sexta-feira, julho 15, 2011

A legitimidade posta à prova

            Caros conterrâneos, como se constitui a legitimidade de nossos vereadores em legislar por nós? O que confere a eles o direito de definir e aprovar pautas na casa das leis? Seria somente o voto nossa autorização e consentimento às decisões de nossos representantes? A maioria de nós votaria pelo cancelamento da lei “Mentor”?
            Para mim, não. Conceitualmente legítimo é estar de acordo com a verdade, com a justiça e a lei. É coerência e racionalidade sobre alguma coisa. No senso comum, legitimidade é fazer jus as atribuições e responsabilidades que cabe a determinado papel, assim, as ações dos atores devem estar baseadas nas premissas que os caracterizam como determinados personagens. Logo, cada vereador deveria dar voz a quem ele representa, não silenciar o cidadão e impô-lo seus discursos.
            Conscientes de que não teríamos direito a fala, algo irônico num sistema representativo e democrático, mesmo considerando as formalidades e regas de organização das instituições, eu e meu irmão fomos até a Câmara Municipal de Americana na sessão extraordinária de ontem e entregamos uma carta aos vereadores nos posicionando a favor da lei 2.641, conhecida como a “Lei Mentor” - a qual obriga nossos gestores a prestar conta dos gastos com publicidade. A demanda por revogá-la veio do poder executivo em regime de urgência, curiosamente após ter sido publicado os 14 milhões a serem gastos em dois anos de mandato do prefeito Diego De Nadai. Número bem acima dos dois milhões que a prefeitura tanto se gaba em ter conquistado do governo do estado para o Hospital Municipal.
            Estávamos munidos de um abaixo-assinado de alguns moradores do Jardim São Paulo e com cartazes. Não éramos os únicos, haviam membros da associação “Amigos do bairro Jardim da Paz”, moradores de outros bairros, partidários, etc. Manifestamos nosso repúdio a ações como a revogação da lei que obriga nossos representantes prestar contas. E pasmem! Não foi suficiente a manifestação dos cidadãos ali presentes. Devo deixar registrado que não havia nenhuma manifestação popular em defesa da revogação, ao contrário, as manifestações ali ocorridas eram pela lei que determina aos nossos gestores a transparência em suas ações.
            Sendo assim, não justifica sob qualquer argumento o cancelamento de uma lei que obrigue um prefeito a prestar contas de seus gastos, ainda que a lei esteja defasada. Se os cidadãos manifestam-se por qualquer bandeira, por quais motivos os legisladores não devem acatar? O que e quem os confere legitimidade?

Veja os vereadores que votaram pelo cancelamento da lei. (Clique na imagem para ampliá-la)


segunda-feira, julho 11, 2011

Porca miséria!

Mais uma vez o disparate dos políticos de Americana- SP apresenta dimensões inaceitáveis. Como se não bastasse os altos salários, o dispêndio de recursos com construções de fechada sem qualquer mudança estrutural e novos projetos, o inchaço da maquina pública com comissionados beneficiados pelo patronato, empréstimos para obras higienistas, entrega descarada de recursos públicos às empresas privadas em anistia de dívida, alguns representantes da casa das leis mostram-se pouco atentos às contas de seus gabinetes. O que mais chama atenção é o montante do vereador Paulo Chocolate, o qual gastou R$ 4.071,47 só com telefone, em cinco meses de governo. Atrás seguem os vereadores Leonora do Postinho e Capitão Luiz Antonio Crivelari, R$ 3.531,64 e R$ 3.199,65 respectivamente. Os três fazem parte da base aliada do prefeito de Americana, Diego De Nadai, outro gestor público que não parece preocupado com o orçamento da cidade. Chegam a ser ridículas as notas publicadas no portal da prefeitura, as quais enaltecem o recebimento de 3,5 milhões de reais do governo do estado de São Paulo - o mais rico do pais, ao passo que o município interiorano,  de aproximadamente 200 mil habitantes, gastará R$ 14 milhões com MARKETING em apenas dois anos de mandato do atual prefeito, como aponta o jornal O Liberal. Enquanto isso, de acordo com o censo 2010, a rica RPT (Região do Pólo Têxtil - auto classificação provinciana) é cenário de 4,9 mil cidadãos vivendo em miséria absoluta, com renda mensal de até R$ 70,00. Mas não sejamos levianos, o executivo e alguns vereadores estão  pensando nessa fatia da população! De alguma forma estão! Senão, não teríamos o bolsa moradia, benefício a ser dado às famílias que se cadastrarem munidas de seus títulos de eleitor. Porca miséria!

Da esquerda para a direita, os vereadores: Paulo Chocolate (PSC), Antonio Sacilotto (PSDB) e Capitão Crivelari (PP), durante a discussão sobre o bolsa moradia.



Painel de votos para aprovação do bolsa moradia ¬¬

 
Assista ao trecho em debate na sessão de 07 de julho de 2011:

A Parada do Orgulho LGBT: Carnaval fora de época ou uma grande festa política?

