terça-feira, novembro 06, 2012

Mudança social


                     Curioso tentarmos encontrar respostas e caminhos para uma mudança social.  Se nem mesmo o homem, sujeito repleto de subjetividades, poderia dar conta de certezas que o leve a destinos vislumbrados num projeto de futuro, como poderíamos pensar em transformações para um conjunto deles? Mulheres e homens compõem inúmeras realidades compartilhadas em sociedade e cada qual possivelmente as enxerga de uma maneira, pois o sujeito é histórico, cultural e social, fruto de uma produção discursiva que constrói socialmente, contudo é também reflexo de suas escolhas e ações particulares frente a esse social. Não há como qualquer individuo ser igual ao outro. Assim, supomos encontrar a resposta, pois é através do outro que nos entendemos e significamos. A mudança não é possível quando pensamos e a objetivamos em alguém sozinho, é sempre na relação com outrem que podemos mudar.
                        Por que às vezes temos a idéia de que vivemos no caos? O aumento da violência urbana, o abandono da educação, o esquecimento da cidadania, o distanciamento entre pais e filhos, entre pares e amigos, a apatia com o sofrimento alheio, a banalização do mal, a desestruturação das auto-estimas, a perda de caráter, o relativismo da gentileza, a performática da vida, a procura por corpos ideais, etc. Tudo isso parece alinhar-se uma lógica de busca por uma juventude que nos valha de anestésico para a morte, quando, talvez, não acreditemos mais na vida. É como Jurandir Freire Costa fala ao tratar da indiferença, em que nos esquivamos de olhar para o outro, certamente acabamos por destruir aquilo que não temos coragem de transformar.  
            Loïc Wacquant diz que o distanciamento cada vez maior entre os sujeitos ricos e pobres, bem como o crescente autocercamento das elites políticas, o afastamento das instituições dominantes da sociedade, tudo isso alimenta a hostilidade e a desconfiança, legitimando a ordem social, a autoridade e a repressão: a polícia.  E o controle é a peça-chave para entendermos a estabilidade e manutenção das coisas. Opressão, poder e competitividade estão em jogo numa sociedade que não se questiona e não se enxerga. A mudança nesse contexto parece limitada.
            Para Jurandir a nova sociedade global se tornou personagem de um mundo fantasma, vivemos num lugar que é internacional e, ao mesmo tempo, fictício. E sem as raízes e pertencimento, perdemos o sentido da história e do bem comum. No Brasil e em muitas partes do globo, as classes dirigentes ignoram os desfavorecidos, eis a primeira indiferença, que por sua vez pouco se importam com a vida das elites, segunda indiferença. Em meio a isso, a burguesia é acometida pela ansiedade, insegurança e sentimento de fracasso. Eleva-se o consumo de antidepressivos, as consultas terapêuticas, os shopping centers, a busca por respostas exotéricas, os gastos com produtos e serviços que prometem a felicidade, essa é a terceira indiferença, das elites para com elas mesmas.  É a incapacidade do olhar para outra coisa que não seja a si mesmo. O outro se perdeu nessa lógica da indiferença e quando não temos o outro não significamos a nós mesmos. Logo, não podemos mudar o que foge a nossa visão.
            Wacquant acredita que houve uma modernização da miséria, um novo regime de desigualdade e marginalidade urbana que trilha novos rumos e toma outras formas. Qualquer que fosse o rótulo utilizado para designar os marginalizados, ao que nos parece, estes não estão mais isolados num território, etnia, raça, sexualidade. A marginalidade apresenta outros sinais somado aos antigos, está em toda a cidade, em todos os grupos e tribos. Frei Betto coloca que hoje, pior do que antigamente, na sociedade em que vigora o individualismo, não mais falamos em marginalizados, e sim em excluídos. Não há mais a esperança de retorno, os sujeitos nem contornam o esperado, o modelo, estão postos para fora, no lugar da ausência. São invisibilizados na realidade.
