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segunda-feira, janeiro 18, 2021

Turismo Pós-pandemia: vai voltar, mas será diferente.

O impacto ainda está sendo estimado, visto que a pandemia e suas consequências seguem em curso. Já sabemos que a paralisação do turismo e a recessão econômica têm ocasionado o fechamento de empresas, perda de empregos, aumento do trabalho informal e, por consequência, a precarização da vida. Tudo isso tende a agravar problemas sociais no Brasil, o que impactará na saúde das pessoas e destinos. E o turismo é, antes de qualquer coisa, um fenômeno social, ou seja, os fluxos de pessoas dependem de variáveis culturais, comportamentais e expectativas pessoais. A percepção de segurança, a priorização de necessidades e a busca por resignação ou superação de uma pandemia deve influenciar nas dinâmicas do setor. Nesse sentido, uma tendência é o desenvolvimento local, processos de enraizamento e valorização da arte, cultura e ambiente em resposta a atual conjuntura de destruição, descontinuidade e desconstrução, que não são apenas em consequência da pandemia, mas também da economia e da política. Não há segredo, a recuperação após termos uma segurança sanitária será gradual, conforme recuperemos o poder de consumo e o bem-estar social. E, para mim, o melhor caminho é se associar e positivar a cultura e o ambiente.

O turismo de férias vai, em algum momento, voltar. Mesmo que demore alguns anos, as pessoas vão viajar. Em relação ao setor MICE (congressos, conferências, seminários etc.), alguns podem mudar, outros não. Talvez em um primeiro momento, em resposta à recessão econômica, seja uma alternativa vantajosa financeiramente, contudo, não me parece que seja uma tendência a qualquer público e setor. Ter um desempenho bom e eficiente não necessariamente supera as expectativas do público e o fideliza, promove networking, etc. Talvez algumas palestras e negociações se adequem bem a esse modelo, visto que a mediação é limitada e muitos querem apenas prestigiar ou consumir. Já as conferências, feiras e eventos que pressupõem uma maior interação e apelos semióticos, bem como diferentes linguagens não devem se limitar ao ambiente virtual, pois restringe a experiência de seu público. Além disso, alguns rituais não são meras formalidades, eles agregam valor como, por exemplo, os coquetéis e os serviços agregados que possibilitam experiências.

Antes da pandemia notávamos que os hotéis estavam lançando marcas e serviços com apelo para o lifestyle, para o compartilhamento, para a reunião das pessoas. Já as empresas aéreas estavam colocando cada vez mais gente dentro de um avião. Isso pode mudar a curto prazo, mas acredito que com o tempo isso seja retomado. O mais difícil será recuperar as condições sociais para tanto. Somos seres socializáveis, sempre nos deslocamos e atualmente um conjunto de imagens potencializam esses desejos. A socialização, a experimentação e as viagens estão num período de latência. E ao que tudo indica, dentre os diversos estilos de vida, um aspecto parece ser comum entre todos: congregar a conexão, o ambiente e aquilo que realmente importa, nossos afetos. Além disso, cada empresa terá o desafio de definir seu posicionamento, considerando a sensibilidade aos preços, perfil de seus consumidores, dentre outros fatores que já conhecemos.

Estamos numa fase de constantes mudanças e agravamento de crises econômicas, ambientais e sociais. Possivelmente - e assim desejo - o turismo seja um horizonte construtivo diante de tanta destruição, de modo a estabelecer pontes entre essas dimensões. Para tanto, a iniciativa privada, o Estado e a sociedade civil precisam estar integrados neste projeto. Em meio a tantas perdas e lutos, precisamos germinar o novo, acreditar na potência da vida e pessoas, valorizando-as na prática, cotidianamente, no desenvolvimento de uma atividade ética e justa, visto que o turismo une sonhos, trabalho, tempo e ambiente. E a pandemia nos convida a olhar para tudo isso.


*Texto enviado como contribuição à Agência de Notícias Brasil-Árabe 

Fábio Ortolano é docente no Senac Aclimação, bacharel em Turismo, mestre em Mudança Social e Participação Política e doutor em Psicologia Social.

domingo, outubro 07, 2018

A velha disputa nacional forjada de mudança


© AFP 2018/ Nelson Almeida
O Brasil desde a colonização vive três disputas: moral, econômica e fundiária, todas elas mediadas pela violência. Foi assim com os indígenas, com os negros escravizados e com aqueles que se opuseram aos padrões normativos. Hoje, se reproduz nas periferias urbanas, no campo e áreas naturais, nos trabalhos precarizados e direcionadas às minorias políticas (Mulheres, LGBTs, Indígenas, Negros, Pessoas com Deficiência e Refugiados).

Involuntariamente, eu acompanho o Bolsonaro desde 2011, quando, inclusive, escrevi um texto aqui sobre as semelhanças dele com um parlamentar estadunidense da década de 1970. Desde sempre medíocre, mentiroso e antiético.

Bolsonaro representa esse projeto de violência e privilégios que sustenta o país mais desigual do mundo e eu explico o porquê.

Primeiro, sua perversidade moral: diante de um avanço progressista, em 2011, ele inventa uma série de mentiras sobre um material contra homofobia do Ministério da Educação e, em 2018, reforça a mentira em rede nacional, usando uma publicação estrangeira. Defende abertamente a tortura, a violência contra LGBTs e mulheres, inclusive fazendo apologia ao estupro, e já se referiu aos quilombolas e negros como vagabundos, classificando-os como gados. Tudo isso gravado e compartilhado em mídias sociais. E, pasmem, dissimula.

Segundo, a conveniência econômica. Por que ele faz sinal de tiro com crianças de colo? Pois, representa os interesses das empresas armamentistas. A liberação das armas, além de acirrar a violência pública e matar pessoas inocentes, representa um mercado promissor e altamente lucrativo às empresas privadas. Também recebe apoio de empresários, como o líder do Grupo Havan, que coage funcionários a votarem em seu candidado. Um grupo em franca expansão, congregando mais de cem lojas de departamentos, bem como outros empreendimentos de geração de energia elétrica, postos de combustível e hotelaria. De fato, não está preocupado se é o PT que estará no poder, pois mesmo na gestão desse partido o grupo ascendeu, e muito, trata-se dos interesses em otimizar os lucros, precarizando o trabalho e as leis trabalhistas. E Bolsonaro já votou à favor da reforma trabalhista de Temer.

Terceiro, a questão fundiária. Ele defende a revogação das terras indígenas e a destruição de Unidades de Conservação. Estamos aniquilando culturas tradicionais e destruindo ainda mais biomas ameaçados de extinção, ecossistemas da Mata Atlântica e Cerrado, bem como a maior floresta do mundo, a Amazônia, perdendo espaço para soja e alimentos transgênicos e ele ainda defende a revogação de áreas protegidas. Ele não está sozinho, as empresas nacionais e internacionais de mineração estão com ele, o apoiam, e os impactos nós vimos recentemente com o maior crime ambiental da nossa história, a avalanche de lama com rejeitos de minérios, causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

São as mesmas disputas que se reproduzem desde o Brasil colônia e hoje são camufladas numa retórica de mudança. Bolsonaro se diz diferente dos outros políticos. Ele tem 27 anos de vida política, quase 03 décadas e nunca fez qualquer mudança, apenas enriqueceu. Nunca fez qualquer projeto de lei anticorrupção, nunca! Em tantos anos aprovou dois projetos, dois! E mais, confessou ter recebido 200 mil da JBS, é acusado de ter funcionária fantasma, receber propina de campanha, de nepotismo e usou auxílio moradia tendo com casa própria. Reproduz a herança política junto aos seus familiares e o fisiologismo político, ou seja, toma decisões em benefícios privados ao invés do bem comum. Não à toa, se sustenta nas bancadas mais fisiologistas do Congresso Nacional, a da bala, do agronegócio e da bíblia, a velha tríade do poder.

