sexta-feira, junho 21, 2013

Eros e civilização, Texto III | Atos pelo Brasil

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           Eros também é fantasia, devaneio, puro capricho da imaginação. Faz com que as pessoas gritem e resistam à bala de borracha e gás lacrimogêneo, faz com que editemos fotos, publiquemos coisas e queiramos mostrar tudo isso ao mesmo tempo. Produzimos as imagens que queremos, pois tal Eros é alvo do Ego e de uma ferida narcísica que nunca cicatriza.
            Dessa forma perpassa todas as práticas que exercemos nas ruas e em redes sociais, no público e no privado.  Não à toa os movimentos sociais também são constituídos no plano da fantasia, sobretudo quando ganham força a partir do facebook. Sendo assim, os movimentos não são apenas o que vemos de fato, compreendem tanto a realidade concreta quanto a que criamos a partir de nossa performance no mundo.
          Apesar da inegável contribuição para a democratização da informação e transformação na comunicação, as redes sociais impactam em várias dimensões da consciência e da vida, uma vez que contempla o imaginário. Há um conjunto de signos, símbolos e sentidos em jogo compartilhados nos textos, mensagens e imagens, tudo a partir de um clique que nunca é vazio.  E não sendo vazio, é lugar de significação.
            Sendo assim, como as redes sociais se relacionam com a realidade concreta? Qual seu impacto no vivido e no cotidiano?
            Além de visibilizar causas e aproximar pessoas, elas cooptam o Eros e põe em exercício o poder. Jurandir Freire Costa (1997), ao tratar da noção de violência e abuso de poder no horizonte ético da cultura, fala das elites brasileiras e seu destino sócio-individual. Uma vez que detêm a maior parte das riquezas e o comando dos instrumentos que consagram normas e comportamentos – a exemplo as redes sociais – servem, com seu capital cultural e intelectual, ao mercado e ao sistema capitalista.  Assim, o autor considera duas idéias: a) o alheamento em relação ao outro e b) a irresponsabilidade sobre si.
            Esse alheamento em relação ao outro, aponta ele, pode gerar o desconhecimento do outro como semelhante, desqualificando-o como ser moral. A indiferença anula quase totalmente o outro em sua humanidade, assim ignora-o enquanto sujeito dotado de direitos e desejos. Assim, os saqueadores, pichadores e os baderneiros não são dignos de compreensão, nada mais são do que uma escória social a ser banida. Não os enxergamos como parte de nós, produtos dessa relação assimétrica de direitos. Ainda que se tenha criticado a ação fascista da Polícia Militar nos diversos atos pelo Brasil, sua força é altamente reivindicada para esses ditos marginais.
            No modelo de subjetivação e individualização das elites brasileiras, aponta Jurandir, os pobres e miseráveis são cada vez menos reconhecidos como pessoas morais. Essas elites não se preocupam em legitimar seus valores, já os têm como dado, como um consenso imaginário. E esta convicção de certa forma é autentica. Assim, os movimentos sociais devem ser como elas concebem, ordenados de maneira que não contestem seus privilégios.
            Contudo, as elites são personagens cárceres de um mundo fantasma que elas mesmas criaram. Fechadas em suas bolhas, dentro de shoppings, condomínios e até em universidades, não conseguem enxergar o outro que destoa de seus valores. Gera-se aí a irresponsabilidade sobre si, pois o ideal da boa vida burguesa paralisa os indivíduos num estado de ansiedade permanente, responsável, em grande parte pela incapacidade em olhar para outra coisa que não a si mesmo. Faz sentido, portanto, ver como o compartilhamento de tanta informação gera um gigante posto como adormecido. Essa dormência a base de antedepressivos é o retrato da indiferença com o outro, quando não se olha para as pautas e reivindicações emergentes do social, simplesmente reproduz-se a hegemonia de poder e a vontade de agir pelo ego modelo.
            Não é que os movimentos não existam e que não hajam pessoas compromissadas com as causas sociais, o gigante é apenas a materialidade da hegemonia. Tal gigante reivindica muito o consenso, pois é autoritário e não suporta o dissenso e os discursos marginais, quer colocá-los no ostracismo de onde não deveriam ter saído. Os pequenos, ou as minorias por assim dizer, estão acordados há muito tempo. O MPL (Movimento do Passe Livre) há pelo menos oito anos, como dizem os militantes, tem organizado ações pela mobilidade urbana e direito à cidade. Como podemos esquecer atos tão recentes como os protestos “Fora Feliciano” que pipocaram por diversas capitais, cidades interioranas e mundo a fora? Sobretudo articulados por movimentos como o LGBT, o feminista e o Negro via redes sociais. E já diziam “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Como pode hoje, nesse desenrolar dos fatos, na organização de um ato contra o projeto de Lei da “Cura Gay”, alguém questionar e contestar tal pauta como uma demanda social, alegando que o momento é para causas de todos?  
            É o eco do conservadorismo tentando incutir nos movimentos sua hegemonia. Daí fala-se de tudo, da educação, da corrupção e até da família, tudo pelo exercício do poder. Não são as ações coletivas que estão em jogo, mas o desejo individual em publicizar um sujeito político inventado, conforme valores que a própria elite enaltece.
            Ser crítico, participativo e politizado é um valor compartilhado para esse sujeito moral que as elites concebem. O conhecimento e a política sempre estiveram associados às classes dirigentes, sendo assim, as elites brasileiras contemporâneas não se refutariam a consumi-los, ainda que de maneira forjada. Consome-se cultura, educação e entretenimento, tudo banalidades para esse destino sócio-individual.
            Assim, é como fala Marilena Chauí, num vídeo postado no youtube, a violência opera sob o preconceito de classe, raça, sexo, orientação sexual, mas só a criminalizamos quando dissociada da marginalidade. Os comentários conservadores sobre os atos de hoje mostram isso.
            O Projeto de Lei 122, que pretende a criminalização da homofobia é um bom exemplo desse reconhecimento arbitrário da violência, sofrendo forte resistência das elites políticas pressionadas pelas bancadas fundamentalistas. Mais do que contestar a violência sob o sujeito, ele provoca o patriarcado, a opressão da família burguesa e a religiosidade a favor do capital. Ele põe em cheque os privilégios dos homens de família, por isso é polêmico.
            Os movimentos de hoje diz um pouco disso tudo. Além de denotarem as queixas sociais e o caos que produzimos socialmente ao longo da história, revela o Eros cooptado numa conjuntura neoliberal, fazendo da ação coletiva um desejo narcísico. Não que em outros conflitos sociais isso não seja percebido, haja vista a formação das lideranças, entretanto, as elites brasileiras parece ter feito disso uma demasiada moção para vida e para prática cotidiana. Assim, a pulsão por estar nas ruas está além de uma causa, ela diz desse valor socialmente construído por um ideal de ego, é como Cantri (1941) nos pontua as motivações pessoais em eleger valores ao participar de ações coletivas. Por isso a dificuldade em se definir bandeiras num momento de tanta aderência. Da mesma forma que é consumida a educação para o vestibular e a cultura para sobreposição do erudito em detrimento ao popular, a militância é absorvida apenas para a performance, uma prática fantasiosa de caráter egóico.
            Num debate ocorrido há pouco na Universidade de São Paulo, gostei de uma idéia dita pela professora Sylvia Duarte Dantas (UNIFESP), de que estamos numa catarse social, como experiência – ou suposta sensação - de libertação da opressão. Tais movimentos são a explosão de diversas queixas, tanto dos oprimidos por um sistema excludente, quanto daqueles que se sentem apartados do outro, quando numa ação contraditória tentam alimentar sua imagem pessoal. Diz da incapacidade de boa parte das autoridades públicas em responder as pautas sociais, uma vez que presas às amarras de negociatas, distanciam-se da sociedade. Diz da dificuldade de todos nós em olhar para o outro. E é isso que precisamos recuperar, a proximidade com os nossos representantes e a atenção no outro. Sem isso, nessa falácia toda, só reafirmaremos o que Jurandir supõe ser nossa estratégia indiferente, destruir o que não temos coragem de transformar.
             