Por Dário Neto

O que é esse fenômeno que tem tomado o Brasil há anos e se construído na Avenida Paulista como a maior concentração de pessoas com direito a inclusão no Guines Book? Alguns acham que é um carnaval fora de época, outros acham que é um desrespeito à família, mas há os que vêem nela um grande ato político. Eu afirmo: As Paradas do Orgulho LGBT é uma grande festa política.
A Parada é sim uma grande festa, mas isso não a faz perder seu caráter político. É um dos poucos movimentos que evidencia um grave problema social da cultura capitalista nos centros urbanos: o isolamento das pessoas e a eliminação do espaço público como espaço de convivência. A rua, que até a era pré-vitoriana era o espaço das grandes feiras, recreações infantis, de encontros sociais, das práticas sexuais gratuitas, tornou-se o espaço de indivíduos isolados, trancafiados em suas casas, em suas angústias, afundando-se em suas depressões e remédios e tornando cada vez mais o espaço público em terra de ninguém. A Parada traz para o centro do Capitalismo os excluídos, os párias, as "aberrações" que insultam a moral católica, traz a noite marginal dos grandes centros para brilharem com todo glamour e fechação a dura realidade da violência que vivenciam no dia-a-dia. A rua, que, de espaço de convivência e confraternização social na era pré-vitoriana, tornou-se o fora da família burguesa, passou a ser tratada como a margem onde tudo o que sobra da casa burguesa, todo o lixo é depositado nela. Tomarmos a rua é ressiginificar o próprio sentido desse espaço.
Nossa linguagem política é completamente diferente do que se acostumou a esquerda ainda presa ao merchandising capitalista. Nosso discurso não é a palavra verbal, a palavra verdade herdeira do pensamento iluminista. Nosso discurso é uma semiótica da perversão: da travesti que mostra sua feminilidade com seus peitos siliconados de fora; do homem que inverte sua condição de sujeito sexual, tornando-se objeto de prazer para outros homens; das mulheres que rompem a lógica da feminilidade machista para desenharem em seu corpo como donas do prazer provocando desejos em outras mulheres; da “pintosa” de periferia que dá seus closes em plena luz do dia e mostra sua jeito livre de ser feliz. Como afronta à hipocrisia cristã que oprime diariamente toda a sociedade, os sujeitos políticos que se manifestam na Parada operam uma estética da perversão, carregando na forma o seu mais valioso conteúdo político como enfrentamento às normas que nos oprimem. Em cada forma e em cada estética manifesta vê-se o grito de que somos sujeitos do nosso corpo e queremos o nosso direito à felicidade. Entrar nesse espaço e encontrar seus iguais nesse mundo de diversidade é sentir-se pertencer, é se empoderar como sujeito social, até mesmo nas pegações mais intensas ou menos intensas que acontecem durante o percurso da parada. Nesse contexto, a política que mais se pratica é a da desconstrução da moral hipócrita, do questionamento do que se define como certo ou errado, da implosão dos valores sociais que nos oprime diariamente. Somos A Banda de Chico Buarque que sacudimos, mesmo que por algumas horas, as vidas encasuladas da sociedade.
A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo deve ser entendida em um contexto mais amplo que o da Avenida Paulista. Este ano a Parada superou seu recorde, trazendo quatro milhões de pessoas, apesar da chuva e do frio. Essa mobilização numérica alimenta e incentiva o acontecimento das outras duzentas e cinquenta paradas que ocorrem ao longo do ano e também se sustenta nelas em uma relação de interdependência recíproca. Para além da principal avenida de São Paulo, as Paradas formam um único corpo espalhadas por todo o Brasil. Essa movimentação de Paradas no Brasil e no mundo é o dinamus político que incentiva e fortalece a realização de ações em outros países que não permitem quaisquer manifestações em defesa desse tema. Na Rússia, no dia 28 de maio, militantes LGBT, apesar de o Prefeito de Moscou ter proibido a realização da Parada, se concentraram na Praça Vermelha. Em nome de uma “moral social”, religiosos e skinheads foram lá rechaçar qualquer manifestação dessas militantes. Certamente, a coragem dessa militância de enfrentar a opressão institucional e de grupos conservadores e reacionários tem sido alimentada e fortalecida pelas Paradas que ocorrem em outros locais do mundo, entre elas, a maior de todas – a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. E certamente, em países que criminalizam a homossexualidade, se levantarão outras e outros militantes, movidos pelo efeito que nossa Parada exerce sobre eles, para encampar a luta contra a homofobia.
O tema da Parada de São Paulo este ano foi: “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia”. Como uma sociedade cristã prega tanto o amor, mas autorizam a morte de travestis? Ou autorizam que jovens sejam gratuitamente agredidos na Avenida Paulista? Ou autorizam a exclusão de crianças das escolas motivada pelo bulliyng homofóbico? Ou proíbem o casamento legal de LGBT e a não adoção de crianças por casais homoafetivos? Se há amor, deve haver respeito. E para haver respeito é fundamental que nenhum direito seja violado. Se há amor deve garantir direitos iguais: nem menos, nem mais. O clamor que se ouve nas Paradas LGBT em São Paulo, no Brasil e no mundo pode ser traduzido pela famosa frase de Rosa Luxemburgo: Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Dário Neto é membro do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual de São Paulo e doutorando em Literatura Brasileira pela USP

Fonte: Portal Caros Amigos

quinta-feira, junho 30, 2011

"Quando os jovens saíram às ruas, todos os partidos pareceram velhos".

O título acima se trata de uma frase reproduzida por Emir Sader, da Carta Maior, num artigo em que fala da falta que a rebeldia dos jovens nos faz. As vozes silenciadas da juventude começam a ganhar força em outros cenários e as estruturas estatais se mostram senhoras diante da atual conjuntura.

Ao mesmo tempo em que os partidos se vêem esvaziados do sentimento juvenil, de utopias e sonhos de militantes por um mundo melhor, os mesmos, acuados, abrem espaço ao conservadorismo e a resistência pela transformação, daí até os jovens que lá estiverem reproduzirão a lógica do sistema institucionalizado, normatizado, estagnado e, certamente, sem perspectivas de mudanças. Os atores desse cenário apenas multiplicam retóricas que, com sorte, aplicam-se a realidade atual. Dessa forma, os partidos jamais serão o espaço, para eles, os jovens, lutarem.

Leonardo Boff aponta, no mesmo portal - Carta Maior, que a idéia de Marx, de que o capital iria em direção da destruição de suas fontes de riqueza e reprodução – a natureza e o trabalho, está se concretizando. E mais, que a capacidade do sistema em se adaptar chegou ao fim. O sistema que passou exigir mão de obra qualificada para alimentar seu crescimento, involuntariamente, formou um coletivo de pessoas pensantes que não tendo espaço, direcionam forças contrárias a ele, seja pelo seu fim ou pela própria autodestruição.