                        Diante disso outras questões nos aparecem. O que está implícito nessas ações humanas? Como constituímos nosso projeto de futuro para vivermos em civilização? Quais são as possibilidades de ruptura nesse contexto? Será que é preciso mudar? Estamos satisfeitos com o que temos construídos como humanidade? Se a racionalidade é parte do que concebemos sobre nós mesmos, tais questionamentos já se legitimam como uma pulsão do nosso existir. Esbocemos possíveis respostas para tanto.
                        Diversos pensadores e intelectuais defendem que somos dominados e agimos pelos desejos. Nossa mecânica configura-se através das pulsões por aquilo que almejamos. E se somos seres sociais, certamente nossos desejos serão construções do social, produtos das diversas histórias, culturas e ideologias. Assim, vivemos num processo em que buscamos objetivar tais anseios. As relações entre indivíduo e o outro/cultura/mundo se dão nessa interação complexa em que todos se constituem mutuamente. Jose Leon Crochik, numa perspectiva da psicanálise, mostra como a constituição da personalidade dos sujeitos em relação com a cultura produz preconceitos e estereótipos, ou seja, significações do mundo. É como se uma economia reflexiva legitimasse a idéia que temos das coisas como verdades que atendam nossas expectativas. Jurandir Freire Costa fala de nossa devoção pelas palavras, as quais supomos serem verdades daquilo que pretendem designar. Ainda que os seres humanos se orientem pelo outro, pela cultura que o atravessa, sua pulsão de vida e morte advém de si. Para Crochik o preconceito é uma reação à mudança individual e social, é a eliminação do desconhecido e afirmação do conhecido. Voltemos à impressão de vivermos no caos, o homem que busca a estabilidade e a segurança, quando confrontado com as incertezas, certamente recorrerá ao que está cristalizado, posto de certa forma como verdade. É o que lhe confortará. Como, por exemplo, quando diante de uma explosão e visibilidade de múltiplas manifestações de sexualidades, e da relativização de temas como gênero e orientação sexual, muitos setores da sociedade firmam-se no fundamentalismo religioso. Nossas práticas decorrem sempre desse movimento entre o eu e o outro, numa busca de construção de si.
                        Assim, é nesse interstício sujeito/mundo que vislumbramos a possibilidade de ruptura. Precisamos considerar essa economia reflexiva e tentarmos transpô-la com idéias e propostas de vida novas. A academia sozinha certamente não daria conta de responder tais expectativas, contudo, como todos os múltiplos micro-espaços de atuação do sujeito, ela é capaz de propor ensaios para colocarmos em cena. A desconstrução proposta pela teoria queer advém dessa perspectiva. Não se trata de um relativismo raso, mas de um constante questionamento sobre a significação, classificação, categorização, disciplinarização das coisas.
                        Já nos está claro que não há como mudar alguém sem que seu entorno se transforme, contudo, também não é possível alterar uma conjuntura sem que mudemos cada um de nós. A resposta que nos parece óbvia, confunde-se com sua inexistência.  A meu ver, mudar é preciso, independente da nossa satisfação enquanto humanidade, pois esta associa-se a uma percepção que é subjetiva. Mudar é necessário, pois segue a lógica de perseguirmos algo, de sonharmos, de querermos a vida e não a morte. Mudar nos parece tão distante porque, paradoxalmente, a mudança se inscreve no presente e no cotidiano, que de tão próximos, não encontramos lugar para essa transformação que projetamos no futuro. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Amor