Como fazer isso? Ninguém tem a resposta. Ela será processada entre todos nós. Contudo, baseado no que tenho escutado, destaco tais táticas: 
1.    Mais atenção dos partidos políticos às pautas sociais. Essa resposta reacionária também revela sua incapacidade em responder demandas da população;
2. A participação da população em coletivos e partidos. - Participe, mesmo que julgue estes corrompidos, pois se um coletivo achar por bem mudar a conjuntura, haverá a transformação. E o sistema representativo é um modelo de gestão democrática;
3. A construção de uma cultura política. - Informe-se mais, conheça seus representantes, freqüente mais as casas legislativas ao seu alcance, da sua cidade;
4. Recuar nesse momento, como fez o MPL, para que não sejamos cooptados pelos discursos e forças hegemônicas;
5. Pensar em estratégias para essa potência de Eros em subverter o que está posto como opressivo, aproveitando-se dessa ruptura, mesmo que simbólica, de apatia social para construir o novo.


“Sem um esforço para conceber [o novo], (...) dificilmente poderemos produzir o encantamento necessário à paixão transformadora capaz de restituir à figura do próximo sua dignidade moral. O caminho é longo e penoso. Mas navegar é preciso, e sem uma bússola na mão e um sonho na cabeça nada temos, salvo a rotina do sexo, droga e credit card”. Jurandir Freire Costa 

Referência:
COSTA, Jurandir Freire. A Ética Democrática e seus Inimigos. O lado privado da violência pública. Em: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. Ética (seleção de textos). Rio de Janeiro/Brasília. Garamond/Codeplan, 1997. 


terça-feira, junho 18, 2013

Eros e civilização, Texto II | Ato V: Entre a extensão do falo e a microfísica do poder no ato contra o aumento das passagens

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ATO V. Largo da Batata, SP.
Foto: Folhapress

            Bem disse Roberto Machado na introdução de Microfísica do Poder de que na perspectiva foucaultiana não existem os que de um lado têm o poder e que do outro aqueles que são desprovidos dele. O poder se dá em todas as práticas e relações. Acrescenta adiante que “(...) qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede de poder”.
            Diferentemente da edição anterior, no quinto grande ato na cidade de São Paulo, não houve grandes confrontos entre sociedade civil, movimentos sociais e Estado. Por conta da repercussão negativa da ação truculenta da Polícia Militar e da tropa de choque na última quinta, já antes do último evento, foi anunciado que não haveria ação programada de contenção da manifestação, e que, portanto, as ruas, incluindo a Paulista, estariam livres para as reivindicações. 
          Enganam-se aqueles que julgam ser, assim, um ato livre. Nada mais óbvio que o Estado recue, não por ter se dado como posto à prova, mas por também ser perspicaz, tão como os movimentos. Diante do incontrolável, também resiste-se no controle do possível. Arnaldo Jabor reconsiderou, não é mesmo? Nada de conclusões maniqueístas, é assim, simples parte desse dispositivo de poder que Foucault nos fala.
           E nesse novo cenário pontuo algumas percepções, obviamente pouco deflagradoras da realidade, mas sem dúvida, parte dela. Penso numa contribuição nesse processo de retomada das ruas, do público, do coletivo. Também tenho me arrepiado com dimensão de tudo e espero que possamos dar novos passos. 
            Se pensarmos em alguns autores que tratam dos movimentos e conflitos sociais, como Hadley Cantril (1941), Pedro Cadarso (2001), Charles Tilly e Lesley Wood (2010), notamos que, em linhas gerais, todos tratam de pontos como estratégia, eficácia, campanha e motivações individuais. E certamente precisamos estar atentos a isso nas análises e inferências sobre os conflitos de hoje, sem obviamente, normatizar os movimentos.
            Se nessa noite não vimos a ação direta do Estado sobre nossos corpos, com as bombas e balas de borracha, fomos nós mesmos que nos vigiamos a todo momento. Concentramos-nos e caminhamos ordenadamente no Largo da Batata, na Faria Lima, na Paulista, na ponte estaiada, etc, com gritos e palavras de ordem em repúdio, dentre outras coisas, à participação de partidos políticos, à cobertura da grande mídia e, sobretudo, ao “vandalismo”.
            Ora, o que é esse "vandalismo" que temos concebido? Pintar e registrar uma indignação sobre uma matéria morta é o descumprimento de que ética e moral? Ao banalizarmos qualquer prática de afronta à norma como vandalismo me parece que alinhamo-nos a um discurso hegemônico de controle. Supondo que algumas práticas podem deslegitimar os movimentos por uma mídia deturpadora, agimos contidos e esquecemos que a força da comunicação pode crescer do mesmo lugar que os movimentos atuais nasceram, das redes sociais.
            Não parece tarefa fácil responder à tão complexa crítica, contudo, arrisco que precisamos crer na autolegislação da vontade livre. PASSE_AGE_AUTOLGISLA-SE LIVRE. Para Lunardi (2011) na perspectiva kantiana a ação moral do sujeito advém de sua autonomia em impor restrições morais a si mesmo. Liberdade em Kant fundamenta-se na autogestão da vontade livre. Todos nós somos munidos de vontades e desejos, de Eros, estes são livres. Em civilização, em respeito ao livre desejo e vontade do outro, esbarramos nos limites, assim demanda-se nossa autolegislação. Talvez o possível para ações coletivas seja pensar em concessões agressivas em respostas à opressão apenas cujas conseqüências também sejam coletivas e não arbitrárias.