Essa semana circulou no grupo virtual do Movimento Estudantil da UFSCar opiniões sobre o “desmonte”, como um colega classifica, do órgão máximo de representação estudantil – o DCE (Diretório Central dos Estudante). A chapa eleita abdicou, os diretores se exoneraram de seus cargos e divulgaram uma carta de justificativa e posicionamentos frente ao movimento estudantil e contexto que a universidade vivencia – a greve dos servidores e a ocupação no Restaurante Universitário. “Ainda bem que o MOVIMENTO ESTUDANTIL não depende do DCE Livre da UFSCar, e se mostra ativo” diz um membro do [MEUFSCAR].

Dois textos e uma conversa revelam a transversalidade territorial que o movimento juvenil representa e que as respostas a uma realidade requerem reflexão e pensar. E é assim que surgem as novas formas de dar voz a idéias e valores a uma sociedade. Assim, ganham força manifestos como a marcha pela liberdade de expressão, pela descriminalização da maconha, o beijaço gay, a ocupação de espaços públicos, etc.

E nesse contexto de abuso descarado de poder, de coronelismo, de escândalos políticos, enfim, de irresponsabilidade com os interesses públicos, que vivenciamos em nossa cidade, assim como em tantas outras do nosso país, só vejo um motivo principal: a despolitização das pessoas quando deixam de pensar, sobretudo a juventude. Aliás, envergonha-me um político daqui que se apropria da classificação de ser um jovem. Quando, na verdade, apenas reproduz um sistema dado, visto em instituições e partidos engessados, conservadores, jamais vanguardistas. Entristece-me também ter instituições de ensino superior como as que encontro aqui, vítimas e vilãs do mercado. Em contato com o UNISAL e a FAM nenhuma instituição soube me informar sobre qualquer grupo de militância estudantil.

Video Promocional: Roteiros SAMPA POR UM DIA



Imagens:
São Paulo sensacional - MTur
Orquestra sinfônica - Sala São Paulo
Brazil is calling you - MTur
Maravilhoso e Impressionante! Teatro Municipal de São Paulo - Helicoptero TV

Som:
Valsa - DJ Victor Sanchez

Organização: Fábio Ortolano
RRTUR Viagens e Turismo

terça-feira, junho 28, 2011

Dia 28 de Junho: Dia do ORGULHO homossexual


 


26 de junho, dia da 15ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

Chegando à rodoviária, segui em direção ao guichê que me venderiam a passagem para a cidade de São Paulo. Uma pequena fila, na qual um jovem também aguardava a sua vez. Talvez fosse da minha idade ou alguns anos mais novo. Provavelmente residente na região do pólo têxtil, o rapaz usava trajes simples. Uma camiseta de tecido sintético com pouco algodão, com estampa rosa borrada pelo ferro de passar e amarelada pelo tempo. A calça, possivelmente não era do jeans produzido na distinta princesa tecelã, e sim um daqueles que vendem em atacado onde raramente há uma numeração compatível com qualquer corpo. De seu bolso ele retira alguns trocos e moedas para pagar o bilhete de ônibus. Os cabelos estavam encharcados, de forma a manter os cachos em harmonia. A água que escorria pelo pescoço molhava a camiseta manchada. O tempo fechado anunciava chuva e deixava a manhã fria, ele estava sem blusa. Entramos no ônibus, eu com meu amigo e ele sozinho. A última vez que o vi foi subindo as escadas da maior rodoviária da América latina. Os destinos poderiam ser tantos, mas eu sabia, desde quando encostei atrás dele na rodoviária da minha cidade, que estávamos indo pro mesmo lugar.


Segue abaixo uma charge enviada por uma amiga, Angela Teberga.

quinta-feira, junho 16, 2011

Eu amo Sampa



Há quem diga que se Buenos Aires é a Paris americana, São Paulo é a Nova Iorque latina. Salvas as interpretações pessoais e as particularidades de cada destino, podemos, através do turismo, conhecer um pouco dos hábitos e costumes de cada uma das localidades.

A cidade de São Paulo abriga uma variedade de opções de lazer para qualquer público, segmento e faixa-etária. É possível comer o famoso sanduíche de mortadela e o pastel de Bacalhau no Mercado Municipal, passando depois pela 25 de março e Santa Ifigênia a pé. Pode-se conhecer a torre do Edifício Altino Arantes (Antigo Banespa, símbolo da era progressista da cidade) e jantar no Terraço Itália apreciando uma vista de 360° da cidade de São Paulo.

A Sala São Paulo (Antiga estação Julio Prestes) e o Teatro Municipal são ótimas opções para contemplação de concertos, ao passo que as casas de shows são para os espetáculos da Broadway e as salas de teatro para as peças nacionais.

Falando em Artes, vale mencionar que a metrópole paulistana é palco de aproximadamente 4,8 mil apresentações teatrais ao ano e cenário de grandes espaços de cultura com gabarito internacional, como o museu do Ipiranga, o MASP, o museu da Língua Portuguesa (Estação Luz), o Memorial da resistência (antigo DEOPS- SP) e a Pinacoteca. Locais que, além de paisagem da história nacional, são hoje destinos das lembranças saudosas de outrora e, sobretudo, de afirmação da diversidade cultural brasileira.

As opções não se esgotam. Pode-se assistir a um jogo no Pacaembu ou no Morumbi, ir ao Zoológico municipal ou ao Ibirapuera, bem como ir à uma casa noturna na lapa ou num barzinho na Vila Madalena e visitar um bairro japonês ou italiano. E se quiser fazer um breve passeio pela capital paulista acompanhado por um guia é só ir até a estação da Sé, direcionar-se até o balcão do Turismetrô, escolher um dos roteiros e adquirir o número de bilhetes necessários. Descubra e desfrute a cidade de São Paulo!

terça-feira, junho 14, 2011

Notas do velho guerreiro Lampião

Em tempos que o tão criticado folhetim televisivo desvenda o cangaço como ato heróico, vale lembrar o quanto o coronelismo ainda assola nosso povo e o porquê ele ainda existe. Não apenas nos sertões e pelas vastas terras do mundão a fora, e sim em qualquer parte do mundo, na cidade vizinha, ao nosso lado em nosso quintal.


Os coronéis estão também nas metrópoles, nas cidades interioranas dos estados da federação. Gozam das posses que seus capatazes jamais terão direito um dia. Fartam-se da ignorância daqueles que optam pelo consentimento ao invés da resistência como as dos broncos e delicados homens cangaceiros.