Imagem do clipe Perfeição, Legião Urbana.
Escrevendo esse texto, escutei fogos em comemoração ao resultado da eleição no primeiro turno, na qual ele foi o presidenciável mais votado. Lembrei da música “Perfeição”, da Legião Urbana. “Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos. Tudo que é gratuito e feio, tudo o que é normal. Vamos cantar juntos o hino nacional (...) Vamos festejar a inveja, a intolerância, a incompreensão. Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada”.


Para saber mais:

É #FAKE que livro citado por Bolsonaro no JN é o que aparece com carimbo de escola de Maceió (G1)
https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2018/09/04/e-fake-que-livro-citado-por-bolsonaro-no-jn-e-o-que-aparece-com-carimbo-de-escola-de-maceio.ghtml

Mineradoras, agronegócio, armas e 'indústria da fé' bancam Bolsonaro (Rede Brasil Atual)
https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/10/mineradoras-agronegocio-armas-e-igrejas-financiam-bolsonaro

Bolsonaro ensina criança imitar arma com a mão (O Globo)
https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-ensina-crianca-imitar-arma-com-mao-22905093

Ao explicar R$ 200 mil da JBS, Bolsonaro admite que PP recebeu propina: “qual partido não recebe?” (Jovem Pam)
https://jovempan.uol.com.br/programas/ao-explicar-r-200-mil-da-jbs-bolsonaro-admite-que-pp-recebeu-propina-qual-partido-nao-recebe.html

Análise da emergência do comportamento fascista. Luiz Eduardo Soares, antropólogo, cientista político e escritor. 







quinta-feira, março 31, 2016

Sexualidade, Gênero e Educação: desafios éticos em tempos de recrudescimento fundamentalista.

Em junho de 2015, a maioria dos 5.570 municípios brasileiros aprovou seus Planos Municipais de Educação (PME) ao final do prazo previsto no Plano Nacional de Educação (PNE). O processo de construção dos planos inclui diversas etapas, desde a formação de comissões de trabalho para elaboração de um diagnóstico local até a construção de uma lei por meio das casas legislativas, a qual é sancionada pelo poder executivo. Convém apontar que os documentos de abrangência municipal precisam estar alinhados às políticas de educação dos respectivos Estados e, certamente, aos parâmetros curriculares nacionais. Ocorre que nesse ano, os planos municipais de educação foram alvos de pressão política exercida por setores conservadores e fundamentalistas da sociedade civil. Líderes religiosos, políticos das bancadas cristãs e seus pares defensores do fundamentalismo, corrente conservadora que enfatiza a interpretação literal da Bíblia para princípios básicos e obediência; pressionaram as comissões de trabalho a excluírem o termo “gênero” dos planos de educação, justificando serem contra uma “ideologia de gênero”, como assim nomearam. Na realidade, um contrassenso semântico e discursivo, a ser explicado no presente ensaio.

Continuar a leitura, clique aqui. Revista Psicologia. Especial Sexualidade. Editora Mythos, 2016. 


quarta-feira, março 23, 2016

Parque Natural Municipal da Gruta: Morrer para germinar?

Fotografia. Joviniano Netto, 2015. 
Caros leitores, como podemos aceitar essa postura destrutiva que nos reduz a dicotômica parte contraposta à natureza? Será preciso morrer para germinar?  Essa nossa renúncia coletiva diz de uma forjada divisibilidade entre nós, humanos, e o meio ambiente.  E dessa forma, morremos todos.  
Há anos acumulamos uma série de denúncias, processos, requerimentos, projetos, trabalhos e textos acerca do Parque Natural Municipal da Gruta. Paralelamente, como temos mostrado por meio de registros fotográficos compartilhados nas redes sociais, transformamos a maior unidade de conservação de Americana num lixão a céu aberto. O Parque, ainda resquício de Mata Atlântica e cenário ímpar por sua formação geológica e nascentes, é destruído pela população e obras públicas. 
Os crimes ambientais são graves e vergonhosos para uma cidade de médio porte como Americana. Construção de logradouros, desmembramentos de lotes nos arredores, despejo de esgoto e entulho na área, erosão, ocupações irregulares, desmatamento do resquício de Mata Atlântica, mortalidade da fauna local e problemas de saúde pública. 
Nos últimos meses, junto ao coletivo Amigos da Gruta, temos articulado uma série de iniciativas no Parque, inclusive pressionando o poder público a cumprir o básico de suas responsabilidades. O executivo tem feito algumas ações, a passos lentos e limitado.  E ainda alguns políticos tentam aproveitar a carona. 
Bem, eis que em meio aos trabalhos de conscientização ambiental, pesquisa, encontros e conversas com as comunidades do entorno, nas últimas visitas, identificamos novos focos de despejo de esgoto sem tratamento no local. O Departamento de Água e Esgoto parece aguardar a construção da nova estação de tratamento da Balsa, uma obra parada. Lastimável tamanha irresponsabilidade ambiental, um crime. Nesse cenário, me assusta a indiferença do Ministério Público que, mesmo recebendo nossas denúncias, não move qualquer ação por conta do mau gerenciamento do Parque. As autoridades públicas, sobretudo do DAE, devem ser responsabilizadas. 
Com efeito, infelizmente, Americana não merece o título de município Verde-Azul. Aliás, surpreende termos tido esse selo, haja vista o descarte de esgoto sem tratamento numa área com afloramentos do Aqüífero Tubarão, sedimentação de arenito e queda d’água de 18m de altura. Independentemente dos problemas e reformas na estação de tratamento de Carioba, bem como os bons projetos de educação ambiental, como alegam os técnicos, a titulação não pode ser conferida diante dessa negligência grotesca com a principal unidade de conservação de proteção integral da cidade.   
Como diria Gilberto Gil, na música Drão, há que se plantar nalgum lugar, ver ressuscitar no chão, nossa semeadura. 

sexta-feira, março 18, 2016

Subjetividades privatizadas e cooptadas

*Texto originalmente encaminhado como colaboração ao Portal Novo Momento e ao jornal O Liberal

Caros leitores, mais triste que a polaridade política na qual nosso país atravessa, é perceber como nossas subjetividades, sentidos construídos na leitura do mundo, estão cada vez mais privatizadas e cooptadas pelos interesses das grandes oligarquias políticas e econômicas mundiais. Isso não é teoria da conspiração e sim a formatação geopolítica de poder e imperialismo internacional.
As pessoas acostumadas a não participarem da vida pública, pois não acompanham os trabalhos nas casas legislativas, nunca visitam as câmaras e assembléias, não interferem na realidade local, nunca são propositivas diante dos conflitos cotidianos que se registram na cidade, eximem-se de suas responsabilidades cidadãs, enfim, são alienadas em suas subjetividades privatizadas. Acreditam apenas em suas percepções pessoais, baseadas em suas vidas privatizadas, fechadas em si mesmas e em tudo que cerca seu reduzido campo de observação e consciência. Não há espaço para uma visão holística, da totalidade.
Nesse sentido, são facilmente cooptadas pelas grandes instituições manipuladoras da opinião pública, como as grandes mídias, também oligarquias que historicamente estão ligadas ao terrorismo e violência de Estado. Essa massa absorve uma consciência política forjada, um raciocínio tão limitado que não compreende a complexidade da vida em sociedade. Complexo porque são vários elementos e variáveis implícitos e correlacionados, ora em choque, ora alinhados, que qualquer resposta rápida e objetiva para o cenário político é um reducionismo grotesco.
Como podemos acreditar num discurso mentiroso de anticorrupção? O que surpreende é a falta de coerência e sensatez, haja vista que os argumentos não se sustentam contextualizados na história e na vida prática coletiva, tal como nos inúmeros casos de sonegação, subornos e desvios de verbas públicas, como temos assistido em nossa cidade.
Sugerir que os problemas nacionais são culpa de um partido ou alguns parlamentares é ingenuidade ou perversidade misturada à irresponsabilidade ética, quando num sistema democrático há diversas coligações, ações intersetoriais e perenidade entre sociedade civil e poder público. Mais que isso, o que choca é a renúncia coletiva em cuidar do público e bem comum cotidianamente, não apenas em manifestações performáticas.

