Mostrando postagens com marcador Mudança social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mudança social. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, setembro 25, 2014

A morte de Sócrates na contemporaneidade

            Um dos grandes filósofos da antiguidade, Sócrates (469-399 a.C.), acreditava, em linhas gerais, que a filosofia não ensinava nada, mas ajudava o sujeito encontrar a verdade por si mesmo. “Sei que nada sei” é a máxima que rompe com nossa arrogância em acreditar que o que dizemos é o que realmente é. Suponho que se Sócrates estivesse no atual cenário certamente beberia a cicuta, veneno que o matou na antiguidade.
            Transitando por três tipos de instituição de ensino, uma pública, outra privada e a terceira do sistema S., percebo que, para além das diferenças e particularidades de cada uma delas, quando falamos de uma racionalidade operante das práticas sociais, o mesmo modelo se impõe em todas elas. Numa faço mestrado, noutra minha segunda graduação e na terceira atuo como educador.
            Apesar de considerar todas aquelas constatações que já sabemos no senso comum, de como estruturalmente essas instituições constituem suas comunidades, atravessadas por uma lógica de classe, privilégios e formas de dominação, quando legitimamos as autoridades nos espaços de educação; penso que temos um desafio: estabelecer um diálogo entre “papagaios burros”, termo que empresto do prof. Fábio Camilo Biscalchin e sugiro a leitura de sua obra.
            Na sociedade contemporânea do imediato, baseada no espetáculo e na performance, não há espaço para a reflexão, não é mesmo, caro leitor? Quantos de nós, concomitantemente à leitura de uma matéria nas redes sociais e mídias eletrônicas, já colocamos nossa opinião? Todos querem ter a verdade e compartilhá-la. E já dizia outro filósofo, mais contemporâneo, Foucault (1926-1984), que o poder está em todas as pessoas e relações.
            Não é que essa moção pelo compartilhamento de ideias não seja importante, tão pouco que todos possam apresentar seu posicionamento, afinal a democratização do conhecimento e da participação é um princípio ético para a vida em sociedade. O problema é quando nos esquecemos que é preciso pensar.
            Infelizmente, nessas instituições de ensino vejo esse paradoxo: uma repulsa ao pensamento, quando o objetivo é a formação. Assim, naquelas escolas de ensino que denominamos “superior” queremos a crítica pronta e o método que legitime a nossa verdade e produzimos saberes como sapatos, já em outras observamos o consumo do conhecimento, quando em toda aula prima-se pelo espetáculo e platéias contagiadas e noutra acolhemos sujeitos que, numa formação técnica, buscam práticas e procedimentos que os transformam em máquinas, peças sem subjetividades, sem valor moral e humanidade.

            Retomemos Sócrates, pois é preciso uma vida com pensamento!    