E mais difícil que acreditar na existência dos sujos e injustos coronéis é vislumbrar e encontrar os guerreiros da justiça social que busquem a verdade. Não para aplicá-la a todos, simplesmente para não aceitar interpretações do outro.


A cultura sempre foi perversa e dolorida aos olhos daqueles que dentro de qualquer concepção não enxerga a ausência da verdade incontestável. É cômodo não buscá-la para si. Daí, infelizmente, a realidade sempre será refém daqueles que a conta.


Assim, não será a ciência, tão pouco a religião que encontrarão a inexistente resposta e darão sentido a tudo. Através delas, apenas decodificamos a vida no/para o tempo ao qual pertencemos. Aliás, seria até prepotência acreditarmos que já encontramos uma verdade conclusiva. E mesmo que os códigos decifrados sejam da mais perfeita definição, ainda assim, estarão passíveis a contestações e novos sentidos para outros povos e comunidades.


Segue uma nota do extinto LAMPIÃO DA ESQUINA, arma fina que os delicados homens brutos da metrópole usaram em tempos de ditadura militar no Brasil.


“As lutas das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos índios, dos prisioneiros – categorias historicamente silenciosas – têm nos ensinado que a história tem sujeitos e objetos, aqueles que falam e aqueles de quem se fala, mas também que os sujeitos variam ao longo desse processo. Estas lutas têm ainda nos ensinado que o conhecimento pode ser sinônimo de poder e que a fala torna visíveis questões concretas mas não reconhecidas, não registradas, portanto sem existência histórica. Essa fala, no entanto, ao mesmo que revolucionária é conservadora por ser parte de uma linguagem, desta mesma linguagem que por tanto tempo manteve invisíveis as categorias de pessoas que agora começam a tentar um auto reconhecimento tentando afirmar-se como sujeitos de sua própria história(...)” (Mariza, LAMPIÃO DA ESQUINA, 25 DE JUNHO DE 1978).


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quinta-feira, junho 09, 2011

Carta aberta da APOGLBT para a população brasileira, contra o conservadorismo e o fundamentalismo

Incluir e amparar indiscriminadamente todas as pessoas não seria o principio básico da religião?

07/06/2011
 
Em 2010 mais de 260 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram assassinados no Brasil, em ataques tipificados pelas autoridades como crimes de ódio. Uma sociedade que vende para o resto do mundo uma imagem de “acolhedora” e “diversa” está com suas mãos sujas de sangue. Nós, brasileiros, carregamos o título de país líder em assassinatos e violência contra LGBT.

Aqui se mata mais homossexuais do que nos países islâmicos em que a homossexualidade ainda é condenada pela lei com a pena de morte. A semelhança entre o Brasil e nações como o Irã, Arábia Saudita e os Emirados Árabes é que aqui a pena de morte aos LGBT também se dá através da fé e da religião, que, na teoria, não têm poder de interferência em nossa constituição, porém, na prática, têm sistematicamente regido a tão profanada Lei dos Homens, que deveria ser isenta e igualitária.

É inegável que a conquista da cidadania tem avançado para a população LGBT; um mérito que não é apenas da militância e do movimento organizado, mas também da nossa sociedade como um todo, que tem se mostrado comprometida contra o preconceito e todas as formas de discriminação.

Porém, como toda ação gera uma reação, observamos o recrudescimento dos setores conservadores. Eis que vemos no Brasil o surgimento de uma mobilização capaz de unir fundamentalistas e extremistas de direita, religiosos e nazifascistas, que numa voz uníssona bradam contra os direitos humanos de milhões de cidadãs e cidadãos.

Antes, nossos algozes agiam na calada da noite, nos violentando em becos à surdina, como se, nos atingindo individualmente, pudessem nos exterminar pelas beiradas. Hoje, saem às ruas, fazem abaixo-assinados, manifestam-se na Avenida Paulista e marcham sobre a Esplanada dos Ministérios para barrar a garantia de nossa dignidade.

Trata-se de uma versão brasileira do movimento norte-americano “God Hates Fags”. A diferença é que, aqui, os que creem que “Deus odeia as bichas” são muitos, têm forte representatividade no Congresso, recebem a atenção da imprensa e, infelizmente, ganham adeptos.

Na história da humanidade, o nome de Deus não somente foi usado diversas vezes em vão, como serviu para respaldar a violência e morte de diversas minorias. A escravidão dos negros africanos, a condenação dos judeus e a perseguição às mulheres no período de “caça às bruxas” são exemplos disso. Como herança cultural, ainda temos estabelecido o patriarcalismo e a soberania de brancos como regras informais de nossa civilização ocidental contemporânea. A Inquisição ainda está viva no que diz respeito à homofobia, mas não só a ela.

Em tempos modernos, os inquisidores apenas trocaram a tocha e a fogueira pela lâmpada fluorescente, mas a condenação ainda ocorre em praça pública, consentida e assistida por muitos.

Há quinze anos, a primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo reuniu 2 mil pessoas para dizer que “somos muitos, estamos em todas as profissões”. Nos dias de hoje, os mais de 3 milhões que nos acompanham, multiplicados pelas mais de 200 Paradas que ocorrem em todo o território nacional, reafirmam isso e vão além.

Estamos em todas as profissões, famílias, lares, escolas, esportes e igrejas. Sim, mesmo sem você saber, sempre existiu e sempre existirá um LGBT ao seu lado, a quem você jamais gostaria de saber ter sido vítima de bullying, humilhação, agressão moral, violência física, sexual ou homicídio. Incluir e amparar indiscriminadamente todas as pessoas não seria o principio básico da religião?

Se “quem ama conhece a Deus”, qual seria a determinação religiosa para aqueles que professam o ódio e a ira? Não é condenável levantar falsos testemunhos sobre a compreensão da complexidade humana, assim como sobre toda e qualquer ação que visa proporcionar o reconhecimento da existência de uma população comum? Se para os crédulos, Deus não faz acepção de pessoas e todos são iguais perante a Ele, porque insistem em nos manter à margem?