Posto isso, prestemos atenção: esse golpe midiático é uma afronta à soberania nacional, e o pivô dessa convulsão social não é a operação Lava-Jato em si, mas o interesse internacional no Pré-Sal, conforme nos lembra a professora e filósofa Marilena Chauí. Olhemos as inferências no Oriente Médio nos últimos anos ao invés de nos focarmos em nossas subjetividades privatizadas.  

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Ocupações das escolas paulistas: o que toca em todos nós*

Caro leitor, que estado é esse que ostenta o título de mais rico do país e se esquiva de uma vida crítica, consciente e cidadã? Que estado é esse que teme e se põe indiferente aos estudantes e professores e, concomitantemente, acredita em empresas capitalistas supostamente de boa-fé.  Nosso estado de São Paulo é patético, um algoz para educação! E eu digo porquê.  

A proposta de reforma na rede estadual de ensino encaminhada pelo governador Geraldo Alckmin, referendada pelos deputados americanenses Cauê Macris e Chico Sardeli e outros na Assembleia Legislativa, é um desserviço à democracia. Uma decisão vertical, autoritária e ilegítima.

Convém ponderar que, conforme a Constituição Federal de 1988, cabe ao executivo exercer a função administrativa, adotando os princípios da soberania popular e da representação, ou seja, atender as demandas de sua base, as comunidades. Nesse sentido, é responsabilidade do governador, junto à equipe que o assessora, construir, definir e implementar políticas públicas que venham ao encontro dos interesses da população e não de suas vontades. E consta-se que a comunidade escolar não foi escutada.

Esse embate que nos saltam aos olhos é apenas um sintoma de um Estado mercantil. As ocupações dizem mais do que a contraposição ao fechamento das escolas, elas expõem a mediocridade da população paulista, que ludibriada pelos discursos elitistas de controle, autoriza sistematicamente o sucateamento do ensino público. As ocupações juvenis nos mostram que é preciso pararmos de obedecer, obedecer e obedecer como gados acríticos e irracionais.

Sejamos francos, esse projeto de alienação está diante de nós o tempo todo e não queremos enxergar. Fala-se mais do time que ganhou na quarta e da salvação, pelo consumo de fé individual, do que das realidades que afetam todos. Preferimos, por ingenuidade ou perversidade, acreditar na boa intenção de uma empresa multinacional petrolífera que constrói quadra poliesportiva em comunidade dominada pelo tráfico de drogas e esquecemos ou não olhamos que a mesma, ao mesmo tempo, sustenta a guerra e o terrorismo internacional. 

*Texto originalmente enviado como colaboração ao jornal O Liberal

quarta-feira, outubro 28, 2015

“Frescáh no Círio”: a tríade resistência estética, linguística e moral de Leona Vingativa*

Imagem do clipe "Frescáh no Círio"
 Acervo virtual, autor desconhecido. 
Com irreverência criativa, Leona Vingativa e seus amigos, de Belém do Pará, fazem uma paródia do Círio de Nazaré por meio de um vídeo compartilhado no YouTube. Frescar, na linguagem popular, significa tirar sarro, zombar. Na presente interpretação, a sátira estrelada por jovens paraenses representa a tríade resistência estética, linguística e moral frente à hegemônica leitura do corpo e sexualidade na sociedade brasileira. É um contraponto artístico à leitura fundamentalista, puritana e classista operante em todo país desde sua colonização ibero-cristã.
         Tal resistência é observada desde as cenas, scripts e personagens apresentados no videoclipe. O cenário não compreende as paisagens dos grandes centros urbano-mercantis, nem mesmo a ostentação da propriedade privada e dos espaços de glamour das sociedades fashionistas e do espetáculo. O vídeo mostra, dentre outras coisas, as periferias de casas inacabadas, os equipamentos públicos de lazer fora do mercado de consumo e o despejo do esgoto, produção humana, nas bacias hidrográficas. Retrata sujeitos que não se adequam às expectativas e posturas disponíveis na cultura cristã, heteronormativa, machista e burguesa. Assim, os personagens reivindicam um lugar ao sol àqueles que estão marginalizados, junto à corda de uma das maiores manifestações religiosas do Brasil, considerando que a fé é um direito de todos. Essa é, certamente, a primeira ruptura estética, quando o ideal de belo não se restringe às elites.
    O clipe inicia com duas cenas deflagradoras da tentativa de instituição do fundamentalismo na cultura. A primeira apresenta o pastor e Deputado Federal Marco Feliciano solicitando o uso da força policial para inibir a demonstração de afeto homossexual num culto religioso. A segunda relaciona a transcrição de um versículo bíblico em paralelo ao retrato das religiões assimilacionistas, como a Espírita e a Umbanda, sempre perseguidas no Brasil. Esse embate entre as cenas reproduzidas e criadas no vídeo exemplifica o controle sobre os corpos exercido pelos dispositivos de poder nas sociedades ocidentais.
O vídeo, enquanto um campo de interlocução e ação, rompe com a desconstrução moral de crenças que não se enquadram na perspectiva monoteísta cristã, esta cristalizada historicamente em nossa cultura pelo uso da força e das instituições. A ironia do “Frescar o Círio” aponta novos sentidos e significados ao que é simbolizado coletivamente, como o gênero, o corpo e a sexualidade.
Leona, a diva do roteiro, ao invés de aparecer num carro conversível ou de luxo, sobe e samba num caminhão Ford da década de 1980. E, ao que parece, não se trata de uma opção pelo vintage, mas sim do que se tinha disponível. Na sequência da corda, momento em que se mistura erotismo, desordem e fé, os movimentos dessincronizados denotam a negação do erudito em detrimento ao popular. Revela as potencialidades e possibilidades do uso do corpo.
         A indumentária também chama a atenção.  Ao centro, a figura de Nossa Senhora de Nazaré, com manto e coroa alusivos à santidade, mas também usando cinto e calça collant, trazendo a humanidade de sujeitos históricos. As demais personagens vestem minissaia, top, vestido e bandana de tecidos e cores variadas, impactando numa concepção sagrada, essencializada e normatizada para ornamentação dos corpos. Outra contraposição estética, somada à dança erotizada e aos termos de cunho afetivo-sexual. E na música atestam: deixarão as barrocas chocadas.
Barroca, na gíria LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), refere-se às mulheres velhas, segundo Aurélia – a dicionária da língua afiada. O uso de uma linguagem do gueto, de uma minoria política, além de dizer da escolha por termos que afirmam algumas identidades, neste caso, faz uma crítica ao conservadorismo seletivo, que julga moral e belo apenas um modelo estabelecido de script. Nesse sentido, a produção discursiva pela afirmação da multiplicidade de ser no mundo e pelas manifestações diversas da sexualidade é uma resistência linguística.
E nesse universo do possível e de neologismo, duas vezes saltam ao discurso as referências animalescas. Talvez as aproximações aos bichos primem por uma interpretação mais sincera de humanidade, fazendo frente à divisibilidade do ser humano, que lhe põe separado do meio ambiente, distingui corpo e alma e distancia conhecimento e prática. A provocação do clipe supera a ironia crítica, sejam os atores conscientes ou não, pois traz novas formas de conhecimento e legitimidades por meio de uma nova arte.

*Pequeno ensaio escrito para disciplina de Pós-Graduação "Conhecimento, compreensão e novas legitimidades" do DIVERSITAS USP

segunda-feira, junho 22, 2015

O golpe do falso testemunho à educação

* Texto originalmente encaminhado ao jornal O Liberal e ao Portal Novo Momento


 Os planos municipais de educação de várias cidades do Brasil, inclusive do estado de São Paulo e sua capital, acabam de sofrer um golpe forjado em falso testemunho e todos nós, sociedade civil em geral, devemos estar atônitos, pois sofreremos as consequências que continuarão escoando sangue por meio da violência doméstica nas famílias, das agressões nas escolas, dos assassinatos cotidianos e da violência estrutural de Estado.