Talvez por sabermos e reconhecermos a importância do outro, por um sentimento egoico, por medo de nos vermos sozinhos, por alegrias e angústias vividas, por não termos o vazio ou nos vermos esvaziados, por ter a quem direcionar o carinho que nos falta. Talvez compliquemos o que queremos que não seja simples a ponto de nos parecer imperceptível. Seja o que for, que seja pra ser, quando ser é mais que ter, e apenas ser: amor. 




domingo, junho 24, 2012

"Pau Mole" (Maria Rezende)


Adoro pau mole.
Assim mesmo. 
Não bebo mate, 
não gosto de água de coco, 
não ando de bicicleta, 
não vi ET 
e a-d-o-r-o pau mole.
Adoro pau mole, 
pelo que ele expõe de vulnerável 
e pelo que encerra de possibilidade.
Adoro pau mole, 
porque tocar um pressupõe a existência de uma liberdade 
e uma intimidade que eu prezo e quero, sempre.
Porque ele é ícone do pós-sexo 
(que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.
Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.
É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come. 

sábado, junho 23, 2012

Que a prece seja verdadeira, pois o desejo é leviano.

Os passos diários nos marcam por apontarem o destino. Destino este que insistimos em olhar com receio, inseridos nessa cultura que nos constrói ariscos a ele. O caminho não é a única razão que nos põe em movimento, é talvez apenas a novela que escolhemos encenar. E esta não é a única que possivelmente assistiremos enquanto espectadores protagonistas.  O exercício constante de encarar a cena com o riso sustenta-se em saber que teremos o direito de chorar, de viver o drama, pois a comédia e o romance não nos bastam enquanto atores em aprimoramento.
 Assim, talvez não seja a materialidade das coisas que nos alimenta, mas a imaterialidade da vida que nos sustenta.  Essa contraditória força que nos domina cotidianamente - entre o que nos parece objetivo e subjetivo - é parte do que somos e da forma que existimos. Não é a necessidade de viver que nos move, mas o medo de olhar para a certeza que temos. Aproximar-se do epílogo envolve-nos aos clímaces da nossa trama.

“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir”. (Los Hermanos, Sentimental)

quinta-feira, junho 07, 2012

16ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo


                  Acontece no próximo domingo (10/06) a 16ª edição da Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de São Paulo. Um dentre tantos eventos, de diferentes tipos - que acontecem diariamente não só na capital paulistana, mas em diversas cidades dos estados brasileiros e pelo mundo a fora.
Alessandro Soares da Silva (2008) fala de movimentos e não movimento LGBT. Seja na perspectiva acadêmica, da militância, da visibilidade e até da festa os movimentos sociais não são, como muitos significam, algo institucionalizado, normatizado, estático. Seu nome já revela seu caráter de transitoriedade, de ação em processo.
Pensar em movimentos sociais requer uma atenção para além das estruturas sociais, dos contextos partes de um sistema. É preciso que se relacionem os significados e sentidos de todos aqueles que constroem o movimento, ou seja, tanto dos que participam nas ruas, escolas, universidades, ONGs, quanto daqueles que falam a respeito. Os discursos também são formas de significar o homem e o mundo.
Na última quarta-feira, no lançamento do livro “(In)Visibilidade Vigilante:  representações midiáticas da maior parada gay do planeta”, o autor Steven Fred Butterman (2012), professor da Universidade de Miami,  é questionado por um jornalista sobre a contradição do país que é cenário da maior parada do mundo ser também a nação que sustenta o maior índice de assassinatos de LGBTs na América. E cabe ressaltar que só são contabilizados aqueles que a morte foi registrada como conseqüência da intolerância homofóbica.
Ao responder, Steven fala da sua percepção sobre a parada de São Paulo como um espaço democrático, em que há todos os tipos de “tribos”, como a dos Skinheads simpatizantes a causa LGBT, uma das possibilidades explicativas da dimensão do evento paulistano. Acrescento a perspectiva da Consciência Política de Salvador Sandoval (2001), descrita a partir do sentimento de injustiça, da identidade coletiva, das expectativas societais, bem como dos interesses simbólicos e materiais.
Tudo isso faz do sujeito político, consciente ou não de sua ação, alguém parte de um movimento. E não apenas o protesto em repúdio à violência motivará os sujeitos, mas também a vontade de viver, de expressar a sexualidade – seja numa festa, num levante de cartazes, num grito ao megafone ou num ato suicida.
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Friedrich Nietzsche