Respeitosamente, nos apropriamos da frase “Amai-vos uns aos outros” para pedir fim à guerra travada entre religião e direitos humanos, financiada pelas brasileiras e brasileiros que dão voz aos fundamentalistas e extremistas que ocupam as cadeiras do Parlamento e espaço nas mídias. Nós, os perseguidos, apesar de já estarmos calejados de oferecer a outra face, usamos de suas crenças para dizer: “Perdoai-vos. Eles não sabem o que fazem”.

APOGLBT

Roteiros SAMPA POR UM DIA




CULTURA&LAZER



A capital paulistana, além de centro financeiro e populacional do país, é também referência em cultura, diversidade de atrativos e prestação de serviços. Descubra as múltiplas opções de lazer, entretenimento, artes, passeios, ambientes, atrativos e atrações que a metrópole pode te oferecer.

A RRTUR tem se dedicado a disponibilizar alguns roteiros que contemplem tais diferenciais encontrados na capital, atendendo os desejos e demandas de cada segmento.

Assim, caso tenha interesse por qualquer programação da cidade de São Paulo, conte conosco para sua comodidade e com o prazer em atendê-lo em suas expectativas.



ROTEIROS E DESTINOS


Etnias. Charlie Chaplin. A & B. Compras. BOSS. Animal. Espetáculo



quinta-feira, maio 26, 2011

Habilitação Manicomial - II Parte

Refrescando-lhes a memória do que venho denunciando sobre o processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação no estado de São Paulo, gostaria de lembrá-los de um sistema comprovadamente falho, revelando adiante sua incoerência e incompatibilidade com os propósitos que o justifica.

Além das digitais não registradas, dos profissionais penalizados com um trabalho insalubre, da psicóloga que aplica uma avaliação deturpada do que seria o exame do psicotécnico e do pseudo-educador que, a todo momento, faz piadas desapropriadas, a experiência manicomial em pleitear a CNH vem me proporcionado outros fatos descarados de desrespeito à qualquer cidadão.

Bom, seguindo os tramites que me são exigidos fui fazer a prova teórica sobre o conteúdo explorado nas aulas do Centro de Formação de Condutores. Isso 15 dias depois de ter o certificado das aulas, pois por conta do feriado de Tiradentes, a delegada da 95ª CIRETRAN anunciou que a prova seria postergada. Durante a aplicação do teste um dos aplicadores nos orienta a fazer tudo exatamente da forma que dispõe às normas, entregando os documentos num determinado lugar, entrar em contato com a auto-escola e aguardar o resultado, que só assim, dentro de 15 e 20 dias o resultado ficaria pronto.

Aprovado, iniciei minhas aulas de moto, e mais uma vez as benditas digitais não passam por conta do sistema incapaz de funcionar todos os dias. De um lado do balcão, pessoas acomodadas ao desrespeito do Estado e, do outro, pessoas adaptadas a não resistirem/defrontarem um sistema injusto. Tentei falar com a delegada, mas a moça que me atendeu disse que ela não havia chegado e que eu teria que aguardar se ela poderia me atender, dependendo qual fosse minha solicitação.

Pensando nessa novela que eu não tinha a menor vontade de assistir e mal vislumbro seu epílogo, iniciei um processo judicial em resposta a todo esse desrespeito. Se o Estado responsabiliza e penaliza os homens e mulheres inadimplentes e omissos às suas responsabilidades, o mesmo também deve estar dentro das leis que o constitui e o confere legitimidade.

E sobre a incoerência e incompatibilidade de propósitos que justificaram sua criação, o novo sistema da CNH, devido sua má gestão e ineficiência, abre espaço e oportunidade para fraudes! Veja só, se um solicitante de CNH não consegue registrar suas digitais, é obrigado ir até a auto-escola em outra data só para passar o dedo sem que faça novamente a aula prática. Bom, se isso ocorre, como podemos notar se alguém apenas registra suas digitais e não faz as aulas? Explica-me senhor governador!

domingo, maio 22, 2011

Orações para Bobby

Caro leitor, você conhece o PL 122? Caso não saiba o que venha ser tal projeto de lei, por gentileza, pesquise e se informe. E não limite-se ao que irei escrever-lhe ou à que digam a você.


Trata-se de um projeto de lei polêmico que vem sendo discutido desde 2006, hoje tramitando no Senado, em que se defrontam, sobretudo, políticos a favor da causa LGBT e fundamentalistas (conservadores que enxergam suas crenças como verdade absoluta e irrefutável) da bancada evangélica. O projeto de lei propõe alterações/mudanças na CLT, no código penal e na lei que define os crimes por preconceito.

O PL é de autoria da deputada federal Iara Bernardi, da região de Sorocaba, professora e militante da educação. Ao seu lado estão os militantes da causa de LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) que, caso o PLC seja aprovado, serão contemplados com novas medidas para redução da violência em que seus pares são as principais vítimas.

Em oposição estão os fundamentalistas que se referem ao PL como “Mordaça Gay”, a qual, para eles, pune o livre pensamento. Alguns religiosos e a bancada evangélica do Senado/Congresso defendem que a proposição fere a liberdade de crença e de expressão.

Como assim? Qual a é concepção de crença? Única, absoluta e verdadeira para todos? O que entendem por liberdade de expressão? Propor a punição para prática, indução e incitação à discriminação e ao preconceito e buscar banir qualquer tipo de ação violenta, vexatória, constrangedora e intimidadora é por uma focinheira nos homens e mulheres de bem? Não entendi. Militam pelo direito de afirmar suas verdades fundamentadas numa crença opressora, normativa e hegemônica sem qualquer preocupação com seus ouvintes? Convém mencionar que tais verdades fundamentalistas, sobre sexualidade e constituição familiar, corroboram com uma cultura e justificativa de violência, haja vista os discursos de grupos extremistas/neonazistas.