segunda-feira, setembro 09, 2013

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal



Americana-SP e o neoliberalismo

            Há algum tempo venho ensaiando escrever sobre a aceleração no processo de imersão de Americana-SP no neoliberalismo. Não que isto seja uma novidade para o município, afinal desde seu processo de ascensão na década de 50, quando se destacou como pólo têxtil na América Latina e cidade de maior desenvolvimento no país, já delineava em sua história uma aproximação ao sistema capitalista. Na ocasião em que vivíamos o auge da industrialização, tínhamos como prefeito Antonio Pinto Duarte, de família tradicional no município e que muito se beneficiou do acúmulo de capital. Na mesma década iniciou-se a construção da Matriz Santo Antônio de Pádua, cujas paredes foram pintadas pelos irmãos italianos Pedro e Uldorico Gentilli, sendo hoje a maior igreja em estilo neoclássico do país. Detalhe: é preciso pontuar a origem européia. Assim, já elucidamos como os valores tradição, família e propriedade vão se enraizando em nossa cultura local.
            Por sorte ou conseqüência da redemocratização do país, durante gestões passadas, sobretudo sob o governo de um ex-preso político da ditadura militar, Waldemar Tebaldi (PT, PDT e PMDB), as políticas sociais frearam ou, de certa maneira, amorteceram os impactos da transformação das coisas em mercadoria. O tripé saúde-educação-habitação que norteava as principais políticas públicas da época dizia de um Estado, ainda que com problemas, presente. Entretanto, no desenrolar do processo histórico, mudou-se os governos e também as perspectivas do planejamento urbano. Já na gestão de Erich Hetzl Júnior (PDT), sucessor póstumo de Tebaldi, mudou-se os rumos de Americana. Eu mesmo, enquanto estagiário de ensino médio, acompanhei o sucateamento de dois projetos sociais que trabalhava, “Orientação e Vivência” e “Adolescentes”, da secretaria de promoção social. De um ano para outro, de 17 bairros contemplados com os projetos, apenas 05 continuaram a desenvolver as atividades e atender as crianças e adolescentes que estavam filiadas ao programa federal de erradicação do trabalho infantil – PETI.
            Se o Estado já anunciava sua retirada neste último cenário, é nas gestões de Diego De Nadai (PSDB) que ele oficializa sua ausência, seja pelas parcerias público-privadas no trato da saúde pública e transferência de suas responsabilidades ou na venda dos espaços públicos e da cidade como um todo na publicidade performática – que oferece o espaço como mercadoria de investimento. Adentramos, nos últimos anos, num dos caminhos mais perverso e traiçoeiro do capitalismo, em que significamos tudo como mercadoria, orientados por uma lógica competitiva de mercado.
            Atenção! Isso não significa que não transformemos a realidade, nem que ela seja em sua totalidade má. Contudo, é preciso notar a distinção entre a mudança social e a mobilidade social. Enquanto a primeira orienta-se pela transformação coletiva e alteração da percepção e do contexto comum, a segunda prima pela ascensão pessoal, do individuo pelo individuo. Daí, ainda que tenha reflexos sobre o coletivo, sua perspectiva atente o ideal burguês, capitalista e egocêntrico, responde a um projeto de vida e destino sócio-individual, ou seja, individualista.