Referências - sugestões de leitura:

CADARSO, Pedro Luis Lorenzo. Fundamentos teóricos del conflito social. Madrid: Editores, S.A., 2001. ISBN: 84-323-1072-7
CANTRIL, Hadley. Psicologia de los movimientos sociales. (1ª Ed. 1941). Madrid: Euramérica, S.A., 1969.
FOUCAULT, Michael. Microfísica do Poder. Organização e tradução: Roberto Machado – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
LUNARDI, Giovani Mendonça. A fundamentação moral dos direitos humanos. Rev. katálysis [online]. 2011, vol.14, n.2, pp. 201-209. ISSN 1414-4980
MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica dos pensamentos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.
TILLY, Charles e WOOD, Lesley J. Los Movimientos Sociales, 1768-2008. Desde sus orígenes a Facebook. 2ª Ed. Editora Crítica: Barcelona, 2010. 

sexta-feira, junho 14, 2013

Eros e civilização: Entre a extensão do falo e a microfísica do poder no ato contra o aumento das passagens

Fotos: Moacyr Lopes Junior e Marlene Bergamo / Folhapress
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            Não são apenas os lixos incinerados nas ruas, os ônibus quebrados, os muros pichados, os gritos coletivos, as balas de borracha e as bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo que farão parte dessa história que todos temos guardado e registrado desde as redes sociais e mídias ao nosso inconsciente social e individual. Há muito mais em processo no plano do simbólico e do subjetivo nessa ação coletiva ocorrida em São Paulo e outras cidades no último dia 13 de junho de 2013.
            Marcuse, um dos pensadores referência das revoltas de 1968, em sua interpretação de Freud, diz que vivemos na complexa e intrínseca relação entre pulsão de vida e morte, no choque entre Eros e Civilização. E para Freud a origem prímeva é o complexo de Édipo. O pai severo impõe os primeiros valores societais. Revoltados, munidos pelos instintos agressivos, o matamos, mas o amor nos gera o remorso para harmonizarmos as relações. Essa é a origem da culpa, que nos orienta a não vivermos no caos diante dos limites em sociedade. O pai projeta-se e transforma-se em instituições, nas religiões, nas relações, no Estado. Não há como amá-lo sem que antes desejemos sua morte.
            Não é que as pessoas nas ruas não queriam mais o Estado, os limites, as regras e as instituições. Talvez alguns até digam isso e chutem lixeiras, ateiem fogo em espaços públicos e quebrem vidros, mas isso diz além do ato em si. Eros é a libertação momentânea da ordem e do limite, é um gozo pontual que responde a constante normatização da vida. Tudo é parte de um processo. Constituímos-nos e constituímos nossas práticas dessa forma, entre ordem e desordem.
            Nesse sentido, objetivamente, pudemos ver como há amor em SP, mesmo quando a cidade anuncia toque de recolhida e vê-se sitiada num estado caótico. É a pulsão de vida, o amor e os sonhos que fazem com que as pessoas se mantenham nas ruas mesmo com tantas bombas ensurdecedoras alusivas à morte. É Eros em confronto com o medo, a indiferença e a apatia social.
            E nesse complexo desenrolar cotidiano, as instituições sociais mostram que estão aí e fazendo uso de suas forças. Eis que vemos a extensão do falo. O pai castrador sempre será uma constante em nossas vidas. O público é um campo em disputa e o Estado apresenta suas armas: helicópteros, tropa de choque, fuzis, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, carros, motos e caminhões equipados em que descem dezenas de homens, todos fardados, ordenados, fortes e bem treinados. Seguem em frota, performaticamente, contornando ruas, cruzando carros, atropelando pessoas, ostentando o poderil de quem se coloca como a ordem. Vãs tentativas de controlar o que não tem controle, pois a pulsão de vida preexiste à ordem, ao conflito e a morte.
            Assim, as ações policiais orquestradas por um governo que se vale de uma força arbitrária de ordenação das insatisfações conforme os interesses das elites só podem falhar. A opressão e violência trazem sentidos a todos aqueles presentes ou não nas ruas. Os sons, as imagens, os cheiros, tudo passa a compreender o olhar do sujeito para o outro. Daí, podemos vislumbrar a consciência política a partir do reconhecimento, significação e materialização dos antagonistas.
            Não podemos ser levianos e incoerentes ao pensar que as pessoas estão nas ruas apenas pelo aumento da tarifa do transporte público. Se nem mesmo os conflitos de fórum íntimo, individuais, dizem respeito a uma única queixa, como poderíamos supor que tantos sujeitos postos em marcha reivindicam a mesma coisa?
            Os movimentos sociais dizem de um projeto de futuro quando o presente não responde aos anseios e necessidades do coletivo ou da pessoa humana. Tais movimentos e suas práticas exemplificam a microfísica do poder que Foucault nos fala. O poder está em todos os sujeitos, relações e espaços. Da mesma forma que o Estado exerce sua força sobre os manifestantes, estes também abalam quem os oprime. O cenário desdobra-se em múltiplas cenas e dentre os diversos atores, todos parte de um mesmo enredo, cada um conta a história e age sobre ela de uma forma, não sendo possível responder a todas elas. Então, mesmo quem se pretende forte vê sua fragilidade no mundo.  E os movimentos, como o nome já sugere, não são estáticos e não se limitam às manifestações. O eco e a produção discursiva que se gera empoderam pessoas e transformam a realidade, mudam os sujeitos e toda conjuntura social. 

segunda-feira, maio 27, 2013

Fragmentos

(...) É que o aburguesado não suporta ver-se apartado das elites, seja qual for. Se eu acreditasse nos pecados capitais diria que vários deles são muito gulosos, não por nutrição e por esquecerem-se dos miseráveis que passam fome, mas por não estarem nunca satisfeitos, serem exagerados, demasiadamente demagogos. Querem sempre mais, consumo cultural, intelectual, tudo banal.

***

É sintoma físico. Ultrapassa a alma, penetra a carne, coopta o Eros e transpassa a pele. É chagas ao deitar, pânico ao levantar. Invade, ocupa e hospeda-se sem que peça, atravessa e dispersa. É nó que sufoca, provoca e tira apetite, difícil de desatar. Prende-nos e liberta-nos em ideias, planos e sonhos. É grito sublimado em suspiro, pulsão de vida e morte. Um querer avassalador e finito. É simples apaixonar-se. Um contato íntimo, mesmo que subjetivo, entre o Eu e o Outro.