Igrejas evangélicas organizaram a Marcha para Jesus em Curitiba, que reuniu aproximadamente 50 mil pessoas, organizando um abaixo-assinado contra o PL 122 e o material de combate a homofobia do MEC, promovendo um retrocesso do governo que opta por evitar polêmicas diante de uma conjuntura de escândalos. Eu, sinceramente, gostaria que as igrejas explicassem o sentido dessas bandeiras. Por que insistem em ir à contramão de seu maior objetivo, o bem social.

O título desse artigo é o mesmo de um livro e um filme que, baseados em fatos reais, contam a história de um jovem que se suicida ao final da década de 70 por não ser aceito por sua família após assumir sua orientação sexual. Revelam alguns dos conflitos e experiências que acontecem numa família, tão protegida e tutelada pela religião.

Sua mãe, uma cristã, segue sua crença sem qualquer questionamento ou reflexão e o submete a terapias e ritos religiosos com o objetivo de curá-lo. Depois que seu filho salta de uma ponte, Mary Griffith descobre seu diário e começa a entender sua realidade sem que deixe de lado sua crença, compreendendo que contestá-la também é prova para que a mesma seja verdadeira. Em 6 de dezembro de 1995 Mary testemunhou ao congresso americano e hoje é militante da causa LGBT, construindo um legado de trabalho a favor dos direitos humanos.

"Aos olhos de Deus, gentileza e amor é o que importa. Antes de fazer eco de amém em sua casa ou local de adoração, pense e lembre-se: Uma criança está a ouvir".

- Mary Griffith


quarta-feira, maio 18, 2011

Ser Homem

Estimado senhor cujo tempo lhe confere riqueza, seu tesouro é da maior valia que alguém pode carregar, é como aquele do baú dos sonhos infantis e até dos carvalhos que refinam a bebida bruta. Arrisco dizer-lhe o que para mim é preciso para ser homem.

Para ser homem é preciso ser homem e ser mulher, perceber quão belo e grandioso é o universo feminino, assim como o masculino. Notar que as construções de gênero, mera produções culturais, nada mais são que traços de um desenho do que a ser o ser humano, sem qualquer distinção de poder, soberania e papel. Uma mulher, por exemplo, pode ser mãe e ser pai, ser beata ou vadia, caseira ou mundana, ser dona de casa ou líder de uma nação, que ainda assim, não deixará de ser mulher. Mulher que tem desejos, anseios, medos e sonhos. O homem pode ter a voz grossa ou tê-la mais fina, pode ser rude ou sensível, pode ser pai e mãe, pode gostar de homem e pode gostar de mulher que ainda assim será homem. Homem com desejos, anseios, medos e sonhos.

Os filósofos são sábios e, certamente, o maior ensinamento que podem nos deixar é a inspiração em pensar. Pensar não apenas nas palavras, mas em tudo aquilo que refletimos numa mesa de bar ou com a cabeça debruçada no travesseiro e objetivamos em códigos que, provavelmente somente nós, seres humanos, podemos decodificar.

Assim, tão importante quanto ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, é pensar neles. Pensar nos meninos e meninas que nasceram nos ventres próximos, mas também naqueles que tiveram como progenitora uma desconhecida, para que todos tenham o carinho de alguém que distante ou próximo sempre revele um entusiasmo no contato com o outro. E confesso ser admirável ver o senhor ao telefone seja com seus filhos ou com os amigos.

É preciso pensar nos ipês, nas paineiras, nas amoreiras, nas jabuticabeiras, nos limoeiros, e também nas orquídeas, nas bromélias, nas gramíneas, nos cupinzeiros, em tudo como um ciclo, do qual sem qualquer elemento não sobreviva. E não só isso, é preciso regá-los como o senhor faz às tardes no pôr do sol.

Escrever um livro é fácil e não precisa ser impresso, encadernado e catalogado. Um livro precisa de palavras, de pensamento, de um estalar em sonhos de insônia, que com sorte sejam registrados num papel. Mas mesmo que não sejam, não importa, imaginemos quantas obras devam existir na memória dos filósofos, historiadores, psicólogos, pedagogos, etc. Basta escrever, pois como diria Darcy Ribeiro, escrever é ter coisas a dizer.

sexta-feira, maio 13, 2011

As semelhanças de John V. BRIGGS (1978 – EUA) e Jair BOLSONARO (2011 – Brasil)*

John V. BRIGGS (1978 – EUA) e Jair M. BOLSONARO (2011 – Brasil)   


*Texto originalmente publicado em O Liberal, Americana.


John V. Briggs, nascido em 1930 nos EUA, mudou-se aos cinco anos para Califórnia, onde trilhou sua carreira política. Foi militar, servindo de 1947 a 1951 às Forças Aéreas Americana e posteriormente na reserva naval dos EUA

Enquanto político trabalhou pela regulamentação da construção, pelo desenvolvimento da energia nuclear e maior aplicação da pena de morte. Uma de suas polêmicas proposições foi a que proibia a uso de cigarros em ambientes públicos fechados.

Em 1978 Briggs lança a Proposition 6: A qual exigia a demissão de professores de escolas públicas que fossem considerados homossexuais ou militante da causa gay. Seus argumentos eram que tais educadores poderiam influenciar e incentivar crianças a serem homossexuais.

Jair Messias Bolsonaro nasceu em 1955 em Campinas, São Paulo, onde cursou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército e em seguida a Academia Militar das Agulhas Negras (Resende – RJ). Hoje, além de capitão da reserva do Exército é deputado federal pelo Partido Progressista – PP.

No relatório de sua atividade legislativa, encontram-se proposições relacionadas às normas de trânsito, punições, proteção e defesa do consumidor e outras tantas, sobretudo e majoritariamente, em benefício de militares. Defende a maioridade penal aos 16 anos e o controle de natalidade e é contra o desarmamento do “cidadão de bem” como classifica.

Bolsonaro distribuiu, nesta terça (10), cerca de 50 mil panfletos em escolas e residências do Rio de Janeiro sobre o plano nacional que defende os direitos dos homossexuais, denominado por ele de 'Plano Nacional da Vergonha'. Ele fala sobre um suposto 'kit gay', material didático contra homofobia preparado pelo Ministério da Educação e entregue as escolas públicas. O deputado acredita que tal material influenciará na orientação sexual dos jovens que receberem o kit.