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal

            Três fatos ocorridos neste último sábado (7) em Americana-SP ilustram como todos eles estão interligados, concatenados por uma ideologia que atravessa nossa experiência cotidiana. As comemorações da independência nacional e os protestos daqueles que contestam a história oficial e a ordem vigente, a vinda do deputado federal Marco Feliciano (PSC) para o 20º Congresso da UMADAME (União da Mocidade da Assembléia de Deus de Americana) na igreja evangélica Assembléia de Deus - Ministério de Belém e o lazer de jovens burgueses num barzinho desses com mesas na calçada.
            Os registros das comemorações de 07 de setembro desse ano trazem algo histórico no país: Não foram as imagens alegóricas alusivas à ordem, daqueles que desfilam, muitas vezes alienados à realidade nacional e local, ostentando um valor social forjado pela suposta independência, que tomou conta da produção discursiva a respeito, inclusive na mídia internacional. Foi sua negação, sua parte antagônica, o protesto desalinhado ao hegemonicamente ordenado e daqueles que não compactuam com esse consenso imaginário de uma realidade justa e glorificada.
            Comemoramos a independência nacional e mal concebemos a liberdade em nosso cotidiano. Estes protestos falam disso. Não somos mais a colônia lusitana da America. O nosso colono agora é o Mercado, que dita tudo como mercadoria. Nesse processo, desconstruímos o Outro e o público, pois consideramos sua importância apenas como mercadorias. Adquirirmos namorados(as), amigos(as), parceiros(as), sócios(as), grifes universitárias, parques e praças higienizados, etc. Pouco nos interessam aqueles e aquilo que não compreende o nosso círculo e cenário de sociabilidade.  
            Não nos interessam porque não fazem parte desse projeto de vida e destino sócio-individual. A ausência do Estado e o controle do mercado acirram a competição como forma de existir e viver no mundo. Para as elites pouco importa se a educação, a saúde e o lazer não são mais responsabilidades do Estado, afinal, quando se paga, de um jeito ou de outro, se têm o esperado dentro de um sistema capitalista – e o esperado também é uma construção social que se transforma nos processos históricos. Atualmente, consumimos desenfreadamente e irracionalmente numa inércia que nos atropela e nos deixa apáticos à critica social e de nós mesmos.
            Em Americana multiplicam-se os grandes supermercados em todos os bairros; pipocam as vendas dos planos de saúde, eleva-se o número de carros alusivos aos tanques de guerra – potência necessária para proteção da família num cenário de guerrilha urbana -, de salões de beleza e clínicas de estética; aumenta a especulação imobiliária de uma cidade dormitório – E pasmem! Ainda vendemos os espaços públicos. É o projeto de vida e destino sócio-individual que reforça aquele velho valor: tradição, família e propriedade.   
           E o que sobra aos sem nome, sem o modelo de “família Doriana” e sem propriedade? O desejo de consumir todas essas coisas, óbvio. Não à toa, esse valor socialmente construído atravessa a cultura, as religiões e o Estado. Todos nós somos co-produtores dessa realidade e desse valor socialmente estabelecido e instituído como meta de alcance pessoal. Desde os pagantes dos planos de saúde e dos boletos de escolas privadas aos marginalizados que demandam as políticas sociais.
            Nessa perspectiva, sobrevivem os mais aptos, ou seja, aqueles que consomem. Consumimos lugares, educação, pessoas, saúde e bem-estar e até crenças. Não que a fé não tenha seu mérito e relevância – que isso fique bem claro – mas as crenças muitas vezes nos respondem ou confortam diante da nossa incapacidade de olhar o Outro, da nossa irresponsabilidade sobre si e o mundo. Projetamos tudo como vontade divina, de forma que justifiquemos nossa exclusão e marginalidade, sejam compulsórias ou voluntárias. 
         Não por acaso, concomitantemente a ascensão neoliberal, eleva-se o número de igrejas neopentecostais.   Com o Estado ausente e os sujeitos despontencializados para participação política e para intervenção na realidade, as igrejas aparecem como soluções ao caos. Estas representam bem o mercado, pois tratam dos fiéis como consumidores passivos, apenas como sujeitos contemplados com seus produtos/serviços. Deturpa-se, assim, o manejo das demandas sociais, antes sob controle do Estado/cidadãos e nesse contexto aos cuidados das igrejas/mercado.
