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sábado, junho 10, 2023

27ª Parada do Orgulho LGBTI+ em São Paulo

As paradas LGBTI+ são um dos principais símbolos dos movimentos modernos pelos direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo e outras biografias plurais em diversidade afetivo-sexual e de gênero. Esse formato de marcha começa nos EUA um ano após a Revolta de Stonewall, quando pessoas transvestigênere[1], homossexuais e drag-queens se rebelaram contra o abuso e a violência policial em Nova Iorque em 1969.

Aqui no Brasil, desde a Colônia até o presente momento, as populações LGBTI+ sempre existiram e resistiram.  Os indígenas Tibiras e Çacoaimbeguiras entre os Tupinambás, homossexuais homens e mulheres respectivamente nas definições atuais; Xica Manicongo, primeira travesti que temos registro, que veio escravizada do Reino do Congo para viver em Salvador no século XVI, foi criminalizada por sodomia pelo Santo Ofício e rebatizada como Francisco; Yaya Mariquinhas que exigia ser tratada no feminino (gênero diferente do atribuído em seu nascimento) no Brasil Império, séc. XIX; até mais recentemente no século XX quando aparecem na cena púbica personalidades como Madame Satã, um transformista brasileiro, ícone da vida noturna e marginal da Lapa carioca e Rogéria que entrou no imaginário brasileiro apresentada como "a travesti da família brasileira".

Assim, na década de 1970, quando os Estados Unidos abrigavam as primeiras marchas – paradas - pela liberdade sexual e de gênero, influenciadas por outros movimentos modernos como o feminista, o negro e o de contracultura hippie, o Brasil vivia uma resistência frente à censura e ao controle social. No bojo da ditadura militar, a inauguração de casas noturnas como Medieval e Nostro Mundo em São Paulo; os grupos artísticos Dzi Croquetes e Secos e Molhados, que provocavam a ordem social por meio de trajes, performances e estilo de vida; a formação do coletivo de militância e ativismo “Grupo SOMOS” e a publicação de jornais de resistência como Lampião da Esquina e Chana com Chana marcam a cena LGBTI+.

Nas décadas seguintes, nos anos de 1980 e 1990, surgem os primeiros protestos no Brasil, como a passeata contra as operações do delegado Richetti e o protesto das lésbicas feministas no Ferro’s Bar em São Paulo. Nesse momento, os movimentos são provocados a responder à epidemia de HIV-AIDS, seja na formação de rede de apoio e solidariedade ou na desconstrução dos estigmas que estavam sendo difundidos no senso comum, pela mídia, instituições religiosas e até mesmo a ciência. Um conjunto de coletivos são instituídos nessa época.

Foi nesse contexto que as paradas surgem no Brasil, primeiro em Curitiba e Rio de Janeiro e um ano depois em São Paulo, 1996 o marco zero na Praça Roosevelt. O primeiro evento na Avenida Paulista foi em 1997, marchas essas organizadas por ativistas, coletivos e profissionais de várias áreas que se reuniam em congressos para estudo e promoção da saúde em resposta ao HIV-AIDS.

Em São Paulo, desde a primeira parada LGBTI+ até hoje, em sua 27ª edição, muita coisa mudou, não só o evento, mas a sociedade também. Certamente, uma das principais contribuições das paradas é a visibilidade massiva, é o que ela possibilita além das palavras de ordem, pois elas viabilizam novos sentidos e significados coletivos, possibilitam no espaço público a manifestação de sexualidades e gêneros plurais perseguidos e vigiados. Transpõem a geografia da marginalidade e do gueto. Elas colocam em discurso não apenas o evento, mas biografias, existências possíveis. Não à toa, avançamos em direitos civis, mesmo diante de muita aversão conservadora. Decisões judiciais pelo direito parental de pessoas LGBTI+, a conversão de união estável para casamento, a despatologização da transexualidade, a criminalização da LGBTfobia, a institucionalização das pautas por organizações e as políticas públicas de acesso à direitos sociais, a exemplo, o Programa Transcidadania.

Muitas vezes tentam descredibilizar as paradas como “carnaval fora de época”, contudo, assim como no carnaval, a subversão da ordem moralizadora, da violência e opressão se dá pelo exercício da liberdade, do lazer e da ocupação dos espaços públicos. E isso não faz das paradas menos política. Elas celebram biografias plurais, o orgulho em existir e, assim, contribuem com subjetividades de afirmação, reconhecimento e respeito, quando ainda tentam violentar essa população de diferentes formas. Como diz Caetano, "Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas; negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval". 

Nesse ano, na 27ª edição da manifestação, o tema são as políticas públicas como instrumentos de garantia de direitos sociais, seja a educação, o trabalho, a saúde, a assistência social, dentre outros, visto que as políticas públicas institucionalizam e positivam direitos. Embora tenhamos avançado em conquistas, dentro e fora do Estado e poderes instituídos, ainda existe muita resistência e uma ascensão conservadora que tenta aniquilar existências LGBTQI+ como estratégias discursivas pelo poder e contágio das massas. 

Políticas Sociais para LGBTI+, queremos por inteiro e não pela metade! Acesse o manifesto aqui.


Fábio Ortolano. Pesquisou as paradas LGBTI+ de São Paulo e Campinas entre os anos de 2008-2015. É docente nas áreas de Desenvolvimento Social, Turismo & Hospitalidade. Multiplicador das formações de Diversidade como Valor e Cultura de Paz no SENAC São Paulo. Professor convidado no curso de Gestão da Diversidade da COGEAE - PUC São Paulo. Doutor em Psicologia Social, Bacharel em Turismo e Educador Social.  



[1] Transvestigênere é um neologismo cunhado pela ativista Indianare Siqueira e difundido pela parlamentar Erika Hilton e pela atriz Wallie Ruy, que une o significado das palavras travesti, transsexual e transgênero.

domingo, outubro 09, 2022

Aos bolsonaristas, o que enxergam além dos antolhos?


Não acredito que no governo Bolsonaro voltamos ao mapa mundial da fome da ONU. [1]

Não acredito que no governo Bolsonaro registramos a possível volta da poliomielite (erradicada no país em 1989). Afinal, o diagnóstico não está fechado. [2]

Não acredito que no governo Bolsonaro tivemos a maior estrutura e fisiologismo de corrupção da história nacional, pois não acredito nas rachadinhas; nas milícias blindadas, na funcionária fantasma do açaí, no dinheiro suspeito entregue pelo Queiroz à Michele, primeira dama. Inclusive, não acredito nas imagens dele escondido na chácara do advogado da família Bolsonaro. [3][4][5] 

Não acredito que no governo Bolsonaro teve o obsceno tráfico de influências/propina no MEC (Ministério da Educação), pagos com barra de ouro pelos pastores "empresários" e o escandaloso orçamento secreto para superfaturamentos, notas frias e campanha eleitoral suja. [6][7]

Não acredito que a família bolsonaro tenha comprado 51 imóveis em dinheiro vivo, nem que as mansões em que todos eles vivem sejam frutos de corrupção. Afinal mesmo ostentando dezenas de imóveis de patrimônio, Bolsonaro come pão com manteiga, bebe café em copo de requeijão e usa chinelos tipo rider. [8]

Não acredito que no governo de Bolsonaro tantos ministros foram exonerados por seus crimes contra a população e o Estado. Dizem que eram todos técnicos. Curioso é que mesmo sendo técnicos, foram aproximadamente 30 trocas de ministros. [9]