Instituições como a Fundação Perceu Abramo, o Instituto de pesquisa econômica aplicada (Ipea), a Central 180, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, o Instituto Avon, o Data Popular e o Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm apontado há anos números estarrecedores: mais de 1 milhão de mulheres são vítimas da violência doméstica por ano, sendo quase 60% delas agredidas todos os dias. Entre 2001 e 2011 ocorreram mais de 50 mil feminicídios no Brasil. Em 2013 foram quase 15 mil inquéritos que chegaram à Justiça do Distrito Federal por meio da Lei Maria Da Penha. Em 2014, 03 em cada 05 mulheres jovens sofreram violência em seus relacionamentos. 

Quanto à homofobia, sabemos que o Brasil é a nação que mais mata homossexuais no mundo. A cada 28 horas um homossexual é assassinado no país. Só em 2012 foram quase 10 mil denúncias de violação junto à Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, sendo 338 assassinatos motivados por homofobia, e os números, pasmem, aumentam ano a ano.

As propostas substitutivas aprovadas nas diversas câmaras por pressão de setores religiosos rompem com anos de pesquisas, debates e trabalhos de acadêmicos e movimentos sociais. Mais que isso, denotam uma irresponsabilidade dos parlamentares que ignoram o sistema democrático. Os Planos Municipais de Educação são frutos de pelo menos seis anos de discussões públicas, com ampla participação democrática.  São produtos de conferências articuladas desde 2009 com as comunidades escolares, os gestores públicos da educação e a sociedade civil para pensar desde o ensino fundamental ao superior. Isso quer dizer que diversos atores construíram coletivamente durante anos os documentos e propostas para a educação, visando o futuro do país e da sociedade. Eu mesmo participei dessas etapas e constatei que as demandas por tratar gênero e orientação sexual nas escolas vinham, sobretudo, de sua base, da comunidade de alunos e professores, que faziam cartazes expressando a necessidade de debater violência contra as mulheres e homossexuais, certamente por serem parte dessas estatísticas acima mencionadas. E, afinal, as escolas são parte da sociedade e cumpre respondê-la com a educação para cidadania. A necessidade de tratar gênero e orientação sexual representa uma reparação de injustiças históricas.

Assim, é assustador ver pessoas e setores da sociedade que nunca promovem a participação política em detrimento da condução de rebanhos se pronunciarem contra a “ideologia de gênero”. Isso representa uma desonestidade e ignorância sem dimensão. As emendas de consenso nada mais foram que o silenciamento das minorias políticas. Infelizmente, até compreensivo considerando, por exemplo, Americana, onde temos um parlamento de homens e uma única mulher que nunca fala ou defende as causas das mulheres, a maioria insensível ou pouco conhecedora desses temas. Em Campinas e Santa Bárbara D'Oeste tiveram até a pachorra de proibirem discutir gênero e sexualidade nas escolas, uma inconstitucionalidade. Aliás, já está expresso nas Lei de Diretrizes e Bases da Educação que isso é um tema transversal, portanto, a ser abordado em todas as disciplinas não apenas na biologia como alguns mais conservadores gostariam. Gênero e sexualidade são qualitativos para humanidade, impossível normatizá-los e essencializá-los.

A substituição dos textos não está de acordo com os princípios previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos como apontado em algumas falas, haja vista que silencia as vozes das minorias, universalizando os sujeitos ao invés da dignidade da pessoa humana, não considerando também o princípio da reciprocidade, outra incompreensão pela ignorância. Os demais argumentos são tão incabíveis como este, próprios de quem nunca trabalhou com educação ou pouco sabe quais as demandas que emanam nas instituições de ensino, de quem mal compreende nossa história social. Há até uma absurda defesa da família, instituindo um modelo único possível, obviamente o patriarcal, monogâmico e cristão, desconsiderando os diversos arranjos familiares que temos no Brasil, como aponta o IBGE, e no mundo, desde as culturas indígenas às comunidades orientais e africanas. Isso é um golpe pelos privilégios como se fez brutalmente desde nossa colonização. 

O que os Estados Unidos viveram nos anos 60 e 70, reproduzimos hoje no Brasil, personagens e enredos que de tão parecidos, parecem ficção. Aliás, aqui mesmo falamos sobre as semelhanças de John V. Briggs e Jair M. Bolsonaro.  Fomos incapazes de aprender com erros históricos do passado e promovemos um horror ao invés de um futuro pela igualdade e justiça como prescrevem os acordos internacionais que somos signatários. 

Quanto aos setores religiosos que subitamente apareceram, penso que o perdão da Igreja à humanidade pelo genocídio que desenvolveu na Idade Média não foi capaz de redimir a perversidade de alguns de seus vulgos discípulos, estes tão incompreensíveis. O mesmo ocorre com os demais fundamentalistas religiosos, sem generalizações, que se levantam em falso testemunho, vociferando atrocidades em nome de outro maior, absoluto e incontestável, como a figuras de Deus e Jesus, cristalizadas em nossa cultura. Fundamentalistas que fazem uma interpretação oportunista de um mito, pois o Deus e o Jesus sagrados são amor, ternura e compaixão, não indiferença, ódio e irresponsabilidade intelectual e política. 

sábado, abril 04, 2015

Redução da maioridade penal: um contrassenso da adultez.

Motivada por setores conservadores da sociedade, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição 171/93, que visa reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Segue a discussão na casa legislativa, nos conselhos especiais, em fóruns, em debates acadêmicos e nas redes sociais. E o que isso significa?

Para mim, fazer frente à violência com projetos de leis pela redução da maioridade penal é um contrassenso. Isso mesmo! Uma contradição de conduta para nós adultos, haja vista que não há nada mais imaturo que projetar a responsabilidade àquele que não é o responsável.

Não fui claro? Pois bem, caro leitor, deixe-me explicar: acreditar que o sujeito - menor de idade - é a causa da violência que acomete a sociedade, beira a insanidade e uma racionalidade infantil. Revela uma estupidez, preguiça e imaturidade em entender a complexidade de um sistema social, político e econômico que produz toda a intolerância, truculência e selvageria nas diversas sociedades.

A violência é histórica e diz de um processo com múltiplos fatores, logo, tratá-la pontualmente, sob a responsabilização dos sujeitos, representa total falta de coerência própria da adultez.

Defender a redução da maioridade penal é legitimar o genocídio urbano nas periferias das metrópoles e nos interiores Brasil a fora.  E acredito que qualquer brasileiro, com o mínimo de maturidade, reconheça o fracasso do nosso sistema penitenciário.

Recuso-me render-me às respostas fáceis dos telejornais conservadores e elitistas, prefiro olhar qualquer pessoa como sujeito dotado de valor moral. Acredito que só podemos pretender a mudança social se nos enxergarmos como corresponsáveis pelas realidades e mazelas que atravessam todos, de modo que, maduros, tenhamos a capacidade de contestar a estrutura e a estratificação social que produzem a violência. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Publicidade Infantil

*Texto originalmente escrito como redação para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2014

Exposição "O mundo segundo Mafalda" (2015)
Praça das Artes - SP
Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino, é uma menina que sempre se questiona sobre os dilemas da vida, questões políticas, problemas sociais e práticas cotidianas, como o consumo. Do mesmo modo que nesse tipo de arte que traz vida à Mafalda, na publicidade se utiliza uma série de elementos para a comunicação com os interlocutores, imagens, símbolos, representações, etc. Nesse sentido, como no cartum, é preciso que sejamos crítico com a publicidade infantil.