            Entendamos, a partir de um exemplo local: Na última sessão ordinária do legislativo americanense, o vereador Thiago Brochi (PSDB) e o presidente da Câmara Paulo S. V. Neves – Paulo Chocolate - (PSC), no momento em que discutiam a concessão de locais públicos a igrejas evangélicas, falaram da importância do trabalho de tais instituições ao bem social. Ora, demanda social não é caridade de instituições religiosas, é obrigação do Estado! Contudo, as opiniões de tais legisladores não são de se estranhar, apesar de serem absurdas. Incoerentemente, eles não falam do trabalho do Estado, como deveriam, o projetam a outrem, no caso às igrejas, desvirtuando como deve ser o atendimento das demandas sociais, não mais como obrigação do Estado, em que a população é co-responsável, mas como caridade e benfeitoria de sujeitos e entidades benevolentes. Nesse cenário, o cidadão passivo é consumidor e beneficiário do que almeja. A tutela religiosa é compreensível, pois desempodera os sujeitos sobre sua realidade e desconstrói sua consciência política de participação, empoderando, em contrapartida, os líderes e o mercado.
            E todos nós sabemos como se conduzem os rebanhos na busca por votos. Não é mesmo? Marco Feliciano disse com todas as letras, durante o culto, que nas próximas eleições pretende ser o deputado com mais votos no estado de São Paulo. E para tanto, juntamente com alguns colegas disse algumas mentiras, todas ao som orquestrado de forma a fortalecer o contágio emocional. Feliciano vociferou que hoje as escolas brasileiras representam um mal por corromperem os valores morais e que as crianças devem estar mais tempo próximas aos pais e à família, esquecendo-se de que a maior parte dos pais das crianças em tempo de escola no Brasil trabalha e não possui condições como ele de enviar seus filhos para outro país. Além disso, deixou de dizer que a educação brasileira vai mal também por conta do descaso crônico de nossas autoridades – como ele – que cada vez mais faz do Estado um aliado do mercado. O pastor comentou que a mídia e o movimento LGBT têm o perseguido por seus valores fundamentarem-se numa doutrina milenar. Mentira! Desde quando a grande mídia ocidental não está totalmente atravessada pelas doutrinas cristãs? Haja vista, como exemplo, a “católica” Rede Globo e a evangélica Record.  Ademais, fora os boçais fundamentalistas, quais são os líderes religiosos que o movimento LGBT persegue? Bem, mas como contestar essas mentiras num culto que até orquestra embala o discurso do pastor? Tudo vira uma falácia.
          Ao mesmo tempo em que o coro dizia amém, alguns cidadãos estavam na delegacia por conta da prisão de militantes do protesto de 07 de setembro. Militantes estes que muito têm a ensinar sobre democracia, pois na mesma sessão em que os vereadores acima mencionados discutiam projetos de lei enviados a toque de caixa pelo executivo, os mesmos militantes refletiam sobre as conseqüências e implicações de tais projetos a população. De um lado, o "Pulta Catraca" e outros coletivos têm mostrado que democracia não se faz pelo consenso e sim por um dissenso em que as múltiplas perspectivas são respeitadas, sem oportunismos políticos. Do outro, curiosamente, os mesmos políticos que criminalizam os movimentos sociais, são aqueles que encaminham seus capangas para sufocar qualquer reivindicação popular que não seja a do seu interesse, que participam de cultos e missas aos domingos e que defendem a família e os bons costumes.
         E enquanto uns protestavam e alguns faziam uso da força e ordem arbitrária, outros consumiam naqueles bares com mesas na calçada. Estes quase todos com o mesmo perfil fenotípico produzido - modelos de uma juventude burguesa de Americana – tradicional, elitista e classista. E ali se viam aqueles rostinhos que saem na coluna social do Wagner Sanches e os carros de guerra estacionados, alguns com aqueles adesivos da família ou com inscrições religiosas.  