quinta-feira, março 29, 2012

Educação e sujeitos

A conjuntura atual da educação no Brasil vem sendo pautada em discussões acadêmicas, nos discursos do cotidiano de senso comum, nas mídias, etc. Almeida (2005) nos traz uma percepção consensual em todos esses discursos entendem a educação brasileira como de má qualidade, a qual é compreendida pelos aspectos de eficiência, eficácia e produtividade. O autor reflete e questiona tal conceito e aspectos dessa qualidade influenciadora dos contextos e sujeitos. Algo que trataremos adiante.
Conseqüentemente os atores envolvidos tornam-se alvos de críticas e analises, sejam elas embasadas e elaboradas ou aquelas mais rasas. Isso nos remete um comentário da filósofa, psicanalista e poeta, Viviane Mosé, que, ao refletir sobre os males do mundo numa entrevista concedida ao programa Provocações, considera ser responsável pela sua compreensão, o pensamento Socrático-Platônico-Aristotélico, o qual coloca na linguagem ocidental uma estrutura de sujeito, verbo e predicado, em que sempre há um sujeito causador de alguma coisa.
Sendo assim, se pensarmos na realidade da educação, tanto em nosso território como em qualquer parte do globo, sempre associaremos os fatos aos sujeitos. Dessa maneira podemos pensar em coletivos, o que seria mais óbvio ao tratar de um contexto social. Certamente o coletivo de educadores, trabalhadores dedicados a docência serão referências em potencial ao se refletir sobre educação.
Ferreira (2011), referindo-se aos trabalhadores de educação, considera-os sujeitos adoecidos, alienados ao trabalho, às políticas estatais e como um ser político e agente histórico. O autor nos pontua algumas definições estabelecidas na década de 90 para educadores, numa fase de “proletarização” dos docentes, enxergando-os como “semi-profissionais”, pois se entendia nessa visão a existência de duas categorias, a de funcionários e a de proletários, em que o primeiro tinha autonomia e controle do processo de trabalho e o segundo que não possuía os meios de produção e vendia sua força trabalho.
Entretanto, essa idéia na perspectiva marxista está errada, pois todos aqueles que não possuem os meios de produção próprios são proletários, como pontua Ferreira (2011). Este considera, ainda, que o processo atual não é o de transformação dos docentes em proletários, pois eles sempre assim foram, mas sim, de aprofundamento da alienação e da precarização de suas vidas e condições de trabalho.
E isso acaba sendo reforçado pelo próprio discurso dos atores envolvidos, sejam eles educadores, educandos ou qualquer outro membro da comunidade escolar e pessoas externas, como autoridades públicas, comunidade civil, etc. E sendo o discurso uma produção social, constituído na relação linguagem-história-sujeito, entendemos o mesmo como uma forma de significação da realidade e dos próprios indivíduos, portanto, ao falarmos da violência existente na escola, dos currículos mal formulados, do adoecimento dos professores, estamos reforçando e afirmando uma idéia de espaço problemático e de sujeitos “patologizados”.
Foucault (1988), ao tratar da história da sexualidade, nos apresenta o discurso como lugar do poder. Quando mais se falou em sexualidade no ocidente, mais esta foi reprimida, pois colocou em discurso a norma, os parâmetros de normalidade, pois ela precisava ser vigiada.
Almeida (2005), ainda que não tenha olhado por tal perspectiva, aproximou-se, em certa medida, de um dos pontos da reflexão de Foucault, pois coloca que a concepção de qualidade tem sido construída a partir de modelos, o qual pressupõe parâmetros para sua avaliação. Dessa forma, os discursos sobre qualidade e reforma da educação visam uma padronização e universalização da matriz educacional. Ignora-se a subjetividade da maneira ser-estar, a singularidade humana e particularidades de certas comunidades. Ou seja, reforça um mal estar, pois exclui ou visa transformar o que ou quem se difere do modelo, pois a educação, os educares e o alunado também devem ser vigiados.
Tal autor defende que o ideal de qualidade é a não comparação, a incomensurabilidade, pois não se compara singularidades. E no sentido ontológico do ponto de vista de qualidade ninguém é melhor que ninguém. Sendo assim, para ele é preciso ir à contramão desses discursos de melhoria da qualidade na educação, pensando numa qualidade das singularidades humanas. É preciso aceitar e respeitar as subjetividades associadas ao ser-estar, não como uma unicidade, mas como uma multiplicidade de singularidades, sem hierarquias de seres humanos e povos.
É preciso enxergar e dar autonomia aos atores da educação, não silenciá-los quando mais se fala em educação. E não estar alienado é também não render-se ao que está dado, inclusive quando se trata de qualidade. Deve-se contestar, pois por mais que as condições de trabalho estejam precarizadas é preciso considerar que não se trata apenas de alguém que causou alguma coisa, como nos sugeriria as estruturas de linguagem baseadas no pensamento Socrático-Platônico-Aristotélico, ainda que os discursos sejam parte da significação da realidade e sujeitos. Para mudar o que consideramos precário necessitamos primeiro julgar o que seja qualidade para nossa vivência e experiência humana no mundo. 

  • ALMEIDA, D. M. de. Subjetividade e discurso da qualidade educacional: contra a difamação docente (2005). 
  • FERREIRA, C. R. Pauperização e alienação do trabalho docente: contradições e perspectivas para o movimento dos trabalhadores de educação (2011).
  • VIVIANE MOSÉ em entrevista concedida à  Antônio Abujamra no programa Provocações (TV Cultura):