Desde a antiguidade a persuasão sempre fez parte das nossas relações, seja no paradigma greco-romano, quando defendia-se uma ideia pela argumentação ou no paradigma judaico-cristão, quando a Igreja e a filosofia medieval defendiam seus dogmas como máximas comuns a todos. Aliás, foi com a promoção de suas celebrações, venda de objetos santos, entre outras coisas, que a Igreja deu início à publicidade, ainda que à época não se nomeasse de tal modo.

O fato é que se sempre houve a intenção de persuadir pessoas, devemos ter em conta ter em conta as relações de poder que se estabelecem a partir disso, bem como as discursividades que as constroem. Em se tratando das crianças, por ainda não terem autonomia sobre suas ideias, pensamentos e julgamento e serem influenciadas por discursos simples, temos que estar atentos e socialmente criarmos parâmetros para que a relação assimétrica entre elas e os adultos não interfira em suas subjetividades, quando, por exemplo, criamos uma necessidade de consumo a qual muitas delas não poderão suprir.

Essa atenção é uma responsabilidade do mundo adulto, uma vez que as consequências da publicidade para uma criança tanto influenciam nas suas experiências pessoais, como no sentimento de felicidade, quanto em toda conjuntura social, haja vista o aumento do consumo excessivo de muitos produtos e serviços impacta na saúde pública e no bem-estar social. Se pensarmos nos reflexos da publicidade que se alinha a uma de nossas pulsões de vida, a fome, nos Estados Unidos e no Brasil, o número de crianças obesas hoje é alarmante e representa uma série de problemas, como o aumento de doenças cardiovasculares, baixa auto-estima, custos com medicamentos, etc.

Inspirados na personagem Mafalda, devemos problematizar as questões do nosso cotidiano, como dissemos a persuasão sempre esteve presente na história e a publicidade infantil está muito presente nos dias de hoje, inclusive porque muitos meninos e meninas têm recebem infinitas informações através dos brinquedos, mídias, celulares, games, etc. No Brasil, além de refletirmos através da arte que atinge em geral diversos públicos, podemos propor e reivindicar projetos de leis de base educativa construídos à luz dos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e preocupados com as especificidades da infância, conscientes de que os adultos são responsáveis por esses menores. 

quarta-feira, outubro 22, 2014

31ª Bienal de Arte de São Paulo: blasfêmia?

“Como (falar, ouvir, etc.) coisas que não existem”

Blasfêmia, palavras que ultrajam a divindade, seria o qualitativo mais adequando para definir a 31ª Bienal de Artes da capital paulista? Sim, Blasfêmia! Não pela afronta, mas porque é preciso contestar a divindade. É preciso que nos questionemos como simbolicamente a cultura atravessa os corpos, mentes, crenças, espaços e tudo aquilo que nomeamos e significamos socialmente, inclusive, ironicamente, o lugar que empresta o nome ao evento.
A edição de 2014 do evento foi classificada “blasfêmia” pelo Instituto Plínio Correa de Oliveira. Contudo, à revelia do instituto cristão e outras entidades, representantes da ordem e das instituições de poder, ainda que traga uma interpretação subjetiva, a crítica da bienal de arte, travestida em símbolos gráficos, estéticos, sonoros e etc., foi proposital. Óbvio!
Nas diversas obras e exposições podemos ter uma aula de como construímos a cultura e vários elementos que a constitui, como as práticas sociais, a linguagem, as línguas e expressões, faladas e escritas, tradições de organização social, codificadas em temas como violência, sexualidade, religião, uso dos corpos e poder.
 A 31ª Bienal de Arte de São Paulo é contemporânea, como prevê sua proposta, e histórica por tudo que resgata de nossas feridas do processo civilizatório, recalcadas a base de um projeto de vida e poder que nos controla e nos faz perder do todo, limitados a um único foco de atenção: nós mesmos. Esquecemos o tempo e a história, pois não suportamos lidar com o que mais nos toca, o outro. 
Sendo assim, contestar a divindade é provocarmo-nos, é relativizar nossas certezas. Tarefa árdua à quem está acostumado e condicionado ao "amém" e "sim, senhor". Essa provocação é, talvez, uma das poucas formas que podemos romper com a arrogância e prepotência de nos acharmos conhecedores de todas as coisas e realidades. É deixar o cabresto e as rédeas, e, sobretudo, a tutela de nossas vidas. É o compromisso, a responsabilidade e maturidade em fazer frente ao mundo e o que ele tem a oferecer. Assim, blasfêmia é possibilidade de mudança, uma vez que provoca, mexe e nos coloca em cheque.  E já afirmava Aristóteles na antiguidade: o pensamento nasce do espanto.

 “O título da 31ª Bienal de São Paulo – Como (…) coisas que não existem – é uma invocação poética do potencial da arte e de sua capacidade de agir e intervir em locais e comunidades onde ela se manifesta. O leque de possibilidades para essa ação e intervenção está aberto – uma abertura que é a razão da constante alteração do primeiro dos dois verbos no título, antecipando as ações que poderiam tornar presentes as coisas que não existem. Começamos por falar sobre elas, para em seguida viver com elas, e então usar, mas também lutar por e aprender com essas coisas, em uma lista sem fim”. – 31ª Bienal de São Paulo

quinta-feira, setembro 25, 2014

A morte de Sócrates na contemporaneidade

            Um dos grandes filósofos da antiguidade, Sócrates (469-399 a.C.), acreditava, em linhas gerais, que a filosofia não ensinava nada, mas ajudava o sujeito encontrar a verdade por si mesmo. “Sei que nada sei” é a máxima que rompe com nossa arrogância em acreditar que o que dizemos é o que realmente é. Suponho que se Sócrates estivesse no atual cenário certamente beberia a cicuta, veneno que o matou na antiguidade.
            Transitando por três tipos de instituição de ensino, uma pública, outra privada e a terceira do sistema S., percebo que, para além das diferenças e particularidades de cada uma delas, quando falamos de uma racionalidade operante das práticas sociais, o mesmo modelo se impõe em todas elas. Numa faço mestrado, noutra minha segunda graduação e na terceira atuo como educador.
            Apesar de considerar todas aquelas constatações que já sabemos no senso comum, de como estruturalmente essas instituições constituem suas comunidades, atravessadas por uma lógica de classe, privilégios e formas de dominação, quando legitimamos as autoridades nos espaços de educação; penso que temos um desafio: estabelecer um diálogo entre “papagaios burros”, termo que empresto do prof. Fábio Camilo Biscalchin e sugiro a leitura de sua obra.
            Na sociedade contemporânea do imediato, baseada no espetáculo e na performance, não há espaço para a reflexão, não é mesmo, caro leitor? Quantos de nós, concomitantemente à leitura de uma matéria nas redes sociais e mídias eletrônicas, já colocamos nossa opinião? Todos querem ter a verdade e compartilhá-la. E já dizia outro filósofo, mais contemporâneo, Foucault (1926-1984), que o poder está em todas as pessoas e relações.
            Não é que essa moção pelo compartilhamento de ideias não seja importante, tão pouco que todos possam apresentar seu posicionamento, afinal a democratização do conhecimento e da participação é um princípio ético para a vida em sociedade. O problema é quando nos esquecemos que é preciso pensar.
            Infelizmente, nessas instituições de ensino vejo esse paradoxo: uma repulsa ao pensamento, quando o objetivo é a formação. Assim, naquelas escolas de ensino que denominamos “superior” queremos a crítica pronta e o método que legitime a nossa verdade e produzimos saberes como sapatos, já em outras observamos o consumo do conhecimento, quando em toda aula prima-se pelo espetáculo e platéias contagiadas e noutra acolhemos sujeitos que, numa formação técnica, buscam práticas e procedimentos que os transformam em máquinas, peças sem subjetividades, sem valor moral e humanidade.