sexta-feira, junho 14, 2013

Eros e civilização: Entre a extensão do falo e a microfísica do poder no ato contra o aumento das passagens

Fotos: Moacyr Lopes Junior e Marlene Bergamo / Folhapress
.
            Não são apenas os lixos incinerados nas ruas, os ônibus quebrados, os muros pichados, os gritos coletivos, as balas de borracha e as bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo que farão parte dessa história que todos temos guardado e registrado desde as redes sociais e mídias ao nosso inconsciente social e individual. Há muito mais em processo no plano do simbólico e do subjetivo nessa ação coletiva ocorrida em São Paulo e outras cidades no último dia 13 de junho de 2013.
            Marcuse, um dos pensadores referência das revoltas de 1968, em sua interpretação de Freud, diz que vivemos na complexa e intrínseca relação entre pulsão de vida e morte, no choque entre Eros e Civilização. E para Freud a origem prímeva é o complexo de Édipo. O pai severo impõe os primeiros valores societais. Revoltados, munidos pelos instintos agressivos, o matamos, mas o amor nos gera o remorso para harmonizarmos as relações. Essa é a origem da culpa, que nos orienta a não vivermos no caos diante dos limites em sociedade. O pai projeta-se e transforma-se em instituições, nas religiões, nas relações, no Estado. Não há como amá-lo sem que antes desejemos sua morte.
            Não é que as pessoas nas ruas não queriam mais o Estado, os limites, as regras e as instituições. Talvez alguns até digam isso e chutem lixeiras, ateiem fogo em espaços públicos e quebrem vidros, mas isso diz além do ato em si. Eros é a libertação momentânea da ordem e do limite, é um gozo pontual que responde a constante normatização da vida. Tudo é parte de um processo. Constituímos-nos e constituímos nossas práticas dessa forma, entre ordem e desordem.
            Nesse sentido, objetivamente, pudemos ver como há amor em SP, mesmo quando a cidade anuncia toque de recolhida e vê-se sitiada num estado caótico. É a pulsão de vida, o amor e os sonhos que fazem com que as pessoas se mantenham nas ruas mesmo com tantas bombas ensurdecedoras alusivas à morte. É Eros em confronto com o medo, a indiferença e a apatia social.
            E nesse complexo desenrolar cotidiano, as instituições sociais mostram que estão aí e fazendo uso de suas forças. Eis que vemos a extensão do falo. O pai castrador sempre será uma constante em nossas vidas. O público é um campo em disputa e o Estado apresenta suas armas: helicópteros, tropa de choque, fuzis, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, carros, motos e caminhões equipados em que descem dezenas de homens, todos fardados, ordenados, fortes e bem treinados. Seguem em frota, performaticamente, contornando ruas, cruzando carros, atropelando pessoas, ostentando o poderil de quem se coloca como a ordem. Vãs tentativas de controlar o que não tem controle, pois a pulsão de vida preexiste à ordem, ao conflito e a morte.
            Assim, as ações policiais orquestradas por um governo que se vale de uma força arbitrária de ordenação das insatisfações conforme os interesses das elites só podem falhar. A opressão e violência trazem sentidos a todos aqueles presentes ou não nas ruas. Os sons, as imagens, os cheiros, tudo passa a compreender o olhar do sujeito para o outro. Daí, podemos vislumbrar a consciência política a partir do reconhecimento, significação e materialização dos antagonistas.
            Não podemos ser levianos e incoerentes ao pensar que as pessoas estão nas ruas apenas pelo aumento da tarifa do transporte público. Se nem mesmo os conflitos de fórum íntimo, individuais, dizem respeito a uma única queixa, como poderíamos supor que tantos sujeitos postos em marcha reivindicam a mesma coisa?
            Os movimentos sociais dizem de um projeto de futuro quando o presente não responde aos anseios e necessidades do coletivo ou da pessoa humana. Tais movimentos e suas práticas exemplificam a microfísica do poder que Foucault nos fala. O poder está em todos os sujeitos, relações e espaços. Da mesma forma que o Estado exerce sua força sobre os manifestantes, estes também abalam quem os oprime. O cenário desdobra-se em múltiplas cenas e dentre os diversos atores, todos parte de um mesmo enredo, cada um conta a história e age sobre ela de uma forma, não sendo possível responder a todas elas. Então, mesmo quem se pretende forte vê sua fragilidade no mundo.  E os movimentos, como o nome já sugere, não são estáticos e não se limitam às manifestações. O eco e a produção discursiva que se gera empoderam pessoas e transformam a realidade, mudam os sujeitos e toda conjuntura social. 

quinta-feira, maio 02, 2013

Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia


        