***


Livre pensar e agir para nossa pequena, quase que insignificante, prática no mundo. Quiçá alçar pelo menos o reconhecimento e conquistar alguns dos frutos daquilo que pretendemos de concreto, pois os sonhos e a ideologia nos saem caros de mais quando um rio já poluído nos trava, mesmo quando almejamos o mesmo destino. Bem dizia Kant, que a liberdade não está dada, ela se constitui em processo. Livre pensar e agir nesse mundo do reconhecimento, atravessado por tantas ideologias que nos travam e nos deixam sem destino.

***

Não toca mais os poros, os pelos, o peito. Toca na rádio, no som, na alma. Soa sino, sua pele, soa a sua melodia, sem que interpele e fale. Escuta-se e sente-se.  

terça-feira, maio 21, 2013

Americana no "Proteste Já"


            Ainda que eu não acredite na mídia como modelo de participação política, por ora é um dos poucos meios que tem gerado respostas rápidas aos descasos e desmandes de autoridades públicas. Diante da politicagem contemporânea, em que os votos dizem mais que qualquer ética e compromisso social, não importa a realidade, mas o que se vê e percebe-se dela, mesmo que superficialmente. Mais uma vez, a cidade do espetáculo, da performance, como definiriam alguns autores, move-se apenas por aquilo que se tem visibilidade. Contudo, aprendamos a lidar com o que temos para o agora, objetivamente. Mesmo que carreguemos o peso de uma possível alienação, o pragmatismo nos põe em ação e os movimentos precisam disso. Mais uma vez um escândalo envolvendo a gestão de Americana. E não são poucos os fatos que descredibilizam e deslegitimam a atual gestão. Só para refrescarmos a memória:
            Denúncias de irregularidades nas obras atreladas ao PAC - Programa de Aceleração do Crescimento na Avenida Brasil. Executivo, num retrocesso pela transparência democrática, propõe revogação da lei mentor - a qual obriga a prestação de contas com gastos de publicidade e câmara aprova em bloco pela base aliada. Fantástico mostra a investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) de Sorocaba, a qual aponta suspeita de propina com envolvimento do prefeito e secretário da saúde em parceria com a instituição SAS. Ministério Público eleitoral acusa prefeito Diego De Nadai e seu vice de terem praticado caixa 2 na campanha por conta de um montante de R$ 350 mil que não possui comprovação. Ministério Público Federal recebe uma denúncia de fraude no SUS, em que a direção do hospital municipal está "coagindo" médicos a registrar internação mesmo quando os pacientes são atendidos e liberados – para receber repasses do governo federal. Corrupção associada ao projeto 2º tempo, ligados a Federação Paulista de Xadrez (envolvendo R$ 3,4 milhões) – Investigação do MPF de Piracicaba. Nepotismo – Diego De Nadai nomeia irmã como secretária da promoção social e Paulo Chocolate contrata a própria namorada para assessorar a presidência. Diego De Nadai concede por meio de decreto uma área de 120 m² à Frente Regional de Defesa da Cidadania e dos Direitos Sociais cujo líder é seu assessor, Capivara. Esposa do ex-assessor da Prefeitura de Americana, Marco Antonio de Paula (Capivara), ocupa seu cargo após exoneração e recebe mais de R$ 50 mil como funcionária fantasma. Gestão de Diego De Nadai (PSDB) é investigada pela Polícia Civil sob a acusação de fraude na licitação que resultou na terceirização de parte da merenda escolar.
            A de hoje: a cidade aparece no quadro “Proteste já” do CQC por uma obra prometida há dois anos, sem qualquer avanço. Sejamos francos, será que o prefeito de Americana não teria como sanar esse engodo junto ao seu “padrinho” governador tucano? Ele não responde e deixa a tarefa ao seu assessor, que cá pra nós, não responde nada objetivamente. 
- Respostas por avaliação e diagnósticos não dizem nada, nos tragam o parecer e soluções, por favor! 
                Os representantes estão para isso. Curioso pensar que as obras da Avenida Brasil mesmo embargadas tiveram seqüência. Ah, como disse uma entrevistada, foi a eleição! Uma avenida central da cidade tem visibilidade, representa votos, portanto, deve estar bem iluminada! Aliás, com luminárias robustas a cada metro. Uma estrada às margens da cidade quem vê? Dessa vez, por sorte ou azar, dependendo a perspectiva, foi a mídia. E segue o link para vermos a matéria: 


domingo, maio 05, 2013

Beija-flor


Noites curtas e dizeres longos de uma escuta atenta
Diria do teu cheiro e mais um pouco daquilo e disto desta casa
Esquenta quando senta, assenta e acalenta
Ascende aquilo que nos põe em brasa
Roça rosto, roça corpo, roça, fala-me e inventa
O que de nós extravasa e vasa

Fuja, corra e saia daquilo que persegue
Ombros, queixos e cochilo
Raia o sol, deite e deleite-se antes que o amanhã chegue
Ria e sorria ao pensar nisto e naquilo
Eu, tantas coisas e este texto entregue
Abafado, contido, de quase tudo entre nós em sigilo

quinta-feira, maio 02, 2013

Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia


        