33 anos depois das declarações homofóbicas de John V. Briggs, Jair M. Bolsonaro as repete e solicita a convocação do Ministro da Educação, Fernando Haddad, para prestar esclarecimentos sobre a elaboração de material de combate à homofobia a ser entregue nas escolas de ensino fundamental e ele mesmo distribui uma cartilha embasada em suas verdades.

Frente às repostas de militantes, educadores e outros políticos a proposição americana foi derrotada. Espero que os militantes e educadores brasileiros consigam mostrar que esse material é fruto de várias discussões e demandas da própria comunidade civil, a exemplo, nas conferências nacionais de Educação e LGBT, que abordaram os temas diversidade sexual e educação com crianças, adolescentes, educadores, militantes e autoridades representativas nos municípios, nos estados e, finalmente em nível nacional, em Brasília. Revelar, ainda, que esse plano é fruto de anos de trabalho e discussão de inúmeros coletivos, não apenas uma cartilha carregada de valores pessoais e preconceituosos de um político de extrema-direita.

O Liberal


segunda-feira, maio 02, 2011

Judas Juda-a-a, Judas GaGa!

Não haveria personagem melhor que ele. Sim, a música é sua. E é para você que também escrevo.

Você que reza as dez ave-marias, que ajoelha diante de seus irmãos fiéis, que ora e proclama suas verdades em cima do altar e que recebe o corpo de cristo. Você que traz o crucifixo no bolso, o terço na bolsa e a bíblia junto ao paletó.

Você que unido a tudo isso corrompe sistemas, compra diplomas, suborna pessoas, abusa do poder, coloca seus compinchas em cargos públicos e abusa da ignorância dos mais humildes.

Você que está todos os sábados na missa ou no culto dos domingos e despeja comentários preconceituosos, tira proveito de situações que te favoreçam, desrespeita seus pais ou filhos em detrimento às suas crenças e pouco se importa com alguém faminto que bate a porta do seu carro para pedir algo no semáforo.

E se me responder que ele está à cima do peso ou que parece estar bem alimentado e interessado em outra coisa, eu te digo: faminto por todas as necessidades que a sociedade constrói e o deixa não apenas de barriga cheia, mas satisfeito de sonhos e farto de esperança.

De que vale toda sua fé se ela confere benefícios apenas a você e aos que te rodeiam. Não há lógica! E diante disso tudo, o traidor é você! Projeta-se em Judas que verá a traição de suas próprias crenças.

Não adianta entregar roupas usadas e mantimentos a instituições de caridade, pagar o dízimo, escutar horas e horas de palavras santas se na sua própria casa você se valer de uma cultura perversa de opressão a ponto de ver seu filho desnutrido de auto-estima e ainda reproduzir interpretações alheias sem qualquer reflexão.

Pouco importa se você planta uma árvore, mas destrói os sonhos de tantas pessoas sobrepondo seus interesses, construindo seu império edificado ou de poder. Qual seria o sentido de ajudar crianças com câncer se você nem nota que as pessoas próximas a você estão adoecendo por um trabalho injusto e insalubre. E as suas crenças? Seus ideais? Quantas vezes serão negados pelo medo de se ver como traidor?

O título desse artigo é um trecho da polêmica música “Judas” da cantora Lady Gaga. A estréia do clipe está programada para essa semana.

quinta-feira, abril 28, 2011

Ao prefeito Diego De Nadai

Ao saber que nosso prefeito tinha uma página virtual hesitei em fazer-lhe uma visita por conta de um medo de indigestão. E posso dizer que eu estava certo, mas as informações não são apenas indigestas, elas causam ânsia. Ânsia por vomitar todas as respostas e palavras de revolta em ver a demagogia e marketing barato de políticos como o que aponto nesse artigo.

Começa pela biografia, sua “trajetória de vida pessoal e política”. “Um jovem expoente da política de São Paulo”, eleito prefeito com “x” votos, escolhido um dos vereadores em 2000 aos 20 anos e candidato a deputado federal. Como assim? “Expoente” por isso? Quais foram suas causas, as bandeiras pelas quais militou, os coletivos que representou e as obras que realizou?

Não depois de empossado num cargo público, é claro, pois estas estão bem divulgadas nas inúmeras placas pela cidade. A propósito, senhor prefeito, gostaria que investisse o dinheiro público em outras obras, pois chega ser incoerente sua ação. Se eu, um cidadão, estou transitando por uma praça que foi remodelada, não preciso que me digam que ali foi feita uma obra, eu vejo! E aqui vai uma orientação, “revitalização” não pega bem, não há nada morto ou sem vida para políticos ilustres e oportunistas darem novamente vida.

Voltando ao site, “Gente é pra brilhar... Gente é pra ser feliz”. Que gente? Explica-me isso. O que quer dizer com essa frase de impacto? Qual é o conceito de felicidade que o senhor e seu publicitário têm de felicidade? Olha, objetivamente, para alguém brilhar precisa primeiro ter assegurado: alimentação, saúde, educação e lazer. Será que todos os munícipes de Americana estão contemplados com esses direitos para brilharem? Ou o senhor acredita que todos podem pagar um marketeiro que cuide da sua imagem?

Na página tem também as fotos do prefeito. As legendas são transcrições perfeitas das típicas ações dos políticos de Platão. Um jóia na unidade móvel entregue aos bombeiros, um aperto de mão com um empresário, um passeio e sorrisos em meio a criançada. Isso é bonito, dá credibilidade. Não importa que tudo isso é fruto dos altos investimentos, vulgo impostos, que a população confia nas mãos dos governantes.

Caro prefeito, não fale de si, deixe que façam por você. A verdade sempre vem à tona. Falarão bem, falarão mal, infelizmente é assim. Mas você, um gestor público, não pode jamais usar de benefícios oriundos de seu status para construir ou difundir uma imagem pessoal.

quarta-feira, abril 27, 2011

Postagem número CEM: Mais um sistema falho

São em momentos como o que acabei de vivenciar que busco encontrar toda calma e paciência que minha sã saúde mental pode me proporcionar. Mais um sistema falho? Será que minhas expectativas e demandas são incompatíveis com os serviços que esta sociedade tem a ofertar?