         Anteontem ensaiávamos a valsa de debutantes e logo amanhã já completaremos a maioridade. Hoje, aos 17 anos, novamente vamos às ruas para mostrar que ainda temos fôlego para dizer do que nos cala e nos põem a dizer cotidianamente. 
            O Uruguai aprova o casamento homoafetivo, a França torna-se o 14º país a reconhecer igualdade plena entre casais heterossexuais e homossexuais, São Paulo oficializa o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e autoridades de Uganda discutem um projeto de lei sobre a união homossexual. Marco Feliciano, deputado acusado de racismo e homofobia, é pauta nacional e alvo de protestos em várias partes do mundo por ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Daniela Mercury assume seu relacionamento com outra mulher. Empresas nacionais associam suas marcas à igualdade mostrando-se a favor do casamento igualitário. Um movimento pelas redes sociais surpreende positivamente: grupos de grandes times de futebol dizem não a intolerância. 
            Se por um lado notamos as mudanças, por outro, observamos as respostas reacionárias às transformações. A frente conservadora, liderada por fundamentalistas religiosos, ascende nas casas legislativas Brasil a fora. Parlamentares encaminham projetos de leis contrariando-se a laicidade do Estado. Internautas, sem qualquer compromisso ético, compartilham depoimentos preconceituosos, sexistas, machistas, homofóbicos e fascistas. Apesar de uma pesquisa do instituto Ifop apontar que 63% dos franceses apóiam o casamento homossexual, centenas de pessoas foram às ruas em protesto contra uma lei que garanta tal direito. Autoridades de Uganda, mesmo com a pressão internacional e de seus próprios cidadãos pelos direitos de homossexuais, realizam discussões de portas fechadas. No IV ato contra Feliciano, na capital paulista, um jovem sozinho atira uma garrafa de coca-cola cheia contra centenas manifestantes que estavam nas ruas. 
            O que leva tantas pessoas saírem de suas casas contra uma lei que garanta o direito a outrem? O que lhes interessa e afeta? De que coragem se vale um sujeito que, individualmente, agride um coletivo? Como se confere o ímpeto em julgar-se mais assertivo, justo e correto que todos os demais? Por que, ainda hoje, discutem-se pautas de interesse comum à surdina? Será que o intervencionismo religioso atroz não está preso a um período histórico, como a Idade Média?
            Se prestarmos atenção no cotidiano, o ataque e violência sobre sujeitos acontecem quando estes já estão desqualificados socialmente. Foi assim que se estabeleceu e tem se mantido a violência nas penitenciárias, a subalternidade dos negros, a agressão doméstica de mulheres, a exclusão dos imigrantes e a violação de direitos de homossexuais, sobretudo colocando-os nas selas, nos campos de concentração, nas cozinhas, nas senzalas e nos guetos, no lugar do não-dito, do invisível, para que sem história e memória não fossem e nem sejam dignos de respeito e direitos. Falamos de sujeitos e minorias que, historicamente e moralmente, são inferiorizados, silenciados e desprestigiados socialmente. Repetimos tais retóricas, pois ainda que consideremos os avanços, não superamos as desigualdades históricas.
            Não podemos negar a existência do abuso de poder e da punição arbitrária daqueles que já são marginalizados pela pobreza. Não é possível que desconsideremos o alto índice de agressão que mulheres são acometidas em suas casas por seus próprios cônjuges. Não é sensato que continuemos a banalizar a dor daqueles que, próximos ou distantes, sofrem por serem refugiados e imigrantes. Não dá mais para fecharmos os olhos diante das falas racistas ao discutirmos cotas raciais. Não podemos apagar os números da violência homofóbica no Brasil. 
            Tudo isso compreende um discurso e história oficial compartilhados hegemonicamente e não podemos estar apáticos ao que nos oprime. As realidades e verdades são múltiplas, próprias de cada um, mas o registro e memória têm sido daqueles que têm o direito em defender a sua voz.        
            Aquele rapaz que, sozinho, agrediu um coletivo, trazia consigo todos esses discursos e histórico de opressão que invisibilizam sujeitos. A ponto de entender-se superior e forte o bastante para atacar. Ele não agiu sozinho e não foram apenas os franceses que o encorajaram e legitimaram, mas Feliciano, Bolsonaro, Silas Malafaia, etc. 
            Contudo, há de se pontuar também as glórias. Marcos Feliciano nos uniu! Mulheres e homens; negros e brancos; heterossexuais e homossexuais; brasileiros e estrangeiros; militantes, partidários e apartidários se somaram nas ruas de capitais, das cidades interioranas, e até fora do país, para dizer que “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Por isso, não se trata apenas de sua permanência, mas de históricos de militância pelos Direitos Humanos e pela promoção de minorias.
            Assim, reforçamos o Direito à Igualdade e o Direito de não sofrer privação arbitrária da liberdade. Marchamos para reivindicar que o Estado brasileiro cumpra com os princípios de Yogyakarta, conforme documento publicado, em 2006, pela ONU – Organização das Nações Unidas.   Pois, não admitimos mais o gueto e a subalternidade. Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia.