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

A liberdade do oprimido

A sociedade contemporânea, sobretudo uma conjuntura social de classes, tem suas ironias e contradições: O opressor, pela necessidade de se manter no poder, restringe e sufoca sua experiência de vida. A ânsia em oprimir e o medo de perder uma posição de conforto deixam os sujeitos presos a um único modelo penoso a todos, um exemplo quadrado como sua própria consciência de si. Já o oprimido, pelo simples fato de apenas resistir à opressão, se vê mais livre de determinadas amarras. Não que este não sofra, só é mais franco em algumas situações. Sua subversão confere o bônus de não viver à custa de uma ordem e um padrão estabelecido.
Hoje escutei um comentário de uma mulher que dizia não adotar um cachorro vira-lata, pois o marido só queria se fosse um de raça. Tava na cara que essa era a opinião dela, mas projetou-a ao marido. Diante de uma situação constrangedora para uma doce e nobre senhora, desculpou-se dizendo não ter preconceito.  Sua filha, uma pequena de aproximadamente sete anos, foi embora da clínica veterinária chateada por não levar o casal de filhotes que estava nos braços. Penso no que essas mães ensinam aos seus filhos.
Minutos depois, indo para casa, estive atento a conversa de duas moças no ônibus. Pareciam colegas e comentavam sobre o tempo abafado. Uma delas falava rindo à outra que montaria uma piscina em casa e que nadaria o quanto antes, pois os ratos roeriam o plástico. Não só a amiga, mas várias pessoas riram da espontaneidade da passageira ao relatar sobre seu momento de lazer, inclusive eu e uma menininha ao seu lado. Sua falta de pudores não só deixou-a liberta como trouxe o que há de mais interessante entre os humanos, a identificação com o outro. Pois naquele calor, todos certamente gostariam de fazer o mesmo.
Sustentar um status é ilusório, pois demanda uma força sobre humana, que precisa estar sempre antenada, ligada, quase persecutória. E como o status é performático, se desmancha com o tempo e dissolve-se nas ações.  No mínimo, quem busca sempre alimentá-lo, perde sua autenticidade e vive enjaulado. Isso me faz recordar uma charge do Laerte, em que retrava o consolo dos prisioneiros. Na reflexão ele mostra um passarinho preso à gaiola, que fica aos gritos taxando todos os estereótipos marginais ao padrão de poder: “Gorda, feia, viado, preto, aleijado, anão, pobre (...)”.
A opressão é a fuga dos cárceres da ignorância. E para a última, não há fiança que lhe pague.

domingo, janeiro 29, 2012

Alice no país das maravilhas

A pesquisa Datafolha, realizada nos dias 26 e 27 de janeiro na cidade de São Paulo, aponta que 82% da população paulistana aprova a operação da polícia na cracolândia.  E contrariando a idéia leviana e politiqueira de muitos, mesmo dentro de qualquer categoria (partido político, idade, escolaridade e renda familiar) a aprovação estava muito acima da rejeição.
Não só a comprovação de uma visão alienada das realidades contidas em cena, essa pesquisa mostra o valor policial, do controle em nossa sociedade, a qual sempre precisa ser vigiada, punida e castigada. Revela nossa ignorância e menoridade em tratar das pautas e interesses coletivos. A ausência de maturidade para enfrentar o caos nos traz um preço alto enquanto civilização – a morte e opressão de muitos homens e mulheres.
A questão vai muito além do tráfico de drogas, afinal, nesse país quase tudo se comercializa às avessas, e mais, causa dependência física e psíquica. Exemplificando, o tráfico de influências, a indústria farmacêutica, o comércio da fé. E o argumento do Estado, aprovado pela maioria, é o combate às drogas.
De fato, a dependência de substâncias como a cocaína e o crack traz inúmeros malefícios tanto aos sujeitos, usuários e familiares, quanto para a comunidade, haja vista as conseqüências como o crime organizado, as demandas dirigidas ao SUS, etc. Mas isso não é uma exclusividade dessas drogas, considerando os danos que as gorduras, os açúcares, os remédios, os parlamentares e os fundamentalistas causam também aos indivíduos e sociedade.
 Assim, imaginem se resolvêssemos aplicar o mesmo tratamento aos hipocondríacos, aos políticos e aos fundamentalistas religiosos. Certamente entraríamos numa guerra civil crônica.
Os resultados supostos para a ação deixam claras as intenções: marginalizar e invisibilizar os problemas sociais.  Pois, 82% dos entrevistados também acreditam que a operação fará com que os usuários busquem o crack em outras regiões da cidade.
Essa pesquisa desvenda que as pessoas não querem tratar do problema e sim projetá-lo na periferia e controlá-lo. Assim é mais fácil, não é? É tão mais simples por cerca elétrica no muro, por seguro no carro, pagar um bom plano de saúde, não é mesmo? Discutir políticas públicas, pautas e problemas de interesse coletivo requerem tanto tempo, vontade e concessões. A maioridade é tão pesada que o melhor é nem ver e discutir isso. Assim, é como se não existissem os conflitos e as crises sociais. Bom mesmo é não deixar a menoridade e viver pra sempre no país das maravilhas.