            Retomemos Sócrates, pois é preciso uma vida com pensamento!    

quinta-feira, julho 24, 2014

O levante conservador: um problema ao multiculturalismo

            Três fatos, dentre inúmeros recorrentes nos últimos dias, podem nos exemplificar um levante conservador que estamos vivendo no país. Isso é um problema ao multiculturalismo e eu explico.
            Nessa semana um cara na academia disse, sem qualquer pudor social, que mulher deveria obedecer ao marido, dar-lhe sempre carinho sem reclamações e que o homem é a autoridade no lar, devendo ela apenas cuidar dos filhos, pois essa é sua obrigação “natural”. Acrescentou que feministas são chatas e mal amadas. Todo seu discurso estava atravessado de ignorância e rancor, desqualificando as mulheres como sujeitos morais. Para quem queira saber mais, até 1800 se explicava a mulher como o sexo invertido, inferior. Depois, passou-se a explicar a distinção dos sexos e dos gêneros, colocando-a presa no lar, no privado, enquanto os homens são educados para o público. Tudo isso, nada mais é que construções discursivas para exercício do poder e da dominação.
            Em 07 de julho foi aprovada uma lei que institui a leitura da bíblia diariamente em escolas públicas de Nova Odessa pelo legislativo local. Curiosamente, na mesma semana uma igreja em Sabará, Minas Gerais, foi invadida e depredada por evangélicos que alegaram serem contra o culto a santos. É uma nova colonização e imposição de valores, tal como quando os europeus vieram catequizar os índios e, praticamente, extinguiram sua/nossa cultura. Fez bem o prefeito em vetar, uma vez que o Estado é laico e não podemos acatar uma crença como hegemônica. 
            Esses dias um conhecido destilou todo seu preconceito numa rede social ao ler uma postagem na qual digo que a funkeira Valesca Popozuda é uma diva, pois para ele, a cantora é uma puta. Valesca aparece numa foto lendo Madame Bovary, de Flaubert, uma obra do século XIX que conta a história de uma mulher que, mesmo sonhadora, não se submete às imposições de uma moral hipócrita. Bem, mas ainda que ela fosse puta, que não é o caso, poderia sim ser diva. A divindade é um significado social.
            Tais fatos representam uma afronta ao multiculturalismo, que diz da coabitação de múltiplas culturas num mesmo lugar. E, em linhas gerais, cultura é um conjunto de práticas, crenças, valores, manifestações artísticas e intelectuais transmitidos entre gerações.  Não existe uma mais importante que a outra. Num mundo tão diverso como o nosso, as religiões, os modos de viver e as subjetividades de cada indivíduo devem ser respeitados e salvaguardados. Não faz sentido falar em alguém que deve submissão a outrem, nem em imposição de uma crença, tão pouco julgar aquele que não conhecemos. 

segunda-feira, setembro 09, 2013

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal



Americana-SP e o neoliberalismo

            Há algum tempo venho ensaiando escrever sobre a aceleração no processo de imersão de Americana-SP no neoliberalismo. Não que isto seja uma novidade para o município, afinal desde seu processo de ascensão na década de 50, quando se destacou como pólo têxtil na América Latina e cidade de maior desenvolvimento no país, já delineava em sua história uma aproximação ao sistema capitalista. Na ocasião em que vivíamos o auge da industrialização, tínhamos como prefeito Antonio Pinto Duarte, de família tradicional no município e que muito se beneficiou do acúmulo de capital. Na mesma década iniciou-se a construção da Matriz Santo Antônio de Pádua, cujas paredes foram pintadas pelos irmãos italianos Pedro e Uldorico Gentilli, sendo hoje a maior igreja em estilo neoclássico do país. Detalhe: é preciso pontuar a origem européia. Assim, já elucidamos como os valores tradição, família e propriedade vão se enraizando em nossa cultura local.
            Por sorte ou conseqüência da redemocratização do país, durante gestões passadas, sobretudo sob o governo de um ex-preso político da ditadura militar, Waldemar Tebaldi (PT, PDT e PMDB), as políticas sociais frearam ou, de certa maneira, amorteceram os impactos da transformação das coisas em mercadoria. O tripé saúde-educação-habitação que norteava as principais políticas públicas da época dizia de um Estado, ainda que com problemas, presente. Entretanto, no desenrolar do processo histórico, mudou-se os governos e também as perspectivas do planejamento urbano. Já na gestão de Erich Hetzl Júnior (PDT), sucessor póstumo de Tebaldi, mudou-se os rumos de Americana. Eu mesmo, enquanto estagiário de ensino médio, acompanhei o sucateamento de dois projetos sociais que trabalhava, “Orientação e Vivência” e “Adolescentes”, da secretaria de promoção social. De um ano para outro, de 17 bairros contemplados com os projetos, apenas 05 continuaram a desenvolver as atividades e atender as crianças e adolescentes que estavam filiadas ao programa federal de erradicação do trabalho infantil – PETI.
            Se o Estado já anunciava sua retirada neste último cenário, é nas gestões de Diego De Nadai (PSDB) que ele oficializa sua ausência, seja pelas parcerias público-privadas no trato da saúde pública e transferência de suas responsabilidades ou na venda dos espaços públicos e da cidade como um todo na publicidade performática – que oferece o espaço como mercadoria de investimento. Adentramos, nos últimos anos, num dos caminhos mais perverso e traiçoeiro do capitalismo, em que significamos tudo como mercadoria, orientados por uma lógica competitiva de mercado.
            Atenção! Isso não significa que não transformemos a realidade, nem que ela seja em sua totalidade má. Contudo, é preciso notar a distinção entre a mudança social e a mobilidade social. Enquanto a primeira orienta-se pela transformação coletiva e alteração da percepção e do contexto comum, a segunda prima pela ascensão pessoal, do individuo pelo individuo. Daí, ainda que tenha reflexos sobre o coletivo, sua perspectiva atente o ideal burguês, capitalista e egocêntrico, responde a um projeto de vida e destino sócio-individual, ou seja, individualista.

As comemorações de sete de setembro, Marco Feliciano e a elite americanense: A ordem e o valor neoliberal