Fábio Ortolano. Assistente de comunicação da APOGLBT e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP. Pesquisa as concepções de Sexualidade e Direitos Humanos de participantes das Paradas LGBT de São Paulo e Campinas.

terça-feira, novembro 06, 2012

Mudança social


                     Curioso tentarmos encontrar respostas e caminhos para uma mudança social.  Se nem mesmo o homem, sujeito repleto de subjetividades, poderia dar conta de certezas que o leve a destinos vislumbrados num projeto de futuro, como poderíamos pensar em transformações para um conjunto deles? Mulheres e homens compõem inúmeras realidades compartilhadas em sociedade e cada qual possivelmente as enxerga de uma maneira, pois o sujeito é histórico, cultural e social, fruto de uma produção discursiva que constrói socialmente, contudo é também reflexo de suas escolhas e ações particulares frente a esse social. Não há como qualquer individuo ser igual ao outro. Assim, supomos encontrar a resposta, pois é através do outro que nos entendemos e significamos. A mudança não é possível quando pensamos e a objetivamos em alguém sozinho, é sempre na relação com outrem que podemos mudar.
                        Por que às vezes temos a idéia de que vivemos no caos? O aumento da violência urbana, o abandono da educação, o esquecimento da cidadania, o distanciamento entre pais e filhos, entre pares e amigos, a apatia com o sofrimento alheio, a banalização do mal, a desestruturação das auto-estimas, a perda de caráter, o relativismo da gentileza, a performática da vida, a procura por corpos ideais, etc. Tudo isso parece alinhar-se uma lógica de busca por uma juventude que nos valha de anestésico para a morte, quando, talvez, não acreditemos mais na vida. É como Jurandir Freire Costa fala ao tratar da indiferença, em que nos esquivamos de olhar para o outro, certamente acabamos por destruir aquilo que não temos coragem de transformar.  
            Loïc Wacquant diz que o distanciamento cada vez maior entre os sujeitos ricos e pobres, bem como o crescente autocercamento das elites políticas, o afastamento das instituições dominantes da sociedade, tudo isso alimenta a hostilidade e a desconfiança, legitimando a ordem social, a autoridade e a repressão: a polícia.  E o controle é a peça-chave para entendermos a estabilidade e manutenção das coisas. Opressão, poder e competitividade estão em jogo numa sociedade que não se questiona e não se enxerga. A mudança nesse contexto parece limitada.
            Para Jurandir a nova sociedade global se tornou personagem de um mundo fantasma, vivemos num lugar que é internacional e, ao mesmo tempo, fictício. E sem as raízes e pertencimento, perdemos o sentido da história e do bem comum. No Brasil e em muitas partes do globo, as classes dirigentes ignoram os desfavorecidos, eis a primeira indiferença, que por sua vez pouco se importam com a vida das elites, segunda indiferença. Em meio a isso, a burguesia é acometida pela ansiedade, insegurança e sentimento de fracasso. Eleva-se o consumo de antidepressivos, as consultas terapêuticas, os shopping centers, a busca por respostas exotéricas, os gastos com produtos e serviços que prometem a felicidade, essa é a terceira indiferença, das elites para com elas mesmas.  É a incapacidade do olhar para outra coisa que não seja a si mesmo. O outro se perdeu nessa lógica da indiferença e quando não temos o outro não significamos a nós mesmos. Logo, não podemos mudar o que foge a nossa visão.
            Wacquant acredita que houve uma modernização da miséria, um novo regime de desigualdade e marginalidade urbana que trilha novos rumos e toma outras formas. Qualquer que fosse o rótulo utilizado para designar os marginalizados, ao que nos parece, estes não estão mais isolados num território, etnia, raça, sexualidade. A marginalidade apresenta outros sinais somado aos antigos, está em toda a cidade, em todos os grupos e tribos. Frei Betto coloca que hoje, pior do que antigamente, na sociedade em que vigora o individualismo, não mais falamos em marginalizados, e sim em excluídos. Não há mais a esperança de retorno, os sujeitos nem contornam o esperado, o modelo, estão postos para fora, no lugar da ausência. São invisibilizados na realidade.