Não acredito que no governo Bolsonaro cortou-se investimento em saúde, na  prevenção e tratamento do câncer, do HIV e da farmácia popular. [10][11][12]

Não acredito que no governo Bolsonaro mais se destruiu nossas florestas, como aponta o IPEA e tantas outras instituições ambientalistas nacionais e internacionais. Não acredito naquela famosa reunião que o ministro do meio ambiente Ricardo Salles disse para aproveitar o foco na pandemia e "deixar a boiada passar" e, assim, fragilizar a fiscalização e revogar leis de proteção. Não acredito no desmonte do IBAMA e ICMBIO, nem na multa própria que o Bolsonaro revogou e que exonerou quem a imputou. [13][14][15]

Não acredito que no governo Bolsonaro os indígenas, negros, mulheres e LGBTQIAP+ foram mais desrespeitados, ameaçados e mortos - segundo instituições representativas apontam. [16-20]

Não acredito que Bolsonaro seja um fascista mesmo sendo um ufanista - esse discurso patriótico que não considera o povo, a história e as reais riquezas nacionais. [21][22]

Não acredito que Bolsonaro seja racista, mesmo referindo-se a negros em arroubas e colocando capitães do mato em instituições que deveriam pautar a luta antirracista. [23][24]

Não acredito que Bolsonaro seja misógino, mesmo agredindo mulheres o tempo todo, de parlamentares a jornalistas (exceto as subservientes próximas, ao menos na visão delas). [18]

Não acredito que Bolsonaro seja homotransfóbico, mesmo que ele tenha alegado que era falta de surra e que ele minta a respeito do tema há década em rede nacional e que despreze a dignidade dessas pessoas. [25]

Não acredito que Bolsonaro seja um anti-cristo, mesmo usando seu nome em vão, defender a tortura e o ódio cotidianamente. Mesmo zombando da morte e vida, mesmo sendo um genocida. [26]

Não acredito que o governo Bolsonaro seja o pior governo da democracia brasileira, pois não acredito em antolhos (instrumento que limita a visão dos gados).

[1] https://www12.senado.leg.br/tv/programas/inclusao/2022/08/brasil-volta-ao-mapa-da-fome
[2] https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/10/07/poliomielite-esta-de-volta-no-brasil-entenda-caso-sob-investigacao-no-para.htm
[3] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/01/20/entrevista-amigo-de-bolsonaro-caso-rachadinhas.htm
[4]https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-24/os-bolsonaro-sempre-foram-os-representantes-ideologicos-dos-grupos-milicianos.html
[5] https://veja.abril.com.br/politica/queiroz-diz-por-que-depositou-89-mil-reais-na-conta-de-michelle-bolsonaro/
[6] https://www.sbtnews.com.br/noticia/brasil/213894-propina-de-r-15-mil-a-r-40-mil-e-barras-de-ouro-relembre-escandalo-no-mec
[7] https://www.extraclasse.org.br/politica/2022/10/o-que-e-este-tal-orcamento-secreto/
[8] https://congressoemfoco.uol.com.br/area/pais/familia-bolsonaro-adquiriu-51-imoveis-em-dinheiro-vivo/
[9] https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/03/28/governo-bolsonaro-ja-acumula-quase-30-trocas-de-ministros-desde-2019-veja-lista.ghtml
[10] https://www.estadao.com.br/politica/governo-bolsonaro-corta-verba-contra-o-cancer-para-bancar-orcamento-secreto-em-2023/
[11] https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/10/5042798-governo-reduz-verba-para-tratamento-de-aids-e-protege-orcamento-secreto-em-2023.html
[12] https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2022/09/17/remedios-do-farmacia-popular-cortados-por-bolsonaro-podem-custar-ate-r-65.htm
[13] https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2021/09/21/bolsonaro-tem-recordes-de-destruicao-do-meio-ambiente-mas-
usa-dados-para-enaltecer-seu-governo-entenda.ghtml
+ Greenpeace Brasil. Com Bolsonaro, Amazônia tem maior Desmatamento desde 2006. https://www.greenpeace.org/brasil/blog/com-bolsonaro-amazonia-tem-maior-desmatamento-desde-2006/
[14] https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/noticias/noticias/304-desequilibrio-da-amazonia-se-aproxima-do-ponto-de-nao-retorno
[15] https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/03/29/ibama-exonera-servidor-que-multou-bolsonaro-por-pesca-irregular.ghtml
[16] https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2022/03/23/onu-denuncia-ataques-de-bolsonaro-aos-indigenas-e-cita-violacao-de-tratados.htm
[17] https://www.brasildefato.com.br/2022/03/08/veja-nove-vezes-em-que-bolsonaro-atacou-os-direitos-das-mulheres
[18] https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-tem-historico-de-acoes-agressivas-contra-mulheres/
[19] https://diplomatique.org.br/os-direitos-lgbt-sob-o-governo-de-bolsonaro/
[20] https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/01/4976459-bolsonaro-afirma-que-pautas-lgbt-destroem-a-familia-e-comemora-pautas-na-mao-de-mendonca.html
[21] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/08/29/deus-patria-familia-lema-de-bolsonaro-tem-origem-fascista-entenda.htm
[22] https://www.cut.org.br/noticias/entenda-o-que-e-fascismo-e-por-que-o-governo-bolsonaro-flerta-com-o-regime-0d21
[23] Bolsonaro diz novamente que negro é pesado em arrobas e ironiza condenação em fala no 'cercadinho' https://www.youtube.com/watch?v=g_h8Uw4KO-0 
[24] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/05/bolsonaro-volta-dizer-que-negro-e-pesado-em-arrobas-e-ironiza-sua-condenacao.shtml
+https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/08/bolsonaro-repete-2018-e-ignora-politica-para-negros-em-programa-de-governo.shtml
[25] https://exame.com/brasil/7-vezes-em-que-gays-e-mulheres-foram-alvo-de-bolsonaro/
[26] https://www.cut.org.br/noticias/frente-de-evangelicos-declara-apoio-a-lula-e-compara-bolsonaro-a-anticristo-3491


segunda-feira, janeiro 18, 2021

Turismo Pós-pandemia: vai voltar, mas será diferente.

O impacto ainda está sendo estimado, visto que a pandemia e suas consequências seguem em curso. Já sabemos que a paralisação do turismo e a recessão econômica têm ocasionado o fechamento de empresas, perda de empregos, aumento do trabalho informal e, por consequência, a precarização da vida. Tudo isso tende a agravar problemas sociais no Brasil, o que impactará na saúde das pessoas e destinos. E o turismo é, antes de qualquer coisa, um fenômeno social, ou seja, os fluxos de pessoas dependem de variáveis culturais, comportamentais e expectativas pessoais. A percepção de segurança, a priorização de necessidades e a busca por resignação ou superação de uma pandemia deve influenciar nas dinâmicas do setor. Nesse sentido, uma tendência é o desenvolvimento local, processos de enraizamento e valorização da arte, cultura e ambiente em resposta a atual conjuntura de destruição, descontinuidade e desconstrução, que não são apenas em consequência da pandemia, mas também da economia e da política. Não há segredo, a recuperação após termos uma segurança sanitária será gradual, conforme recuperemos o poder de consumo e o bem-estar social. E, para mim, o melhor caminho é se associar e positivar a cultura e o ambiente.