         Anteontem ensaiávamos a valsa de debutantes e logo amanhã já completaremos a maioridade. Hoje, aos 17 anos, novamente vamos às ruas para mostrar que ainda temos fôlego para dizer do que nos cala e nos põem a dizer cotidianamente. 
            O Uruguai aprova o casamento homoafetivo, a França torna-se o 14º país a reconhecer igualdade plena entre casais heterossexuais e homossexuais, São Paulo oficializa o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e autoridades de Uganda discutem um projeto de lei sobre a união homossexual. Marco Feliciano, deputado acusado de racismo e homofobia, é pauta nacional e alvo de protestos em várias partes do mundo por ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Daniela Mercury assume seu relacionamento com outra mulher. Empresas nacionais associam suas marcas à igualdade mostrando-se a favor do casamento igualitário. Um movimento pelas redes sociais surpreende positivamente: grupos de grandes times de futebol dizem não a intolerância. 
            Se por um lado notamos as mudanças, por outro, observamos as respostas reacionárias às transformações. A frente conservadora, liderada por fundamentalistas religiosos, ascende nas casas legislativas Brasil a fora. Parlamentares encaminham projetos de leis contrariando-se a laicidade do Estado. Internautas, sem qualquer compromisso ético, compartilham depoimentos preconceituosos, sexistas, machistas, homofóbicos e fascistas. Apesar de uma pesquisa do instituto Ifop apontar que 63% dos franceses apóiam o casamento homossexual, centenas de pessoas foram às ruas em protesto contra uma lei que garanta tal direito. Autoridades de Uganda, mesmo com a pressão internacional e de seus próprios cidadãos pelos direitos de homossexuais, realizam discussões de portas fechadas. No IV ato contra Feliciano, na capital paulista, um jovem sozinho atira uma garrafa de coca-cola cheia contra centenas manifestantes que estavam nas ruas. 
            O que leva tantas pessoas saírem de suas casas contra uma lei que garanta o direito a outrem? O que lhes interessa e afeta? De que coragem se vale um sujeito que, individualmente, agride um coletivo? Como se confere o ímpeto em julgar-se mais assertivo, justo e correto que todos os demais? Por que, ainda hoje, discutem-se pautas de interesse comum à surdina? Será que o intervencionismo religioso atroz não está preso a um período histórico, como a Idade Média?
            Se prestarmos atenção no cotidiano, o ataque e violência sobre sujeitos acontecem quando estes já estão desqualificados socialmente. Foi assim que se estabeleceu e tem se mantido a violência nas penitenciárias, a subalternidade dos negros, a agressão doméstica de mulheres, a exclusão dos imigrantes e a violação de direitos de homossexuais, sobretudo colocando-os nas selas, nos campos de concentração, nas cozinhas, nas senzalas e nos guetos, no lugar do não-dito, do invisível, para que sem história e memória não fossem e nem sejam dignos de respeito e direitos. Falamos de sujeitos e minorias que, historicamente e moralmente, são inferiorizados, silenciados e desprestigiados socialmente. Repetimos tais retóricas, pois ainda que consideremos os avanços, não superamos as desigualdades históricas.
            Não podemos negar a existência do abuso de poder e da punição arbitrária daqueles que já são marginalizados pela pobreza. Não é possível que desconsideremos o alto índice de agressão que mulheres são acometidas em suas casas por seus próprios cônjuges. Não é sensato que continuemos a banalizar a dor daqueles que, próximos ou distantes, sofrem por serem refugiados e imigrantes. Não dá mais para fecharmos os olhos diante das falas racistas ao discutirmos cotas raciais. Não podemos apagar os números da violência homofóbica no Brasil. 
            Tudo isso compreende um discurso e história oficial compartilhados hegemonicamente e não podemos estar apáticos ao que nos oprime. As realidades e verdades são múltiplas, próprias de cada um, mas o registro e memória têm sido daqueles que têm o direito em defender a sua voz.        
            Aquele rapaz que, sozinho, agrediu um coletivo, trazia consigo todos esses discursos e histórico de opressão que invisibilizam sujeitos. A ponto de entender-se superior e forte o bastante para atacar. Ele não agiu sozinho e não foram apenas os franceses que o encorajaram e legitimaram, mas Feliciano, Bolsonaro, Silas Malafaia, etc. 
            Contudo, há de se pontuar também as glórias. Marcos Feliciano nos uniu! Mulheres e homens; negros e brancos; heterossexuais e homossexuais; brasileiros e estrangeiros; militantes, partidários e apartidários se somaram nas ruas de capitais, das cidades interioranas, e até fora do país, para dizer que “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Por isso, não se trata apenas de sua permanência, mas de históricos de militância pelos Direitos Humanos e pela promoção de minorias.
            Assim, reforçamos o Direito à Igualdade e o Direito de não sofrer privação arbitrária da liberdade. Marchamos para reivindicar que o Estado brasileiro cumpra com os princípios de Yogyakarta, conforme documento publicado, em 2006, pela ONU – Organização das Nações Unidas.   Pois, não admitimos mais o gueto e a subalternidade. Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia.


Fábio Ortolano. Assistente de comunicação da APOGLBT e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP. Pesquisa as concepções de Sexualidade e Direitos Humanos de participantes das Paradas LGBT de São Paulo e Campinas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.


Luiz Carlos Gracia

Dedico o presente poema ao titular desse acróstico

Lindo, adjetivo simples e completo,
Único quando, entre muitos, simplesmente é.
Impar talvez seja como te digo do
Zelo, desvelo teu em notar que estava ali por ti.

Cativante sabes que és.
Adorável menino, só por não parar de sonhar contigo,
Resta-me a dúvida do mínimo ser tudo o que me parece muito.
Louco, varrido, imaturo talvez eu seja por falar-te tais coisas.
O desejo é assim, se deseja e ponto.
Sinceramente, quero que teu sincero olhar saiba desse querer de pronto.

Gato garoto, de beleza marcante,
Ator principal e coadjuvante.
Raro rapaz rouba-me a cena com sua presença,
Contraceno contigo cada papel que me pertença.
Insisto porque não desisto e assim vejo a peça,
Ainda que não sejas o que espero, persisto que algum papel me peça.

***

*Título da postagem emprestado de Regina Brett


domingo, fevereiro 03, 2013

Entrevista de Silas Malafaia em "De frente com Gabi"