                        Diante disso outras questões nos aparecem. O que está implícito nessas ações humanas? Como constituímos nosso projeto de futuro para vivermos em civilização? Quais são as possibilidades de ruptura nesse contexto? Será que é preciso mudar? Estamos satisfeitos com o que temos construídos como humanidade? Se a racionalidade é parte do que concebemos sobre nós mesmos, tais questionamentos já se legitimam como uma pulsão do nosso existir. Esbocemos possíveis respostas para tanto.
                        Diversos pensadores e intelectuais defendem que somos dominados e agimos pelos desejos. Nossa mecânica configura-se através das pulsões por aquilo que almejamos. E se somos seres sociais, certamente nossos desejos serão construções do social, produtos das diversas histórias, culturas e ideologias. Assim, vivemos num processo em que buscamos objetivar tais anseios. As relações entre indivíduo e o outro/cultura/mundo se dão nessa interação complexa em que todos se constituem mutuamente. Jose Leon Crochik, numa perspectiva da psicanálise, mostra como a constituição da personalidade dos sujeitos em relação com a cultura produz preconceitos e estereótipos, ou seja, significações do mundo. É como se uma economia reflexiva legitimasse a idéia que temos das coisas como verdades que atendam nossas expectativas. Jurandir Freire Costa fala de nossa devoção pelas palavras, as quais supomos serem verdades daquilo que pretendem designar. Ainda que os seres humanos se orientem pelo outro, pela cultura que o atravessa, sua pulsão de vida e morte advém de si. Para Crochik o preconceito é uma reação à mudança individual e social, é a eliminação do desconhecido e afirmação do conhecido. Voltemos à impressão de vivermos no caos, o homem que busca a estabilidade e a segurança, quando confrontado com as incertezas, certamente recorrerá ao que está cristalizado, posto de certa forma como verdade. É o que lhe confortará. Como, por exemplo, quando diante de uma explosão e visibilidade de múltiplas manifestações de sexualidades, e da relativização de temas como gênero e orientação sexual, muitos setores da sociedade firmam-se no fundamentalismo religioso. Nossas práticas decorrem sempre desse movimento entre o eu e o outro, numa busca de construção de si.
                        Assim, é nesse interstício sujeito/mundo que vislumbramos a possibilidade de ruptura. Precisamos considerar essa economia reflexiva e tentarmos transpô-la com idéias e propostas de vida novas. A academia sozinha certamente não daria conta de responder tais expectativas, contudo, como todos os múltiplos micro-espaços de atuação do sujeito, ela é capaz de propor ensaios para colocarmos em cena. A desconstrução proposta pela teoria queer advém dessa perspectiva. Não se trata de um relativismo raso, mas de um constante questionamento sobre a significação, classificação, categorização, disciplinarização das coisas.
                        Já nos está claro que não há como mudar alguém sem que seu entorno se transforme, contudo, também não é possível alterar uma conjuntura sem que mudemos cada um de nós. A resposta que nos parece óbvia, confunde-se com sua inexistência.  A meu ver, mudar é preciso, independente da nossa satisfação enquanto humanidade, pois esta associa-se a uma percepção que é subjetiva. Mudar é necessário, pois segue a lógica de perseguirmos algo, de sonharmos, de querermos a vida e não a morte. Mudar nos parece tão distante porque, paradoxalmente, a mudança se inscreve no presente e no cotidiano, que de tão próximos, não encontramos lugar para essa transformação que projetamos no futuro.