O turismo de férias vai, em algum momento, voltar. Mesmo que demore alguns anos, as pessoas vão viajar. Em relação ao setor MICE (congressos, conferências, seminários etc.), alguns podem mudar, outros não. Talvez em um primeiro momento, em resposta à recessão econômica, seja uma alternativa vantajosa financeiramente, contudo, não me parece que seja uma tendência a qualquer público e setor. Ter um desempenho bom e eficiente não necessariamente supera as expectativas do público e o fideliza, promove networking, etc. Talvez algumas palestras e negociações se adequem bem a esse modelo, visto que a mediação é limitada e muitos querem apenas prestigiar ou consumir. Já as conferências, feiras e eventos que pressupõem uma maior interação e apelos semióticos, bem como diferentes linguagens não devem se limitar ao ambiente virtual, pois restringe a experiência de seu público. Além disso, alguns rituais não são meras formalidades, eles agregam valor como, por exemplo, os coquetéis e os serviços agregados que possibilitam experiências.

Antes da pandemia notávamos que os hotéis estavam lançando marcas e serviços com apelo para o lifestyle, para o compartilhamento, para a reunião das pessoas. Já as empresas aéreas estavam colocando cada vez mais gente dentro de um avião. Isso pode mudar a curto prazo, mas acredito que com o tempo isso seja retomado. O mais difícil será recuperar as condições sociais para tanto. Somos seres socializáveis, sempre nos deslocamos e atualmente um conjunto de imagens potencializam esses desejos. A socialização, a experimentação e as viagens estão num período de latência. E ao que tudo indica, dentre os diversos estilos de vida, um aspecto parece ser comum entre todos: congregar a conexão, o ambiente e aquilo que realmente importa, nossos afetos. Além disso, cada empresa terá o desafio de definir seu posicionamento, considerando a sensibilidade aos preços, perfil de seus consumidores, dentre outros fatores que já conhecemos.

Estamos numa fase de constantes mudanças e agravamento de crises econômicas, ambientais e sociais. Possivelmente - e assim desejo - o turismo seja um horizonte construtivo diante de tanta destruição, de modo a estabelecer pontes entre essas dimensões. Para tanto, a iniciativa privada, o Estado e a sociedade civil precisam estar integrados neste projeto. Em meio a tantas perdas e lutos, precisamos germinar o novo, acreditar na potência da vida e pessoas, valorizando-as na prática, cotidianamente, no desenvolvimento de uma atividade ética e justa, visto que o turismo une sonhos, trabalho, tempo e ambiente. E a pandemia nos convida a olhar para tudo isso.


*Texto enviado como contribuição à Agência de Notícias Brasil-Árabe 

Fábio Ortolano é docente no Senac Aclimação, bacharel em Turismo, mestre em Mudança Social e Participação Política e doutor em Psicologia Social.

quarta-feira, julho 10, 2019

Reforma da previdência: a desfaçatez insolente e sórdida das elites econômicas

Não é à toa que a pauta da reforma – nos termos mais apropriados, a destruição - da previdência saia na seção de economia e não de política na grande mídia. Uma das primeiras matérias publicadas no portal UOL, que aborda como cada deputado federal votou no primeiro turno, curiosamente, traz na mesma página especulações financeiras e oscilações de valores das moedas. Tal reforma forjada, de fato, é mesmo mais uma questão econômica e financeira do que propriamente política, do interesse cidadão e do bem comum. Ela visa a transformar direitos em produto de mercado, garantias sociais em itens de lucro e especulação financeira.
Há muito tempo as elites econômicas tentam nos convencer da lorota que existe um déficit na previdência. Elas mesmas usurpam dos recursos e depois deturpam a realidade novamente em benefício próprio. Desde a promulgação da Constituição Cidadã, de 1988, buscam derrubar os direitos sociais previstos nela. Numa matéria publicada em 27 de julho do mesmo ano, no Jornal Folha de São Paulo, José Sarney, presidente à época, aponta um déficit na Seguridade Social, justificando uma ingovernabilidade do país, dado este diferente do apontado pelo ministro da previdência na ocasião.
A Seguridade Social compreende os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. O orçamento é composto por contribuições de trabalhadores, de empresários e por repasses de tributos do Estado.
O Relatório final da CPI da Previdência de 2017 evidencia que não existe déficit. Mostra que, na realidade, dentre alguns fatores, o rombo se dá tanto por dívidas, desvios e sonegações quanto por desonerações de empresas e pela DRU (Desvinculação de Receitas da União), a qual possibilita retirar atualmente até 30% dos recursos da Seguridade Social para investimento em outras áreas, como o pagamento dos juros da dívida pública, que por fim acaba transferindo esses recursos aos bancos. Em 2013, foram mais de 113 bilhões desviados da S. Social via DRU, segundo dados oficiais, publicados pela Associação Nacional dos Auditores-fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP)[1]. A mesma CPI aponta que empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência, segundo portal do Senado[2].
O déficit é um dos principais argumentos utilizados pelo governo e outros defensores da reforma da previdência, contudo, segundo a ANFIP, por conveniência, esse argumento oculta receitas e incha artificialmente as despesas para tramar seu resultado. Querem que os trabalhadores paguem a conta de tantos desvios, politicagem, sonegações e dívidas de empresas.
Como podem aprovar a desoneração de 83 bilhões de ruralistas, não cobrar a dívida de bancos e empresas privadas, tal como a Havan, que deve 168 milhões para Receita e ao INSS[3] e, ao mesmo tempo, imporem aos trabalhadores com diferentes expectativas de sobrevida (que calcula o tempo de vida após as pessoas se aposentarem) o aumento do tempo mínimo de trabalho? Na prática, alguns trabalhadores nunca irão se aposentar.
Nesse ínterim, deputados sórdidos descaradamente trocam seus votos de uma pauta tão relevante por emendas parlamentares oferecidas pelo governo a toque de caixa e a Federação da Indústria numa desfaçatez insolente por meio de seus bichos infláveis diz que o empresariado “não pagará o pato” nem “engolirá o sapo”. E a título de constrangimento, na votação em primeiro turno, o deputado federal de Americana, Vanderlei Macris, votou a favor dessa reforma obscena que nos empurra goela abaixo a destruição de nossos direitos.





[2] Senado Notícias. Empresas privadas devem R$ 450 bilhões à Previdência, mostra relatório final da CPI https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/10/23/empresas-privadas-devem-r-450-bilhoes-a-previdencia-mostra-relatorio-final-da-cpi
[3] Carta Capital. MTST ‘compra’ em loja da Havan e paga com cheque da dívida de Hang https://www.cartacapital.com.br/sociedade/mtst-compra-em-loja-da-havan-e-paga-com-cheque-da-divida-de-hang/


sexta-feira, março 29, 2019

Adeus outras sete quedas?


“Sete quedas por nós passaram e não soubemos amá-las”, assim dizia o texto de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1982 no Jornal do Brasil, uma crítica à construção da hidrelétrica de Itaipu e a destruição do Parque Nacional das Sete Quedas.   

Marco no movimento ambientalista no Brasil, a resistência contra o represamento do Rio Paraná nos revelou um ideal equivocado de progresso, no qual outras leituras desenvolvimento local, relação ser humano e natureza e proteção da biodiversidade foram solapados e submersos por uma visão hegemônica de mudança social e intervenção no meio. Represou-se toda potência turística, riqueza natural e força d’água para simplesmente tornar-se energia.

