e o Jesus sagrados são amor, ternura e compaixão, não
indiferença, ódio e irresponsabilidade intelectual e política.
Marcadores:
Americana,
Brasil,
Câmara de vereadores,
cotidiano,
Declaração Universal dos Direitos Humanos,
Gender,
gênero,
homofobia,
Human Rights,
misoginia,
Plano Municipal de Educação,
Sexuality,
sociedade
Assinar:
Postagens (Atom)