Dentre tantas falas irresponsáveis, revoltantes, incoerentes, rasas e levianas, gostaria de responder algumas, uma vez que o pastor clama por verdades que ele próprio alega serem de Deus.
Antes de qualquer coisa vamos à conjuntura e uma reflexão rápida para posicionarmos as respostas. Vivemos num país que desde a colonização fora catequizado pelo cristianismo. O cenário das correntes religiosas vem mudando, como aponta o IBGE, contudo, compomos uma nação esmagadoramente cristã, em que a bíblia mais que documento sagrado, representa para muitos a verdade absoluta sobre a história, sobre a vida, sobre o mundo, sobre nós mesmos.
Paralelamente a isso somos um país que cronicamente se esquiva em dar valor à educação e aos demais Direitos Humanos. Mais que dados acadêmicos, a realidade cotidiana nos mostra: assistimos ao sucateamento dos serviços básicos de atendimento à população. Inseridos num sistema capitalista em que o mercado dita sobre as ações do Estado, não tem mais importância se o serviço público não funciona. Os planos de saúde estão aí e as escolas particulares são ótimas opções para o vestibular. Pouco importa se tudo isso é vazio.
Não digo que a religiosidade associa-se à falta de educação, muito menos à ignorância. Contudo, ela oferece e representa uma possibilidade de leitura do mundo e de todas as coisas. Se não temos acesso à informação, outras culturas e outras perspectivas, como podemos deixar de reforçar o que está posto hegemonicamente?
Infelizmente, diante disso, os dogmas e os princípios das diversas religiões são instituídos como verdades para todos. É complexo, pois muitos que nelas acreditam, transformam e significam vários de seus sentimentos a partir delas, como a esperança, o otimismo, a fé, e acabam fazendo delas a única forma de compreender a realidade.
Não se trata de discordar de uma passagem bíblica, da defesa de um principio, de um pastor que defende o que acredita. É mais que isso! Responder às falas rasas de Silas malafaia é contestar a sobreposição e sobrevalorização de ideais e crenças, é protestar contra a opressão religiosa e o oportunismo frente à fé ingênua de tantos fiéis, é um grito contra a prepotência de pessoas que se julgam detentoras do saber sobre todas as coisas. Vamos ao ponto.
Primeiramente, Malafaia é incoerente, uma vez que defende uma perspectiva criacionista e para explicar a sexualidade busca sustentar seu discurso na biologia.
A biologia, por exemplo, tem se dedicado a buscar anomalias endocrinológicas, neurológicas e genéticas, entretanto, nenhuma pesquisa até hoje conseguiu comprovar e explicar a homossexualidade de maneira a se esgotarem os questionamentos. Até porque nem mesmo a biologia é objetiva como a matemática e a física. Se pensarmos na sexualidade humana, ela é totalmente atravessada pelo social, vejamos como concebemos a puberdade em diferentes épocas.
Quanto à psicologia, e aqui abro um parêntese para compartilhar um incomodo que julgo ser próprio de muitos psicólogos e estudiosos da psicologia ao ver o dito pastor se pronunciar em nome de tal campo do conhecimento, são tantas perspectivas dentro da própria psicologia, que não há como falar em consenso. Freud, precursor da psicanálise, em seus ensaios sobre a sexualidade, fala da pulsão e dos objetos sexuais. Trata da homossexualidade como inversão e não está de acordo com uma postura curativa. Acrescenta ainda que a leitura sobre a inversão advém do que o contexto permite. Já outra hipótese, dentro da linha comportamental, defende que a homossexualidade associa-se às experiências primevas, positivas e negativas, reforçadas em atos masturbatórios.
A medicina por muitos anos fez uso de manuais que conceituavam desvios sexuais, caracterizando perversões morais em patologias. Contudo, avançados os estudos, a medicina não considera mais homossexualidade como uma doença mental.
Thomas Laqueur, em Inventando o Sexo - Corpo e gênero dos gregos à Freud, relata como o sexo, sexualidade e gênero foi sendo concebido desde a era clássica até o modernismo científico. Por milhares de anos, por exemplo, acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, invertida, para dentro. Logo a compreensão desses três elementos (sexo, sexualidade e gênero) associava-se a um único modelo. Por volta de 1800 escritores começaram a atribuir as diferenças fundamentais entre homens e mulheres e aos finais do século XVIII o antigo modelo metafísico de compreensão do homem e mulher deu lugar a um modelo de dimorfismo radical, de divergência biológica. A visão dominante desde este século era, portanto, de que havia dois sexos, fato que determinava a vida política, econômica e social, bem como os papéis de gênero. Logo, estabelecem-se dois modelos para a leitura dos três elementos acima citados.
Notemos que a própria ciência muda conforme se avançam os estudos. Não há verdades que se estabelecem em qualquer época e lugar. Desde os primeiros estudos sobre a sexualidade até as pesquisas pós-modernas sobre o tema muito se criticou, analisou e refletiu. E diante disso tudo não há como crer que um único livro possa dar respostas a todos os anseios e dúvidas. 
Além disso, a bíblia não pode ser a única referência para todas as coisas. Afinal, será que poderíamos explicar o mundo somente através de palavras? Será que o que significamos é igual para o outro?  Independentemente das respostas, cabe atentar também às interpretações, que sob qualquer fonte podem ser enviesadas e deturpadas.
Vivemos hoje uma realidade triste para a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) no Brasil e no mundo. Suicídios de jovens, punição  em algumas nações, assassinatos, etc. Aqui destacamos o alto índice de violência direcionada à outrem motivada pela homofobia.  
Segundo o Grupo Gay da Bahia o número de assassinatos de homossexuais aumentou 27% no Brasil neste ano que passou. De acordo com o levantamento foram 338 assassinatos motivados por homofobia em 2012. Isso quer dizer que quase todos os dias um homossexual é morto em nosso país devido à intolerância e o ódio.  Cabe mencionar ainda que muitos casos nem são registrados. Além disso, há os casos de suicídio, estes nem expressos em números.
Outro levantamento é o da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR), que em julho do ano passado mostrou alguns números referentes à homofobia em 2011, ainda que consideremos a subnotificação: foram denunciadas 6.809 violações de direitos humanos contra LGBTs, envolvendo 1.713 vítimas e 2.275 suspeitos. Os estados com maior incidência foram São Paulo (1.110), Minas Gerais (563), Rio de Janeiro (518), Ceará (476) e Bahia (468). 67,5% das vítimas se identificaram como sendo do sexo masculino; 26,4% do sexo feminino; e 6,1% não informaram sexo. 47,1% tinham entre 15 e 29 anos. Com relação aos principais tipos de violação, 42,5% dos casos registrados foram de violência psicológica; 22,5% de discriminação; e 15,9% violência física. Quanto quem pratica a violência, em 61,9% dos casos o agressor é próximo da vítima, em 38,2% são familiares, sendo que em 42% dos casos a violência se deu dentro de casa; 5,5% das violações foram registradas em instituições governamentais – sendo 3,9% em escolas e universidades, 0,9% em hospitais do SUS, e 0,7% em presídios, delegacias e cadeias.
E são inúmeras as fontes a serem consultadas. Relatórios, artigos acadêmicos, etc. É só pesquisar. São Paulo, por exemplo, já possui até um mapa da homofobia, mostrando os bairros mais perigosos e com maiores índices de denúncias de violência homofóbica.  Ou seja, os dados, os números e as múltiplas referencias sobre a homofobia no Brasil já conferem o quanto ela é real em nosso cotidiano, resta saber sua origem.
Queremos saber se esta homofobia é construída a partir de um argumento e razão fundamentalista. Se é o preconceito travestido de crença que justifica a violência. 