Embora o fato tenha ensinado muito, enquanto brasileiros, aprendemos pouco, haja vista a reprodução das mesmas práticas nos dias de hoje. Assusta-nos os desastres ambientais em Mariana e Brumadinho, mas não olhamos pro nosso próprio quintal. Em Americana, assistimos à fragmentação da maior área natural pública, o Parque Natural Municipal da Gruta, uma unidade de conservação, frente à construção de outro logradouro para o fluxo de carros, mercadorias e pessoas alienadas em seu cotidiano e experiência do espaço-tempo.

A obra de interligação dos bairros Parque das Nações e Parque da Liberdade, pela Av. Florindo Cibin, representa o soterramento e transposição de terra e cursos d'água, extração vegetal, ameaça aos pequenos mamíferos que ali resistem e prejuízos irreversíveis à paisagem e integralidade do parque, tudo referendado por interpretações frias de burocratas alheios à importância da área e suas minuciosidades.

Curiosamente, as águas das sete quedas do Parque da Gruta, hoje ainda mais ameaçadas, caem no Rio Piracicaba, escoando no Rio Tietê, que por sua vez deságuam no Rio Paraná e encontram as sete quedas submersas.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Direitos Humanos: a Declaração Universal num cenário de polaridades*

Nesse ano, em 10 de dezembro de 2018, completaremos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. E no título, pontuamos uma provocação. Quais as consequências para esses direitos num cenário de polaridades?

Primeiramente, os antecedentes. Na Antiguidade, Ciro, o Grande, libertou os escravos em seu império na Pérsia, considerando a noção de igualdade. Jesus Cristo na Judeia defendeu as prostitutas, os pobres e os menos favorecidos, contrapondo-se às injustiças. Na Idade Média, se instituiu o parlamento na Inglaterra, questionando e dissolvendo a centralidade de poder. Abrindo a Idade Moderna, ante a monarquia, a aristocracia e a Igreja, a Revolução Francesa trouxe os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pela república democrática. Assim, podemos observar que historicamente os Direitos Humanos sempre estiveram em disputa, mesmo que não nomeássemos assim.  

Embora sempre em voga, eles nunca foram de todos. Os países nórdicos continuaram a explorar suas colônias, os regimes autoritários seguiram negando as liberdades individuais e pessoas continuaram sendo violentadas, a exemplo o genocídio indígena nas Américas e a escravidão no mundo. Contudo, dois fatos históricos da II Guerra Mundial foram determinantes na busca da universalização dos Direitos Humanos: o holocausto, assassinato em massa de seis milhões de judeus, metade da população judaica no planeta à época; e os bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, os quais além de matar milhares de pessoas instantaneamente, trouxeram grandes consequências posteriores inestimáveis por conta da radiação. Ambos os fatos deram a noção de nossa capacidade destrutiva e da condição que temos de extinguir a humanidade do planeta terra.

Nesse sentido, nasce em 1948 a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sua finalidade, com base contratualista, é assegurar os atributos da dignidade da pessoa humana, sua vida e liberdade; seus direitos civis, políticos e econômicos; bem como a salvaguarda da paz. Prevê a autodeterminação dos povos e a democracia, ou seja, a soberania popular. Considera os Direitos Humanos processuais, históricos e passíveis de aperfeiçoamento, sendo geridos por meio de sistemas internacionais, regionais, nacionais e locais. Como exemplo, temos a Organização das Nações Unidas, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Ministério dos Direitos Humanos e as secretarias estaduais e municipais de direitos humanos e cidadania.

Posto isso, quais as consequências para esses direitos num cenário de polaridades na atualidade?

A meu ver, a polaridade se dá em duas dimensões, a primeira delas, material, em que antagonistas se contrapõe em cena. Foi assim na formação dos impérios, na condenação de Jesus Cristo, na Guerra Fria, nos regimes totalitários, nas revoluções liberais, socialistas, burguesas, de trabalhadores e nos movimentos ambientalistas e das minorias políticas. O reconhecimento de antagonistas é uma dimensão da consciência política e da participação. Segundo, a polarização é também uma estratégia discursiva, cognitiva e ideológica de condução das massas. Nesse caso, pode compactar a complexidade social, estrutural e política num quadro interpretativo limitado, até maniqueísta, conduzido muitas vezes pelas emoções.  O que quero dizer com isso?
Embora a materialidade da vida, as lutas e as resistências nos coloquem em posições antagônicas, relevantes para consciência politica e participação, é preciso dar atenção quando isso se torna uma força compreensiva limitante, paralisante e destrutiva. O problema é quando a polarização, embalada pelo contágio emocional, corrói as bases dos direitos humanos, como a democracia, a salvaguarda da paz e dos atributos da pessoa humana.  

Eis aí o nó que está nos enforcando na atualidade. Influenciados por mais que uma polarização material, sobretudo e massivamente por uma polarização discursiva, limitamos a leitura da realidade e desacreditamos na capacidade de mudança, nas instituições, na ética e, por fim, em nós mesmos. Deste modo, a polarização discursiva em alguns casos se torna uma força paralisante e destrutiva. Como disse Jurandir Freire Costa, em “A ética democrática: o lado privado da violência pública”, a forma suicida com que nos deixamos invadir pela violência, sem fazer nada, é talvez um sinal desse desejo latente de destruir o que não temos coragem de transformar (Jurandir F. Costa, 1997, p. 82).

Mediante a destruição das bases dos Direitos Humanos e os casos de violência que assistimos nesse cenário, precisamos nos abrir ao diálogo e posicionarmo-nos em defesa dos direitos humanos. Não podemos admitir o caos, tendo alguns caminhos possíveis para enfrentá-lo, entre eles, a) preservarmo-nos, sem qualquer garantia de que não seremos afetados por toda conjuntura social; b) acreditarmos nas instituições (partidos, poderes instituídos, leis, acordos internacionais etc.), reivindicando-as como sociedade civil e participando da vida pública e c) projetarmos no outro a mudança que queremos, contando com a sorte que ele faça o que almejamos.

As consequências já nos parecem claras, o que nos resta é o posicionamento.

Convém ponderar que a Carta da Paz Social, de 1945, elaborada na I Conferência das Classes Produtoras do Brasil (Conclap), é o documento fundador do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) e Serviço Social do Comércio (SESC) e prevê no seu primeiro artigo “A manutenção da democracia política e econômica e o aperfeiçoamento de suas instituições são considerados essenciais aos objetivos da felicidade social e à dignidade humana”. (Carta Social da Paz, 1945). 


*Carta convite para o evento “Direitos Humanos: a Declaração Universal num cenário de polaridades” da Semana SENAC de Diversidade e Inclusão.


Quando: Dia 25 de outubro às 19:30h.

Onde: SENAC Aclimação | Rua Pires da Mota, 838. No foyer, 1º andar. 


Para se inscrever, clique aqui.