            Três fatos ocorridos neste último sábado (7) em Americana-SP ilustram como todos eles estão interligados, concatenados por uma ideologia que atravessa nossa experiência cotidiana. As comemorações da independência nacional e os protestos daqueles que contestam a história oficial e a ordem vigente, a vinda do deputado federal Marco Feliciano (PSC) para o 20º Congresso da UMADAME (União da Mocidade da Assembléia de Deus de Americana) na igreja evangélica Assembléia de Deus - Ministério de Belém e o lazer de jovens burgueses num barzinho desses com mesas na calçada.
            Os registros das comemorações de 07 de setembro desse ano trazem algo histórico no país: Não foram as imagens alegóricas alusivas à ordem, daqueles que desfilam, muitas vezes alienados à realidade nacional e local, ostentando um valor social forjado pela suposta independência, que tomou conta da produção discursiva a respeito, inclusive na mídia internacional. Foi sua negação, sua parte antagônica, o protesto desalinhado ao hegemonicamente ordenado e daqueles que não compactuam com esse consenso imaginário de uma realidade justa e glorificada.
            Comemoramos a independência nacional e mal concebemos a liberdade em nosso cotidiano. Estes protestos falam disso. Não somos mais a colônia lusitana da America. O nosso colono agora é o Mercado, que dita tudo como mercadoria. Nesse processo, desconstruímos o Outro e o público, pois consideramos sua importância apenas como mercadorias. Adquirirmos namorados(as), amigos(as), parceiros(as), sócios(as), grifes universitárias, parques e praças higienizados, etc. Pouco nos interessam aqueles e aquilo que não compreende o nosso círculo e cenário de sociabilidade.  
            Não nos interessam porque não fazem parte desse projeto de vida e destino sócio-individual. A ausência do Estado e o controle do mercado acirram a competição como forma de existir e viver no mundo. Para as elites pouco importa se a educação, a saúde e o lazer não são mais responsabilidades do Estado, afinal, quando se paga, de um jeito ou de outro, se têm o esperado dentro de um sistema capitalista – e o esperado também é uma construção social que se transforma nos processos históricos. Atualmente, consumimos desenfreadamente e irracionalmente numa inércia que nos atropela e nos deixa apáticos à critica social e de nós mesmos.
            Em Americana multiplicam-se os grandes supermercados em todos os bairros; pipocam as vendas dos planos de saúde, eleva-se o número de carros alusivos aos tanques de guerra – potência necessária para proteção da família num cenário de guerrilha urbana -, de salões de beleza e clínicas de estética; aumenta a especulação imobiliária de uma cidade dormitório – E pasmem! Ainda vendemos os espaços públicos. É o projeto de vida e destino sócio-individual que reforça aquele velho valor: tradição, família e propriedade.   
           E o que sobra aos sem nome, sem o modelo de “família Doriana” e sem propriedade? O desejo de consumir todas essas coisas, óbvio. Não à toa, esse valor socialmente construído atravessa a cultura, as religiões e o Estado. Todos nós somos co-produtores dessa realidade e desse valor socialmente estabelecido e instituído como meta de alcance pessoal. Desde os pagantes dos planos de saúde e dos boletos de escolas privadas aos marginalizados que demandam as políticas sociais.
            Nessa perspectiva, sobrevivem os mais aptos, ou seja, aqueles que consomem. Consumimos lugares, educação, pessoas, saúde e bem-estar e até crenças. Não que a fé não tenha seu mérito e relevância – que isso fique bem claro – mas as crenças muitas vezes nos respondem ou confortam diante da nossa incapacidade de olhar o Outro, da nossa irresponsabilidade sobre si e o mundo. Projetamos tudo como vontade divina, de forma que justifiquemos nossa exclusão e marginalidade, sejam compulsórias ou voluntárias. 
         Não por acaso, concomitantemente a ascensão neoliberal, eleva-se o número de igrejas neopentecostais.   Com o Estado ausente e os sujeitos despontencializados para participação política e para intervenção na realidade, as igrejas aparecem como soluções ao caos. Estas representam bem o mercado, pois tratam dos fiéis como consumidores passivos, apenas como sujeitos contemplados com seus produtos/serviços. Deturpa-se, assim, o manejo das demandas sociais, antes sob controle do Estado/cidadãos e nesse contexto aos cuidados das igrejas/mercado.
            Entendamos, a partir de um exemplo local: Na última sessão ordinária do legislativo americanense, o vereador Thiago Brochi (PSDB) e o presidente da Câmara Paulo S. V. Neves – Paulo Chocolate - (PSC), no momento em que discutiam a concessão de locais públicos a igrejas evangélicas, falaram da importância do trabalho de tais instituições ao bem social. Ora, demanda social não é caridade de instituições religiosas, é obrigação do Estado! Contudo, as opiniões de tais legisladores não são de se estranhar, apesar de serem absurdas. Incoerentemente, eles não falam do trabalho do Estado, como deveriam, o projetam a outrem, no caso às igrejas, desvirtuando como deve ser o atendimento das demandas sociais, não mais como obrigação do Estado, em que a população é co-responsável, mas como caridade e benfeitoria de sujeitos e entidades benevolentes. Nesse cenário, o cidadão passivo é consumidor e beneficiário do que almeja. A tutela religiosa é compreensível, pois desempodera os sujeitos sobre sua realidade e desconstrói sua consciência política de participação, empoderando, em contrapartida, os líderes e o mercado.
            E todos nós sabemos como se conduzem os rebanhos na busca por votos. Não é mesmo? Marco Feliciano disse com todas as letras, durante o culto, que nas próximas eleições pretende ser o deputado com mais votos no estado de São Paulo. E para tanto, juntamente com alguns colegas disse algumas mentiras, todas ao som orquestrado de forma a fortalecer o contágio emocional. Feliciano vociferou que hoje as escolas brasileiras representam um mal por corromperem os valores morais e que as crianças devem estar mais tempo próximas aos pais e à família, esquecendo-se de que a maior parte dos pais das crianças em tempo de escola no Brasil trabalha e não possui condições como ele de enviar seus filhos para outro país. Além disso, deixou de dizer que a educação brasileira vai mal também por conta do descaso crônico de nossas autoridades – como ele – que cada vez mais faz do Estado um aliado do mercado. O pastor comentou que a mídia e o movimento LGBT têm o perseguido por seus valores fundamentarem-se numa doutrina milenar. Mentira! Desde quando a grande mídia ocidental não está totalmente atravessada pelas doutrinas cristãs? Haja vista, como exemplo, a “católica” Rede Globo e a evangélica Record.  Ademais, fora os boçais fundamentalistas, quais são os líderes religiosos que o movimento LGBT persegue? Bem, mas como contestar essas mentiras num culto que até orquestra embala o discurso do pastor? Tudo vira uma falácia.
          Ao mesmo tempo em que o coro dizia amém, alguns cidadãos estavam na delegacia por conta da prisão de militantes do protesto de 07 de setembro. Militantes estes que muito têm a ensinar sobre democracia, pois na mesma sessão em que os vereadores acima mencionados discutiam projetos de lei enviados a toque de caixa pelo executivo, os mesmos militantes refletiam sobre as conseqüências e implicações de tais projetos a população. De um lado, o "Pulta Catraca" e outros coletivos têm mostrado que democracia não se faz pelo consenso e sim por um dissenso em que as múltiplas perspectivas são respeitadas, sem oportunismos políticos. Do outro, curiosamente, os mesmos políticos que criminalizam os movimentos sociais, são aqueles que encaminham seus capangas para sufocar qualquer reivindicação popular que não seja a do seu interesse, que participam de cultos e missas aos domingos e que defendem a família e os bons costumes.
         E enquanto uns protestavam e alguns faziam uso da força e ordem arbitrária, outros consumiam naqueles bares com mesas na calçada. Estes quase todos com o mesmo perfil fenotípico produzido - modelos de uma juventude burguesa de Americana – tradicional, elitista e classista. E ali se viam aqueles rostinhos que saem na coluna social do Wagner Sanches e os carros de guerra estacionados, alguns com aqueles adesivos da família ou com inscrições religiosas.  