Fábio Ortolano

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=3wx3fdnOEos#!

terça-feira, janeiro 01, 2013

Composição da mesa diretora da Câmara municipal de Americana - SP


Mais um passo ao retrocesso histórico para o município de Americana. Mais uma vez as cartas marcadas foram postas na mesa. E o que jogamos? É uma brincadeira? Temos 137 anos e ainda brincamos? Quais são as regras que nos orientam?
Ao que parece, estamos no jogo da democracia. Contudo, faltam peças, o tabuleiro já tem marcas, o dado está viciado, os jogadores usam as mesmas táticas. Será que ainda somos crianças preguiçosas que nem lemos as instruções?
Paulo Chocolate foi eleito presidente da Câmara e Valdecir Duzzi seu vice. Leonora do Postinho compõe a mesa diretora. Era tudo previsível, não é? Aliados e oposição de governo, como sempre previsíveis. Números exatos de votação, tudo certo, objetivo, afinal, todos os representantes, das inúmeras frentes ideológicas e partidárias que compõem o cenário político americanense pensam semelhante. Eu entendi certo?
Para uma cidade que poderia se orgulhar dos índices de desenvolvimento humano que conquistou na sua história, mergulhar num cenário de marasmo político, de cartas postas e previsíveis, é vislumbrar um futuro pouco promissor.
Daí, engana-se aquele que confere e associa à contemporaneidade o bom IDH que o município apresenta. Seríamos levianos, ingênuos e, em certos casos, até oportunistas em afirmarmos isso. A educação, a saúde e a longevidade de uma sociedade, por exemplo, que nos apontam a qualidade de vida de um lugar e de um povo, são produções sociais que se moldam em ações e contextos históricos que compreendem épocas, gerações, e não apenas anos e momentos pontuais.
Numa leitura simples da nossa realidade sócio-histórica nos vejo como presas de um capitalismo selvagem. A sociedade da tradição, família e propriedade se isenta propositalmente de uma racionalidade crítica. Nossa indiferença e pouco caso com a política local muito têm a dizer sobre os valores e a ética que concebemos no cotidiano. Adiante teremos os reflexos de tudo que temos produzido hoje. 

terça-feira, novembro 06, 2012

Mudança social


                     Curioso tentarmos encontrar respostas e caminhos para uma mudança social.  Se nem mesmo o homem, sujeito repleto de subjetividades, poderia dar conta de certezas que o leve a destinos vislumbrados num projeto de futuro, como poderíamos pensar em transformações para um conjunto deles? Mulheres e homens compõem inúmeras realidades compartilhadas em sociedade e cada qual possivelmente as enxerga de uma maneira, pois o sujeito é histórico, cultural e social, fruto de uma produção discursiva que constrói socialmente, contudo é também reflexo de suas escolhas e ações particulares frente a esse social. Não há como qualquer individuo ser igual ao outro. Assim, supomos encontrar a resposta, pois é através do outro que nos entendemos e significamos. A mudança não é possível quando pensamos e a objetivamos em alguém sozinho, é sempre na relação com outrem que podemos mudar.
                        Por que às vezes temos a idéia de que vivemos no caos? O aumento da violência urbana, o abandono da educação, o esquecimento da cidadania, o distanciamento entre pais e filhos, entre pares e amigos, a apatia com o sofrimento alheio, a banalização do mal, a desestruturação das auto-estimas, a perda de caráter, o relativismo da gentileza, a performática da vida, a procura por corpos ideais, etc. Tudo isso parece alinhar-se uma lógica de busca por uma juventude que nos valha de anestésico para a morte, quando, talvez, não acreditemos mais na vida. É como Jurandir Freire Costa fala ao tratar da indiferença, em que nos esquivamos de olhar para o outro, certamente acabamos por destruir aquilo que não temos coragem de transformar.  
            Loïc Wacquant diz que o distanciamento cada vez maior entre os sujeitos ricos e pobres, bem como o crescente autocercamento das elites políticas, o afastamento das instituições dominantes da sociedade, tudo isso alimenta a hostilidade e a desconfiança, legitimando a ordem social, a autoridade e a repressão: a polícia.  E o controle é a peça-chave para entendermos a estabilidade e manutenção das coisas. Opressão, poder e competitividade estão em jogo numa sociedade que não se questiona e não se enxerga. A mudança nesse contexto parece limitada.
            Para Jurandir a nova sociedade global se tornou personagem de um mundo fantasma, vivemos num lugar que é internacional e, ao mesmo tempo, fictício. E sem as raízes e pertencimento, perdemos o sentido da história e do bem comum. No Brasil e em muitas partes do globo, as classes dirigentes ignoram os desfavorecidos, eis a primeira indiferença, que por sua vez pouco se importam com a vida das elites, segunda indiferença. Em meio a isso, a burguesia é acometida pela ansiedade, insegurança e sentimento de fracasso. Eleva-se o consumo de antidepressivos, as consultas terapêuticas, os shopping centers, a busca por respostas exotéricas, os gastos com produtos e serviços que prometem a felicidade, essa é a terceira indiferença, das elites para com elas mesmas.  É a incapacidade do olhar para outra coisa que não seja a si mesmo. O outro se perdeu nessa lógica da indiferença e quando não temos o outro não significamos a nós mesmos. Logo, não podemos mudar o que foge a nossa visão.
            Wacquant acredita que houve uma modernização da miséria, um novo regime de desigualdade e marginalidade urbana que trilha novos rumos e toma outras formas. Qualquer que fosse o rótulo utilizado para designar os marginalizados, ao que nos parece, estes não estão mais isolados num território, etnia, raça, sexualidade. A marginalidade apresenta outros sinais somado aos antigos, está em toda a cidade, em todos os grupos e tribos. Frei Betto coloca que hoje, pior do que antigamente, na sociedade em que vigora o individualismo, não mais falamos em marginalizados, e sim em excluídos. Não há mais a esperança de retorno, os sujeitos nem contornam o esperado, o modelo, estão postos para fora, no lugar da ausência. São invisibilizados na realidade.
                        Diante disso outras questões nos aparecem. O que está implícito nessas ações humanas? Como constituímos nosso projeto de futuro para vivermos em civilização? Quais são as possibilidades de ruptura nesse contexto? Será que é preciso mudar? Estamos satisfeitos com o que temos construídos como humanidade? Se a racionalidade é parte do que concebemos sobre nós mesmos, tais questionamentos já se legitimam como uma pulsão do nosso existir. Esbocemos possíveis respostas para tanto.
                        Diversos pensadores e intelectuais defendem que somos dominados e agimos pelos desejos. Nossa mecânica configura-se através das pulsões por aquilo que almejamos. E se somos seres sociais, certamente nossos desejos serão construções do social, produtos das diversas histórias, culturas e ideologias. Assim, vivemos num processo em que buscamos objetivar tais anseios. As relações entre indivíduo e o outro/cultura/mundo se dão nessa interação complexa em que todos se constituem mutuamente. Jose Leon Crochik, numa perspectiva da psicanálise, mostra como a constituição da personalidade dos sujeitos em relação com a cultura produz preconceitos e estereótipos, ou seja, significações do mundo. É como se uma economia reflexiva legitimasse a idéia que temos das coisas como verdades que atendam nossas expectativas. Jurandir Freire Costa fala de nossa devoção pelas palavras, as quais supomos serem verdades daquilo que pretendem designar. Ainda que os seres humanos se orientem pelo outro, pela cultura que o atravessa, sua pulsão de vida e morte advém de si. Para Crochik o preconceito é uma reação à mudança individual e social, é a eliminação do desconhecido e afirmação do conhecido. Voltemos à impressão de vivermos no caos, o homem que busca a estabilidade e a segurança, quando confrontado com as incertezas, certamente recorrerá ao que está cristalizado, posto de certa forma como verdade. É o que lhe confortará. Como, por exemplo, quando diante de uma explosão e visibilidade de múltiplas manifestações de sexualidades, e da relativização de temas como gênero e orientação sexual, muitos setores da sociedade firmam-se no fundamentalismo religioso. Nossas práticas decorrem sempre desse movimento entre o eu e o outro, numa busca de construção de si.
                        Assim, é nesse interstício sujeito/mundo que vislumbramos a possibilidade de ruptura. Precisamos considerar essa economia reflexiva e tentarmos transpô-la com idéias e propostas de vida novas. A academia sozinha certamente não daria conta de responder tais expectativas, contudo, como todos os múltiplos micro-espaços de atuação do sujeito, ela é capaz de propor ensaios para colocarmos em cena. A desconstrução proposta pela teoria queer advém dessa perspectiva. Não se trata de um relativismo raso, mas de um constante questionamento sobre a significação, classificação, categorização, disciplinarização das coisas.
                        Já nos está claro que não há como mudar alguém sem que seu entorno se transforme, contudo, também não é possível alterar uma conjuntura sem que mudemos cada um de nós. A resposta que nos parece óbvia, confunde-se com sua inexistência.  A meu ver, mudar é preciso, independente da nossa satisfação enquanto humanidade, pois esta associa-se a uma percepção que é subjetiva. Mudar é necessário, pois segue a lógica de perseguirmos algo, de sonharmos, de querermos a vida e não a morte. Mudar nos parece tão distante porque, paradoxalmente, a mudança se inscreve no presente e no cotidiano, que de tão próximos, não encontramos lugar para essa transformação que projetamos no futuro. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Amor