Semana Senac de Inclusão e Diversidade 2018

domingo, outubro 07, 2018

A velha disputa nacional forjada de mudança


© AFP 2018/ Nelson Almeida
O Brasil desde a colonização vive três disputas: moral, econômica e fundiária, todas elas mediadas pela violência. Foi assim com os indígenas, com os negros escravizados e com aqueles que se opuseram aos padrões normativos. Hoje, se reproduz nas periferias urbanas, no campo e áreas naturais, nos trabalhos precarizados e direcionadas às minorias políticas (Mulheres, LGBTs, Indígenas, Negros, Pessoas com Deficiência e Refugiados).

Involuntariamente, eu acompanho o Bolsonaro desde 2011, quando, inclusive, escrevi um texto aqui sobre as semelhanças dele com um parlamentar estadunidense da década de 1970. Desde sempre medíocre, mentiroso e antiético.

Bolsonaro representa esse projeto de violência e privilégios que sustenta o país mais desigual do mundo e eu explico o porquê.

Primeiro, sua perversidade moral: diante de um avanço progressista, em 2011, ele inventa uma série de mentiras sobre um material contra homofobia do Ministério da Educação e, em 2018, reforça a mentira em rede nacional, usando uma publicação estrangeira. Defende abertamente a tortura, a violência contra LGBTs e mulheres, inclusive fazendo apologia ao estupro, e já se referiu aos quilombolas e negros como vagabundos, classificando-os como gados. Tudo isso gravado e compartilhado em mídias sociais. E, pasmem, dissimula.

Segundo, a conveniência econômica. Por que ele faz sinal de tiro com crianças de colo? Pois, representa os interesses das empresas armamentistas. A liberação das armas, além de acirrar a violência pública e matar pessoas inocentes, representa um mercado promissor e altamente lucrativo às empresas privadas. Também recebe apoio de empresários, como o líder do Grupo Havan, que coage funcionários a votarem em seu candidado. Um grupo em franca expansão, congregando mais de cem lojas de departamentos, bem como outros empreendimentos de geração de energia elétrica, postos de combustível e hotelaria. De fato, não está preocupado se é o PT que estará no poder, pois mesmo na gestão desse partido o grupo ascendeu, e muito, trata-se dos interesses em otimizar os lucros, precarizando o trabalho e as leis trabalhistas. E Bolsonaro já votou à favor da reforma trabalhista de Temer.

Terceiro, a questão fundiária. Ele defende a revogação das terras indígenas e a destruição de Unidades de Conservação. Estamos aniquilando culturas tradicionais e destruindo ainda mais biomas ameaçados de extinção, ecossistemas da Mata Atlântica e Cerrado, bem como a maior floresta do mundo, a Amazônia, perdendo espaço para soja e alimentos transgênicos e ele ainda defende a revogação de áreas protegidas. Ele não está sozinho, as empresas nacionais e internacionais de mineração estão com ele, o apoiam, e os impactos nós vimos recentemente com o maior crime ambiental da nossa história, a avalanche de lama com rejeitos de minérios, causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

São as mesmas disputas que se reproduzem desde o Brasil colônia e hoje são camufladas numa retórica de mudança. Bolsonaro se diz diferente dos outros políticos. Ele tem 27 anos de vida política, quase 03 décadas e nunca fez qualquer mudança, apenas enriqueceu. Nunca fez qualquer projeto de lei anticorrupção, nunca! Em tantos anos aprovou dois projetos, dois! E mais, confessou ter recebido 200 mil da JBS, é acusado de ter funcionária fantasma, receber propina de campanha, de nepotismo e usou auxílio moradia tendo com casa própria. Reproduz a herança política junto aos seus familiares e o fisiologismo político, ou seja, toma decisões em benefícios privados ao invés do bem comum. Não à toa, se sustenta nas bancadas mais fisiologistas do Congresso Nacional, a da bala, do agronegócio e da bíblia, a velha tríade do poder.

Imagem do clipe Perfeição, Legião Urbana.
Escrevendo esse texto, escutei fogos em comemoração ao resultado da eleição no primeiro turno, na qual ele foi o presidenciável mais votado. Lembrei da música “Perfeição”, da Legião Urbana. “Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos. Tudo que é gratuito e feio, tudo o que é normal. Vamos cantar juntos o hino nacional (...) Vamos festejar a inveja, a intolerância, a incompreensão. Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada”.


Para saber mais:

É #FAKE que livro citado por Bolsonaro no JN é o que aparece com carimbo de escola de Maceió (G1)
https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2018/09/04/e-fake-que-livro-citado-por-bolsonaro-no-jn-e-o-que-aparece-com-carimbo-de-escola-de-maceio.ghtml

Mineradoras, agronegócio, armas e 'indústria da fé' bancam Bolsonaro (Rede Brasil Atual)
https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/10/mineradoras-agronegocio-armas-e-igrejas-financiam-bolsonaro

Bolsonaro ensina criança imitar arma com a mão (O Globo)
https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-ensina-crianca-imitar-arma-com-mao-22905093

Ao explicar R$ 200 mil da JBS, Bolsonaro admite que PP recebeu propina: “qual partido não recebe?” (Jovem Pam)
https://jovempan.uol.com.br/programas/ao-explicar-r-200-mil-da-jbs-bolsonaro-admite-que-pp-recebeu-propina-qual-partido-nao-recebe.html

Análise da emergência do comportamento fascista. Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político e escritor. 







quarta-feira, março 23, 2016

Parque Natural Municipal da Gruta: Morrer para germinar?

Fotografia. Joviniano Netto, 2015. 
Caros leitores, como podemos aceitar essa postura destrutiva que nos reduz a dicotômica parte contraposta à natureza? Será preciso morrer para germinar?  Essa nossa renúncia coletiva diz de uma forjada divisibilidade entre nós, humanos, e o meio ambiente.  E dessa forma, morremos todos.  
Há anos acumulamos uma série de denúncias, processos, requerimentos, projetos, trabalhos e textos acerca do Parque Natural Municipal da Gruta. Paralelamente, como temos mostrado por meio de registros fotográficos compartilhados nas redes sociais, transformamos a maior unidade de conservação de Americana num lixão a céu aberto. O Parque, ainda resquício de Mata Atlântica e cenário ímpar por sua formação geológica e nascentes, é destruído pela população e obras públicas. 
Os crimes ambientais são graves e vergonhosos para uma cidade de médio porte como Americana. Construção de logradouros, desmembramentos de lotes nos arredores, despejo de esgoto e entulho na área, erosão, ocupações irregulares, desmatamento do resquício de Mata Atlântica, mortalidade da fauna local e problemas de saúde pública. 
Nos últimos meses, junto ao coletivo Amigos da Gruta, temos articulado uma série de iniciativas no Parque, inclusive pressionando o poder público a cumprir o básico de suas responsabilidades. O executivo tem feito algumas ações, a passos lentos e limitado.  E ainda alguns políticos tentam aproveitar a carona. 
Bem, eis que em meio aos trabalhos de conscientização ambiental, pesquisa, encontros e conversas com as comunidades do entorno, nas últimas visitas, identificamos novos focos de despejo de esgoto sem tratamento no local. O Departamento de Água e Esgoto parece aguardar a construção da nova estação de tratamento da Balsa, uma obra parada. Lastimável tamanha irresponsabilidade ambiental, um crime. Nesse cenário, me assusta a indiferença do Ministério Público que, mesmo recebendo nossas denúncias, não move qualquer ação por conta do mau gerenciamento do Parque. As autoridades públicas, sobretudo do DAE, devem ser responsabilizadas. 
Com efeito, infelizmente, Americana não merece o título de município Verde-Azul. Aliás, surpreende termos tido esse selo, haja vista o descarte de esgoto sem tratamento numa área com afloramentos do Aqüífero Tubarão, sedimentação de arenito e queda d’água de 18m de altura. Independentemente dos problemas e reformas na estação de tratamento de Carioba, bem como os bons projetos de educação ambiental, como alegam os técnicos, a titulação não pode ser conferida diante dessa negligência grotesca com a principal unidade de conservação de proteção integral da cidade.   
Como diria Gilberto Gil, na música Drão, há que se plantar nalgum lugar, ver ressuscitar no chão, nossa semeadura. 