Sete dias atrás uma moça me liga enquanto eu dormia e me oferece uma assinatura grátis da CATHO. Eu disse que não tinha interesse, mas isso não foi o bastante pra ela. Assim como grande parte das meninas e meninos do telemarketing ela deve ser orientada a por goela abaixo todas as informações repassadas em seu treinamento até que, por cansaço, ela atinja seus objetivos: Efetivar uma venda, uma assinatura, uma benevolência.

E não haveria outra palavra que melhor explicasse sua ação que “benevolência”. Eles oferecem tudo de graça! Você só não pode esquecer-se de cancelar a assinatura sete dias depois, afinal, você tem muito tempo para desfrutar dos serviços e lembrar que tem de cancelar - Deus criou o mundo em sete dias!

Mas vai que você não seja tão ágil e rápido quanto à figura celestial e por um deslize esqueça de cancelar seu "benefício", mantenha a calma, pois já era, meu querido! Nem uma hora a mais! Seu tempo é finito. E não há como reverter isso. O sistema não aceita. E não adianta não usar ou nem ter usufruído dos serviços. Você deve pagar, por que o sistema é assim. Não questione, é assim! Entendeu?

Prejuízo: Pagar pelo plano que você pagou, o mais curto é 15 % do salário mínimo! E não fique inconformado, o atendente diz que a empresa não quer prejudicar o cliente. Imagine se ele não afirmasse isso?!

Saldo: Refletir sobre as estruturas responsáveis por sistemas tão falhos.

sexta-feira, abril 01, 2011

Habilitação manicomial

No início de janeiro iniciei meu processo de habilitação mental, digo, de conquista da CNH – Carteira Nacional de Habilitação. Deve ser uma nova política pública de saúde mental aplicada pelo governo do estado de São Paulo.

Como nós sabemos, haja vista nosso cenário local, as autoridades são e estão sempre preocupadas com fraudes, ilegalidades, corrupção no espaço público. Aliás, isso é um orgulho nacional, a atenção com o bem estar do coletivo. E assim devem pensar nossos representantes que propuseram a reforma no sistema do DETRAN - Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo. Não querem mais a compra de habilitação, mais uma prática do oportunismo barato de indivíduos que até podem acreditar no significado de cidadania, mas não o colocam em prática.

Pois bem, qualquer pessoa com o mínimo de censo crítico teria inúmeras interpretações sobre tal contexto de mais burocratização do serviço público. Porque convenhamos, preocupação com fraudes e falsificação de documentos e cartas de habilitação não é! Só seria isso se fosse uma política para inglês ver. Aumentaram o número de aulas, os procedimentos de avaliação, a centralidade de serviços e, obviamente, os custos. Ah! Esses, sim, elevaram-se em progressão geométrica. Para onde são canalizados, não sei. Para toda essa burocracia criada? Será?

Ah, não sejamos ingênuos. Os procedimentos de avaliação são severos, didáticos, aplicados por profissionais bem capacitados. Afinal, para dirigir é preciso estar habilitado aos moldes do que se coloca como saúde mental e psíquica.

Você enfrenta filas consideráveis, sistema ineficiente que funciona quando suas limitações não o impede de trabalhar e trabalhadores a beira de um surto por carregar as respostas dadas a todo esse desrespeito ao cidadão. Mas fique tranqüilo, o professor do CFC – Centro de Formação de Condutores te orientará a rezar. Já falo dele, por que antes você passa pelo psicotécnico.

Para ir até o psicotécnico, certifique-se como anda sua saúde mental e vá até um daqueles médicos que te dopam de anti-depressivos e tudo está bem. A medicalização da vida é tão confortável quanto a prática manicomial mesmo. Dane-se qualquer reflexão sobre nossas ações. Fica a dica. Será preciso!

Lá você encontrará uma profissional que fará comentários preconceituosos sobre sua origem, lerá suas respostas em vós alta para todos da sala, questionará sua inteligência e capacidade psíquica de modo que todos escutem. Fique calmo se você for tímido e tiver uma formação superior, pois pra você ela possivelmente dirá que é determinado, certeiro e independente, mas se não tiver um curso superior ela pode se sentir mais a vontade em questionar suas respostas. Bom, ela deve ser muito experiente e pós-graduada no assunto, porque só com um dos testes ela já te fala e faz tudo isso.

O próximo passo é esperar mais um tempo e iniciar as “aulas” no CFC. Aí você encontrará aquele professor que te falei. Ele é divertido, começa com as piadas desde os primeiros minutos de apontamentos. O humor é sua ferramenta para didática da aula. Admiro os professores que possuem esse dom. Novamente você será testado. Tudo bem que cada um carregue seus preconceitos para si, mas um educador não pode, em hipótese alguma, retroceder anos de lutas de movimentos que militam pelo respeito e dignidade. O tal educador faz comentários homofóbicos, revelando sua intolerância e incapacidade de lidar com o diferente. São inúmeras as piadas e brincadeiras sobre mulheres e associadas às relações de poder e gênero. Ele, assim como quase toda a turma, deve acreditar que isso seja apenas brincadeiras insignificantes.

Eu, sinceramente, gostaria que ele e os demais soubessem dos inúmeros casos de jovens adolescentes que se suicidam. Que a cada dois dias um homossexual é assassinado no Brasil. Foram 250 mortes registradas só em 2010. Mais de 1 milhão de mulheres são vítimas de violência doméstica no país, segundo o IBGE. 68% das vítimas sofrem lesões corporais, 57% são agredidas todos os dias e 70% dos agressores são seus maridos/companheiros/ex-companheiros (Sec. Políticas Públicas para as mulheres). De acordo com o Instituto Sangari foram quase 40 mil mortes registradas em dez anos. Isso significa mais de dez mortes por dia. Queria ainda que soubessem que são essas piadas e brincadeiras insignificantes que constroem e afirmam essa cultura machista perversa a toda humanidade.

Habilitar-me para dirigir tem sido uma experiência manicomial.