sexta-feira, junho 21, 2013

Eros e civilização, Texto III | Atos pelo Brasil

Texto I | Clique aqui
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           Eros também é fantasia, devaneio, puro capricho da imaginação. Faz com que as pessoas gritem e resistam à bala de borracha e gás lacrimogêneo, faz com que editemos fotos, publiquemos coisas e queiramos mostrar tudo isso ao mesmo tempo. Produzimos as imagens que queremos, pois tal Eros é alvo do Ego e de uma ferida narcísica que nunca cicatriza.
            Dessa forma perpassa todas as práticas que exercemos nas ruas e em redes sociais, no público e no privado.  Não à toa os movimentos sociais também são constituídos no plano da fantasia, sobretudo quando ganham força a partir do facebook. Sendo assim, os movimentos não são apenas o que vemos de fato, compreendem tanto a realidade concreta quanto a que criamos a partir de nossa performance no mundo.
          Apesar da inegável contribuição para a democratização da informação e transformação na comunicação, as redes sociais impactam em várias dimensões da consciência e da vida, uma vez que contempla o imaginário. Há um conjunto de signos, símbolos e sentidos em jogo compartilhados nos textos, mensagens e imagens, tudo a partir de um clique que nunca é vazio.  E não sendo vazio, é lugar de significação.
            Sendo assim, como as redes sociais se relacionam com a realidade concreta? Qual seu impacto no vivido e no cotidiano?
            Além de visibilizar causas e aproximar pessoas, elas cooptam o Eros e põe em exercício o poder. Jurandir Freire Costa (1997), ao tratar da noção de violência e abuso de poder no horizonte ético da cultura, fala das elites brasileiras e seu destino sócio-individual. Uma vez que detêm a maior parte das riquezas e o comando dos instrumentos que consagram normas e comportamentos – a exemplo as redes sociais – servem, com seu capital cultural e intelectual, ao mercado e ao sistema capitalista.  Assim, o autor considera duas idéias: a) o alheamento em relação ao outro e b) a irresponsabilidade sobre si.
            Esse alheamento em relação ao outro, aponta ele, pode gerar o desconhecimento do outro como semelhante, desqualificando-o como ser moral. A indiferença anula quase totalmente o outro em sua humanidade, assim ignora-o enquanto sujeito dotado de direitos e desejos. Assim, os saqueadores, pichadores e os baderneiros não são dignos de compreensão, nada mais são do que uma escória social a ser banida. Não os enxergamos como parte de nós, produtos dessa relação assimétrica de direitos. Ainda que se tenha criticado a ação fascista da Polícia Militar nos diversos atos pelo Brasil, sua força é altamente reivindicada para esses ditos marginais.
            No modelo de subjetivação e individualização das elites brasileiras, aponta Jurandir, os pobres e miseráveis são cada vez menos reconhecidos como pessoas morais. Essas elites não se preocupam em legitimar seus valores, já os têm como dado, como um consenso imaginário. E esta convicção de certa forma é autentica. Assim, os movimentos sociais devem ser como elas concebem, ordenados de maneira que não contestem seus privilégios.
            Contudo, as elites são personagens cárceres de um mundo fantasma que elas mesmas criaram. Fechadas em suas bolhas, dentro de shoppings, condomínios e até em universidades, não conseguem enxergar o outro que destoa de seus valores. Gera-se aí a irresponsabilidade sobre si, pois o ideal da boa vida burguesa paralisa os indivíduos num estado de ansiedade permanente, responsável, em grande parte pela incapacidade em olhar para outra coisa que não a si mesmo. Faz sentido, portanto, ver como o compartilhamento de tanta informação gera um gigante posto como adormecido. Essa dormência a base de antedepressivos é o retrato da indiferença com o outro, quando não se olha para as pautas e reivindicações emergentes do social, simplesmente reproduz-se a hegemonia de poder e a vontade de agir pelo ego modelo.
            Não é que os movimentos não existam e que não hajam pessoas compromissadas com as causas sociais, o gigante é apenas a materialidade da hegemonia. Tal gigante reivindica muito o consenso, pois é autoritário e não suporta o dissenso e os discursos marginais, quer colocá-los no ostracismo de onde não deveriam ter saído. Os pequenos, ou as minorias por assim dizer, estão acordados há muito tempo. O MPL (Movimento do Passe Livre) há pelo menos oito anos, como dizem os militantes, tem organizado ações pela mobilidade urbana e direito à cidade. Como podemos esquecer atos tão recentes como os protestos “Fora Feliciano” que pipocaram por diversas capitais, cidades interioranas e mundo a fora? Sobretudo articulados por movimentos como o LGBT, o feminista e o Negro via redes sociais. E já diziam “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Como pode hoje, nesse desenrolar dos fatos, na organização de um ato contra o projeto de Lei da “Cura Gay”, alguém questionar e contestar tal pauta como uma demanda social, alegando que o momento é para causas de todos?  
            É o eco do conservadorismo tentando incutir nos movimentos sua hegemonia. Daí fala-se de tudo, da educação, da corrupção e até da família, tudo pelo exercício do poder. Não são as ações coletivas que estão em jogo, mas o desejo individual em publicizar um sujeito político inventado, conforme valores que a própria elite enaltece.
            Ser crítico, participativo e politizado é um valor compartilhado para esse sujeito moral que as elites concebem. O conhecimento e a política sempre estiveram associados às classes dirigentes, sendo assim, as elites brasileiras contemporâneas não se refutariam a consumi-los, ainda que de maneira forjada. Consome-se cultura, educação e entretenimento, tudo banalidades para esse destino sócio-individual.
            Assim, é como fala Marilena Chauí, num vídeo postado no youtube, a violência opera sob o preconceito de classe, raça, sexo, orientação sexual, mas só a criminalizamos quando dissociada da marginalidade. Os comentários conservadores sobre os atos de hoje mostram isso.
            O Projeto de Lei 122, que pretende a criminalização da homofobia é um bom exemplo desse reconhecimento arbitrário da violência, sofrendo forte resistência das elites políticas pressionadas pelas bancadas fundamentalistas. Mais do que contestar a violência sob o sujeito, ele provoca o patriarcado, a opressão da família burguesa e a religiosidade a favor do capital. Ele põe em cheque os privilégios dos homens de família, por isso é polêmico.
            Os movimentos de hoje diz um pouco disso tudo. Além de denotarem as queixas sociais e o caos que produzimos socialmente ao longo da história, revela o Eros cooptado numa conjuntura neoliberal, fazendo da ação coletiva um desejo narcísico. Não que em outros conflitos sociais isso não seja percebido, haja vista a formação das lideranças, entretanto, as elites brasileiras parece ter feito disso uma demasiada moção para vida e para prática cotidiana. Assim, a pulsão por estar nas ruas está além de uma causa, ela diz desse valor socialmente construído por um ideal de ego, é como Cantri (1941) nos pontua as motivações pessoais em eleger valores ao participar de ações coletivas. Por isso a dificuldade em se definir bandeiras num momento de tanta aderência. Da mesma forma que é consumida a educação para o vestibular e a cultura para sobreposição do erudito em detrimento ao popular, a militância é absorvida apenas para a performance, uma prática fantasiosa de caráter egóico.
            Num debate ocorrido há pouco na Universidade de São Paulo, gostei de uma idéia dita pela professora Sylvia Duarte Dantas (UNIFESP), de que estamos numa catarse social, como experiência – ou suposta sensação - de libertação da opressão. Tais movimentos são a explosão de diversas queixas, tanto dos oprimidos por um sistema excludente, quanto daqueles que se sentem apartados do outro, quando numa ação contraditória tentam alimentar sua imagem pessoal. Diz da incapacidade de boa parte das autoridades públicas em responder as pautas sociais, uma vez que presas às amarras de negociatas, distanciam-se da sociedade. Diz da dificuldade de todos nós em olhar para o outro. E é isso que precisamos recuperar, a proximidade com os nossos representantes e a atenção no outro. Sem isso, nessa falácia toda, só reafirmaremos o que Jurandir supõe ser nossa estratégia indiferente, destruir o que não temos coragem de transformar.
             
Como fazer isso? Ninguém tem a resposta. Ela será processada entre todos nós. Contudo, baseado no que tenho escutado, destaco tais táticas: 
1.    Mais atenção dos partidos políticos às pautas sociais. Essa resposta reacionária também revela sua incapacidade em responder demandas da população;
2. A participação da população em coletivos e partidos. - Participe, mesmo que julgue estes corrompidos, pois se um coletivo achar por bem mudar a conjuntura, haverá a transformação. E o sistema representativo é um modelo de gestão democrática;
3. A construção de uma cultura política. - Informe-se mais, conheça seus representantes, freqüente mais as casas legislativas ao seu alcance, da sua cidade;
4. Recuar nesse momento, como fez o MPL, para que não sejamos cooptados pelos discursos e forças hegemônicas;
5. Pensar em estratégias para essa potência de Eros em subverter o que está posto como opressivo, aproveitando-se dessa ruptura, mesmo que simbólica, de apatia social para construir o novo.


“Sem um esforço para conceber [o novo], (...) dificilmente poderemos produzir o encantamento necessário à paixão transformadora capaz de restituir à figura do próximo sua dignidade moral. O caminho é longo e penoso. Mas navegar é preciso, e sem uma bússola na mão e um sonho na cabeça nada temos, salvo a rotina do sexo, droga e credit card”. Jurandir Freire Costa 

Referência:
COSTA, Jurandir Freire. A Ética Democrática e seus Inimigos. O lado privado da violência pública. Em: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Ética (seleção de textos). Rio de Janeiro/Brasília. Garamond/Codeplan, 1997.