sexta-feira, março 18, 2016

Subjetividades privatizadas e cooptadas

*Texto originalmente encaminhado como colaboração ao Portal Novo Momento e ao jornal O Liberal

Caros leitores, mais triste que a polaridade política na qual nosso país atravessa, é perceber como nossas subjetividades, sentidos construídos na leitura do mundo, estão cada vez mais privatizadas e cooptadas pelos interesses das grandes oligarquias políticas e econômicas mundiais. Isso não é teoria da conspiração e sim a formatação geopolítica de poder e imperialismo internacional.
As pessoas acostumadas a não participarem da vida pública, pois não acompanham os trabalhos nas casas legislativas, nunca visitam as câmaras e assembléias, não interferem na realidade local, nunca são propositivas diante dos conflitos cotidianos que se registram na cidade, eximem-se de suas responsabilidades cidadãs, enfim, são alienadas em suas subjetividades privatizadas. Acreditam apenas em suas percepções pessoais, baseadas em suas vidas privatizadas, fechadas em si mesmas e em tudo que cerca seu reduzido campo de observação e consciência. Não há espaço para uma visão holística, da totalidade.
Nesse sentido, são facilmente cooptadas pelas grandes instituições manipuladoras da opinião pública, como as grandes mídias, também oligarquias que historicamente estão ligadas ao terrorismo e violência de Estado. Essa massa absorve uma consciência política forjada, um raciocínio tão limitado que não compreende a complexidade da vida em sociedade. Complexo porque são vários elementos e variáveis implícitos e correlacionados, ora em choque, ora alinhados, que qualquer resposta rápida e objetiva para o cenário político é um reducionismo grotesco.
Como podemos acreditar num discurso mentiroso de anticorrupção? O que surpreende é a falta de coerência e sensatez, haja vista que os argumentos não se sustentam contextualizados na história e na vida prática coletiva, tal como nos inúmeros casos de sonegação, subornos e desvios de verbas públicas, como temos assistido em nossa cidade.
Sugerir que os problemas nacionais são culpa de um partido ou alguns parlamentares é ingenuidade ou perversidade misturada à irresponsabilidade ética, quando num sistema democrático há diversas coligações, ações intersetoriais e perenidade entre sociedade civil e poder público. Mais que isso, o que choca é a renúncia coletiva em cuidar do público e bem comum cotidianamente, não apenas em manifestações performáticas.

Posto isso, prestemos atenção: esse golpe midiático é uma afronta à soberania nacional, e o pivô dessa convulsão social não é a operação Lava-Jato em si, mas o interesse internacional no Pré-Sal, conforme nos lembra a professora e filósofa Marilena Chauí. Olhemos as inferências no Oriente Médio nos últimos anos ao invés de nos focarmos em nossas subjetividades privatizadas.  

segunda-feira, junho 22, 2015

O golpe do falso testemunho à educação

* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal e ao Portal Novo Momento


 Os planos municipais de educação de várias cidades do Brasil, inclusive do estado de São Paulo e sua capital, acabam de sofrer um golpe forjado em falso testemunho e todos nós, sociedade civil em geral, devemos estar atônitos, pois sofreremos as consequências que continuarão escoando sangue por meio da violência doméstica nas famílias, das agressões nas escolas, dos assassinatos cotidianos e da violência estrutural de Estado.

Instituições como a Fundação Perceu Abramo, o Instituto de pesquisa econômica aplicada (Ipea), a Central 180, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Instituto Avon, o Data Popular e o Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm apontado há anos números estarrecedores: mais de 1 milhão de mulheres são vítimas da violência doméstica por ano, sendo quase 60% delas agredidas todos os dias. Entre 2001 e 2011 ocorreram mais de 50 mil feminicídios no Brasil. Em 2013 foram quase 15 mil inquéritos que chegaram à Justiça do Distrito Federal por meio da Lei Maria Da Penha. Em 2014, 03 em cada 05 mulheres jovens sofreram violência em seus relacionamentos. 

Quanto à homofobia, sabemos que o Brasil é a nação que mais mata homossexuais no mundo. A cada 28 horas um homossexual é assassinado no país. Só em 2012 foram quase 10 mil denúncias de violação junto à Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, sendo 338 assassinatos motivados por homofobia, e os números, pasmem, aumentam ano a ano.

As propostas substitutivas aprovadas nas diversas câmaras por pressão de setores religiosos rompem com anos de pesquisas, debates e trabalhos de acadêmicos e movimentos sociais. Mais que isso, denotam uma irresponsabilidade dos parlamentares que ignoram o sistema democrático. Os Planos Municipais de Educação são frutos de pelo menos seis anos de discussões públicas, com ampla participação democrática.  São produtos de conferências articuladas desde 2009 com as comunidades escolares, os gestores públicos da educação e a sociedade civil para pensar desde o ensino fundamental ao superior. Isso quer dizer que diversos atores construíram coletivamente durante anos os documentos e propostas para a educação, visando o futuro do país e da sociedade. Eu mesmo participei dessas etapas e constatei que as demandas por tratar gênero e orientação sexual nas escolas vinham, sobretudo, de sua base, da comunidade de alunos e professores, que faziam cartazes expressando a necessidade de debater violência contra as mulheres e homossexuais, certamente por serem parte dessas estatísticas acima mencionadas. E, afinal, as escolas são parte da sociedade e cumpre respondê-la com a educação para cidadania. A necessidade de tratar gênero e orientação sexual representa uma reparação de injustiças históricas.

Assim, é assustador ver pessoas e setores da sociedade que nunca promovem a participação política em detrimento da condução de rebanhos se pronunciarem contra a “ideologia de gênero”. Isso representa uma desonestidade e ignorância sem dimensão. As emendas de consenso nada mais foram que o silenciamento das minorias políticas. Infelizmente, até compreensivo considerando, por exemplo, Americana, onde temos um parlamento de homens e uma única mulher que nunca fala ou defende as causas das mulheres, a maioria insensível ou pouco conhecedora desses temas. Em Campinas e Santa Bárbara D'Oeste tiveram até a pachorra de proibirem discutir gênero e sexualidade nas escolas, uma inconstitucionalidade. Aliás, já está expresso nas Lei de Diretrizes e Bases da Educação que isso é um tema transversal, portanto, a ser abordado em todas as disciplinas não apenas na biologia como alguns mais conservadores gostariam. Gênero e sexualidade são qualitativos para humanidade, impossível normatizá-los e essencializá-los.