Talvez por sabermos e reconhecermos a importância do outro, por um sentimento egoico, por medo de nos vermos sozinhos, por alegrias e angústias vividas, por não termos o vazio ou nos vermos esvaziados, por ter a quem direcionar o carinho que nos falta. Talvez compliquemos o que queremos que não seja simples a ponto de nos parecer imperceptível. Seja o que for, que seja pra ser, quando ser é mais que ter, e apenas ser: amor. 




domingo, junho 24, 2012

"Pau Mole" (Maria Rezende)


Adoro pau mole.
Assim mesmo. 
Não bebo mate, 
não gosto de água de coco, 
não ando de bicicleta, 
não vi ET 
e a-d-o-r-o pau mole.
Adoro pau mole, 
pelo que ele expõe de vulnerável 
e pelo que encerra de possibilidade.
Adoro pau mole, 
porque tocar um pressupõe a existência de uma liberdade 
e uma intimidade que eu prezo e quero, sempre.
Porque ele é ícone do pós-sexo 
(que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.
Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.
É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come. 

sábado, junho 23, 2012

Que a prece seja verdadeira, pois o desejo é leviano.

Os passos diários nos marcam por apontarem o destino. Destino este que insistimos em olhar com receio, inseridos nessa cultura que nos constrói ariscos a ele. O caminho não é a única razão que nos põe em movimento, é talvez apenas a novela que escolhemos encenar. E esta não é a única que possivelmente assistiremos enquanto espectadores protagonistas.  O exercício constante de encarar a cena com o riso sustenta-se em saber que teremos o direito de chorar, de viver o drama, pois a comédia e o romance não nos bastam enquanto atores em aprimoramento.
 Assim, talvez não seja a materialidade das coisas que nos alimenta, mas a imaterialidade da vida que nos sustenta.  Essa contraditória força que nos domina cotidianamente - entre o que nos parece objetivo e subjetivo - é parte do que somos e da forma que existimos. Não é a necessidade de viver que nos move, mas o medo de olhar para a certeza que temos. Aproximar-se do epílogo envolve-nos aos clímaces da nossa trama.

Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir”. (Los Hermanos, Sentimental)

quinta-feira, junho 07, 2012

16ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo


                  Acontece no próximo domingo (10/06) a 16ª edição da Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de São Paulo. Um dentre tantos eventos, de diferentes tipos - que acontecem diariamente não só na capital paulistana, mas em diversas cidades dos estados brasileiros e pelo mundo a fora.
Alessandro Soares da Silva (2008) fala de movimentos e não movimento LGBT. Seja na perspectiva acadêmica, da militância, da visibilidade e até da festa os movimentos sociais não são, como muitos significam, algo institucionalizado, normatizado, estático. Seu nome já revela seu caráter de transitoriedade, de ação em processo.
Pensar em movimentos sociais requer uma atenção para além das estruturas sociais, dos contextos partes de um sistema. É preciso que se relacionem os significados e sentidos de todos aqueles que constroem o movimento, ou seja, tanto dos que participam nas ruas, escolas, universidades, ONGs, quanto daqueles que falam a respeito. Os discursos também são formas de significar o homem e o mundo.
Na última quarta-feira, no lançamento do livro “(In)Visibilidade Vigilante:  representações midiáticas da maior parada gay do planeta”, o autor Steven Fred Butterman (2012), professor da Universidade de Miami,  é questionado por um jornalista sobre a contradição do país que é cenário da maior parada do mundo ser também a nação que sustenta o maior índice de assassinatos de LGBTs na América. E cabe ressaltar que só são contabilizados aqueles que a morte foi registrada como conseqüência da intolerância homofóbica.
Ao responder, Steven fala da sua percepção sobre a parada de São Paulo como um espaço democrático, em que há todos os tipos de “tribos”, como a dos Skinheads simpatizantes a causa LGBT, uma das possibilidades explicativas da dimensão do evento paulistano. Acrescento a perspectiva da Consciência Política de Salvador Sandoval (2001), descrita a partir do sentimento de injustiça, da identidade coletiva, das expectativas societais, bem como dos interesses simbólicos e materiais.
Tudo isso faz do sujeito político, consciente ou não de sua ação, alguém parte de um movimento. E não apenas o protesto em repúdio à violência motivará os sujeitos, mas também a vontade de viver, de expressar a sexualidade – seja numa festa, num levante de cartazes, num grito ao megafone ou num ato suicida.
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Friedrich Nietzsche