A substituição dos textos não está de acordo com os princípios previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos como apontado em algumas falas, haja vista que silencia as vozes das minorias, universalizando os sujeitos ao invés da dignidade da pessoa humana, não considerando também o princípio da reciprocidade, outra incompreensão pela ignorância. Os demais argumentos são tão incabíveis como este, próprios de quem nunca trabalhou com educação ou pouco sabe quais as demandas que emanam nas instituições de ensino, de quem mal compreende nossa história social. Há até uma absurda defesa da família, instituindo um modelo único possível, obviamente o patriarcal, monogâmico e cristão, desconsiderando os diversos arranjos familiares que temos no Brasil, como aponta o IBGE, e no mundo, desde as culturas indígenas às comunidades orientais e africanas. Isso é um golpe pelos privilégios como se fez brutalmente desde nossa colonização. 

O que os Estados Unidos viveram nos anos 60 e 70, reproduzimos hoje no Brasil, personagens e enredos que de tão parecidos, parecem ficção. Aliás, aqui mesmo falamos sobre as semelhanças de John V. Briggs e Jair M. Bolsonaro.  Fomos incapazes de aprender com erros históricos do passado e promovemos um horror ao invés de um futuro pela igualdade e justiça como prescrevem os acordos internacionais que somos signatários. 

Quanto aos setores religiosos que subitamente apareceram, penso que o perdão da Igreja à humanidade pelo genocídio que desenvolveu na Idade Média não foi capaz de redimir a perversidade de alguns de seus vulgos discípulos, estes tão incompreensíveis. O mesmo ocorre com os demais fundamentalistas religiosos, sem generalizações, que se levantam em falso testemunho, vociferando atrocidades em nome de outro maior, absoluto e incontestável, como a figuras de Deus e Jesus, cristalizadas em nossa cultura. Fundamentalistas que fazem uma interpretação oportunista de um mito, pois o Deus e o Jesus sagrados são amor, ternura e compaixão, não indiferença, ódio e irresponsabilidade intelectual e política. 

sábado, abril 04, 2015

Redução da maioridade penal: um contrassenso da adultez.

Motivada por setores conservadores da sociedade, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição 171/93, que visa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Segue a discussão na casa legislativa, nos conselhos especiais, em fóruns, em debates acadêmicos e nas redes sociais. E o que isso significa?

Para mim, fazer frente à violência com projetos de leis pela redução da maioridade penal é um contrassenso. Isso mesmo! Uma contradição de conduta para nós adultos, haja vista que não há nada mais imaturo que projetar a responsabilidade àquele que não é o responsável.

Não fui claro? Pois bem, caro leitor, deixe-me explicar: acreditar que o sujeito - menor de idade - é a causa da violência que acomete a sociedade, beira a insanidade e uma racionalidade infantil. Revela uma estupidez, preguiça e imaturidade em entender a complexidade de um sistema social, político e econômico que produz toda a intolerância, truculência e selvageria nas diversas sociedades.

A violência é histórica e diz de um processo com múltiplos fatores, logo, tratá-la pontualmente, sob a responsabilização dos sujeitos, representa total falta de coerência própria da adultez.

Defender a redução da maioridade penal é legitimar o genocídio urbano nas periferias das metrópoles e nos interiores Brasil a fora.  E acredito que qualquer brasileiro, com o mínimo de maturidade, reconheça o fracasso do nosso sistema penitenciário.

Recuso-me render-me às respostas fáceis dos telejornais conservadores e elitistas, prefiro olhar qualquer pessoa como sujeito dotado de valor moral. Acredito que só podemos pretender a mudança social se nos enxergarmos como corresponsáveis pelas realidades e mazelas que atravessam todos, de modo que, maduros, tenhamos a capacidade de contestar a estrutura e a estratificação social que produzem a violência. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Publicidade Infantil

*Texto originalmente escrito como redação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2014

Exposição "O mundo segundo Mafalda" (2015)
Praça das Artes - SP
Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino, é uma menina que sempre se questiona sobre os dilemas da vida, questões políticas, problemas sociais e práticas cotidianas, como o consumo. Do mesmo modo que nesse tipo de arte que traz vida à Mafalda, na publicidade se utiliza uma série de elementos para a comunicação com os interlocutores, imagens, símbolos, representações, etc. Nesse sentido, como no cartum, é preciso que sejamos crítico com a publicidade infantil.

Desde a antiguidade a persuasão sempre fez parte das nossas relações, seja no paradigma greco-romano, quando defendia-se uma ideia pela argumentação ou no paradigma judaico-cristão, quando a Igreja e a filosofia medieval defendiam seus dogmas como máximas comuns a todos. Aliás, foi com a promoção de suas celebrações, venda de objetos santos, entre outras coisas, que a Igreja deu início à publicidade, ainda que à época não se nomeasse de tal modo.

O fato é que se sempre houve a intenção de persuadir pessoas, devemos ter em conta ter em conta as relações de poder que se estabelecem a partir disso, bem como as discursividades que as constroem. Em se tratando das crianças, por ainda não terem autonomia sobre suas ideias, pensamentos e julgamento e serem influenciadas por discursos simples, temos que estar atentos e socialmente criarmos parâmetros para que a relação assimétrica entre elas e os adultos não interfira em suas subjetividades, quando, por exemplo, criamos uma necessidade de consumo a qual muitas delas não poderão suprir.

Essa atenção é uma responsabilidade do mundo adulto, uma vez que as consequências da publicidade para uma criança tanto influenciam nas suas experiências pessoais, como no sentimento de felicidade, quanto em toda conjuntura social, haja vista o aumento do consumo excessivo de muitos produtos e serviços impacta na saúde pública e no bem-estar social. Se pensarmos nos reflexos da publicidade que se alinha a uma de nossas pulsões de vida, a fome, nos Estados Unidos e no Brasil, o número de crianças obesas hoje é alarmante e representa uma série de problemas, como o aumento de doenças cardiovasculares, baixa auto-estima, custos com medicamentos, etc.

Inspirados na personagem Mafalda, devemos problematizar as questões do nosso cotidiano, como dissemos a persuasão sempre esteve presente na história e a publicidade infantil está muito presente nos dias de hoje, inclusive porque muitos meninos e meninas têm recebem infinitas informações através dos brinquedos, mídias, celulares, games, etc. No Brasil, além de refletirmos através da arte que atinge em geral diversos públicos, podemos propor e reivindicar projetos de leis de base educativa construídos à luz dos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e preocupados com as especificidades da infância, conscientes de que os adultos são responsáveis por esses menores. 

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Resposta à crise financeira e aos óculos escuros

* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal para seção de opinião

Na década 50, em que nos destacávamos como pólo têxtil da America Latina, nosso município apontava para sua vocação industrial. Na mesma época o país cujos emigrantes nos conferiram o nome, transformava sua sociedade e economia. Os Estados Unidos à época diversificava sua mão de obra e investia no comércio, nas finanças, nos transportes, etc. O setor terciário responde hoje por aproximadamente 77% do PIB e 79% dos empregos.

Não que eu seja entusiasta do modelo capitalista americano, tão pouco suponho que o histórico político e social não infiram nas ações econômicas, mas há algo que me toca ao pensar em mudança social, que é a diversidade, em todas as dimensões. Não apenas o multiculturalismo traz respostas às mazelas sociais, como também a diversificação da economia pode significar novas perspectivas de futuro e frentes de ações, públicas e privadas para a transformação da realidade.

Antes da eleição de 2012, na qual infelizmente elegemos Diego De Nadai, eu tentei contato com os candidatos para apresentar um plano estratégico de turismo para Americana, que fiz enquanto cidadão. Apenas um secretário de campanha do Omar Najar me atendeu, mas de qualquer forma não fez coro ao projeto. 

No ano passado entrei em contato com dois vereadores que foram receptivos à idéia, mas preferimos aguardar os desfechos políticos da atual crise. E nesse momento, assim como compartilhei com nossos parlamentares, gostaria de refletir sobre a proposta junto aos leitores do Liberal e às autoridades que lêem o artigo. 

Diante da atual crise financeira e política, nos cabe atenção, criatividade e participação. Pra mim, não será o mais do mesmo que nos salvará do caos instaurado, nem a indústria que há tempos não possui o potencial de antes, tão pouco as autoridades vendidas e cúmplices que decidiam os destinos do município sob “óculos escuros”. Não digo cabresto, pois não vejo a ignorância e muito menos a ingenuidade dos eqüinos nos legisladores que nesses últimos anos foram escudos e munição de Diego De Nadai. Refiro-me metaforicamente aos óculos escuros pela negligência e indiferença que tais representantes nos olharam enquanto cidadãos e para nossa cidade.

À luz de que do lixo podemos construir algo novo para Americana e de que o setor terciário tem sido a aposta dos países em desenvolvimento, modestamente acredito que a nova gestão deve orientar-se em três pilares: aproveitamento do legado deixado, diversificação da economia e gestão participativa. Em se tratando do legado, falo dos equipamentos que surgiram, mas não como fins em si mesmos; sobre a diversificação da economia acredito no potencial de turismo receptivo e social e quanto à gestão participativa, acredito numa política descentralizada de inserção cidadã, vislumbrando que a economia esteja voltada às comunidades e que estas, em parceria com o poder público, se desenvolvam por seus caminhos.  

quinta-feira, julho 24, 2014

O levante conservador: um problema ao multiculturalismo

            Três fatos, dentre inúmeros recorrentes nos últimos dias, podem nos exemplificar um levante conservador que estamos vivendo no país. Isso é um problema ao multiculturalismo e eu explico.
            Nessa semana um cara na academia disse, sem qualquer pudor social, que mulher deveria obedecer ao marido, dar-lhe sempre carinho sem reclamações e que o homem é a autoridade no lar, devendo ela apenas cuidar dos filhos, pois essa é sua obrigação “natural”. Acrescentou que feministas são chatas e mal amadas. Todo seu discurso estava atravessado de ignorância e rancor, desqualificando as mulheres como sujeitos morais. Para quem queira saber mais, até 1800 se explicava a mulher como o sexo invertido, inferior. Depois, passou-se a explicar a distinção dos sexos e dos gêneros, colocando-a presa no lar, no privado, enquanto os homens são educados para o público. Tudo isso, nada mais é que construções discursivas para exercício do poder e da dominação.
            Em 07 de julho foi aprovada uma lei que institui a leitura da bíblia diariamente em escolas públicas de Nova Odessa pelo legislativo local. Curiosamente, na mesma semana uma igreja em Sabará, Minas Gerais, foi invadida e depredada por evangélicos que alegaram serem contra o culto a santos. É uma nova colonização e imposição de valores, tal como quando os europeus vieram catequizar os índios e, praticamente, extinguiram sua/nossa cultura. Fez bem o prefeito em vetar, uma vez que o Estado é laico e não podemos acatar uma crença como hegemônica. 
            Esses dias um conhecido destilou todo seu preconceito numa rede social ao ler uma postagem na qual digo que a funkeira Valesca Popozuda é uma diva, pois para ele, a cantora é uma puta. Valesca aparece numa foto lendo Madame Bovary, de Flaubert, uma obra do século XIX que conta a história de uma mulher que, mesmo sonhadora, não se submete às imposições de uma moral hipócrita. Bem, mas ainda que ela fosse puta, que não é o caso, poderia sim ser diva. A divindade é um significado social.
            Tais fatos representam uma afronta ao multiculturalismo, que diz da coabitação de múltiplas culturas num mesmo lugar. E, em linhas gerais, cultura é um conjunto de práticas, crenças, valores, manifestações artísticas e intelectuais transmitidos entre gerações.  Não existe uma mais importante que a outra. Num mundo tão diverso como o nosso, as religiões, os modos de viver e as subjetividades de cada indivíduo devem ser respeitados e salvaguardados. Não faz sentido falar em alguém que deve submissão a outrem, nem em imposição de uma crença, tão pouco julgar aquele que não conhecemos. 

segunda-feira, abril 07, 2014

A expansão de um regime da sexualidade

                  Não tenho pra mim uma resposta clara, mas sinto que, de fato, estamos se não em um novo - o que Sérgio Carrara nos fala - mas num regime da sexualidade expandido daquele que Foucault nos apresenta em “A história da sexualidade I: A vontade de saber”.
            Não são apenas nos consultórios médicos, nem nos prostíbulos, tão pouco nos confessionários, que o puritanismo burguês têm posto as sexualidades ilegítimas. Hoje outros saberes e códigos compõem esse regime, no controle dos corpos e populações. As imagens e discursos de uma sociedade do espetáculo têm criado novas representações e patologias. Entramos numa nova ou modificada economia discursiva sobre o sexo e a sexualidade, em que as pessoas publicam imagens de seus corpos, constroem identidades atomizadas a partir das redes sociais, criam páginas para análise dos perfis, leia-se dos corpos, de sujeitos que participam dos aplicativos de relacionamento/sexo, questionam o abuso sexual sem sequer conceber o que é o abuso, falam da pedofilia e do abusador como novos focos de transtorno mental ou desvio à norma.
            Laqueur estava certo, a política, compreendida como disputa de poder, cria novas formas de construir o sujeito e as realidades sociais. “O sexo é situacional, explicável apenas dentro do contexto de luta sobre gênero e poder”.
            A sexualidade já não se encontra apenas confiscada pela família conjugal, ainda que esta ainda seja altamente reivindicada, haja vista as falas e pautas de campanhas fundamentalistas proferidas e multiplicadas por alguns legisladores e seus seguidores, mas também nas imagens e discursos que operam novos modelos de experiência da sexualidade no cotidiano.
            Até que ponto as críticas direcionadas ao comercial do governo do estado de São Paulo sobre o transporte metropolitano, em que falavam do "xaveco" nas linhas de trem e metrô, não estão carregadas de uma forjada moralidade? Se “xavecar” é significado como intenção de assédio sem consentimento, o que fazemos nas casas noturnas, nos bares e nos espaços de sociabilidade em geral?
            Posto isso, alinhado a Laqueur, penso que não haveria a possibilidade em falar de sexualidade, sexo e gênero, sem tratar de um projeto político que compreende tais constructos sociais de um regime em expansão. Parece-me que nessa sociedade do espetáculo, parte do capitalismo, em que as relações são mediadas pelas trocas e pelas imagens, estas últimas representam a mercadoria que comercializamos na vivência de nossa sexualidade.
            E como nos coloca Debord, “o mentiroso enganou a si mesmo”. Em nossa realidade atomizada, perdemos a noção da totalidade e criamos novas formas de controle e subjugação, marginalização e patologização dos sujeitos. E os discursos de autoridade, da medicina, do direito, da pastoral cristã e de novos saberes que se pretendem como hegemônicos, ainda são partes desse regime. Agora, multiplicados pelas imagens e redes sociais.