quarta-feira, novembro 09, 2011

SOBRE OS ACONTECIMENTOS NA USP

Caro leitor, confesso que em meio a tantas opiniões chego à certeza de que as pessoas não estão falando da mesma coisa. Aliás, não é para menos. Um fato pôs em discurso inúmeros questionamentos a beira de uma explosão. Alguns ensaiam dar as respostas para que, posteriormente, venha confortar o ponto final.
Contudo, para nossa felicidade ou infelicidade, dependendo da ótica que olhamos, a experiência e história humana jamais terão uma pontuação que as limite no tempo, tudo é processo. Assim, não me preocupo em saber quem está certo, meu esforço nesse artigo é refletir quais são esses questionamentos que estão nos vindo à tona.
Faço isso, pois acredito que ninguém que luta por uma causa, seja nos moldes que for, deva ser tratado como vândalo ou delinqüente, por que acredito, também, que um coletivo, em hipótese alguma, pode esquecer-se de que suas bandeiras não devem limitar-se a benefícios em que apenas seus pares sejam beneficiados.
Em pauta nas discussões sobre os acontecimentos da USP vejo posicionamentos em relação ao controle do Estado, ao acesso nas universidades públicas, à concepção de crime para o uso da maconha, à gestão do movimento estudantil na atualidade.
A respeito do controle do Estado e a partir da força policial, penso que cada comunidade deve escolher a forma como quer ser organizada. O argumento de que o policiamento é necessário cai por terra se compararmos o índice de criminalidade e violência na universidade e fora dela.
Não se trata de uma visão simplista pelo desejo de um "baseado", e sim um direito de liberdade, inclusive, de ser responsável por suas próprias escolhas. A maconha sempre existiu nos contextos universitários e em muitas culturas ela é utilizada, mas diante de um cenário conservador ela é vista como um pecado para que os pecadores sejam julgados. Bem, há de se considerar que, por ser ilegal, movimenta um mercado paralelo oneroso a toda a sociedade, entretanto, o comércio legalizado também me assusta, considerando o poder que a indústria farmacêutica tem hoje na sociedade brasileira.  Temos que refletir.
Outro ponto, é que não querer identificar-se como indivíduo é também mostrar-se como um coletivo, uma força conjunta. Não só os estudantes não quiseram se identificar, os agentes da Polícia Militar também não estavam identificados, como deveriam estar.
Com relação ao acesso, é certo que o burguês tem mais chances de entrar hoje numa universidade pública, haja vista o descaso crônico com a educação fundamental e ensino médio por parte de governantes como Geraldo Alckmin que por anos esteve à frente do governo do estado e hoje manda a PM na USP. Por outro lado é bom deixar claro que muitos alunos de baixa renda, de diversas partes do país e extratos sociais estudam nas inúmeras universidades públicas Brasil afora, tal como na Universidade de São Paulo. Às vezes me parece que afirmar ser a USP um espaço da elite é reforçar um poder de classe, como se fosse uma comunidade homogênea, uma casta superior. Não é!
Será mesmo o burguês que, sem ter o que fazer e sustentado pelos pais, procura um movimento sem causa? Podemos resumir assim? Nos meus anos de graduação não via esses “playboyzinhos” preocupados com isso não, aliás, muito pelo contrário, por suas condições mantinham-se em posição de conforto, não participavam de assembléias, raramente se dedicavam às programações de interesse público e coletivo e pouco se importavam com as transformações na universidade e suas responsabilidades frente à sociedade que a mantém. Apenas preenchiam seus currículos acadêmicos para ostentar o título de sua profissão e universidade, como uma marca. Não é a toa que as faculdades e Institutos da USP com os cursos mais concorridos, onde certamente concentram os tais filhos de papai, são sempre os últimos a aderirem um movimento.
O fato, como bem posiciona Clara Roman, na Carta Capital, é que o movimento estudantil, dividido em tribos enfrenta radicalismos. A comunicação dentro da própria comunidade está difícil, um reflexo da sociedade de hoje, do individualismo, da despolitização, da falta de interesse pelo coletivo, pelo público. Uma conjuntura social prisioneira de uma crítica pontual.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Gruta Dainese - Pelo direito à memoria

Lembro-me como se fosse ontem quando eu e meu irmão gêmeo passávamos as tardes no bairro vizinho ao que fomos criados, ficávamos na casa de uma senhora, a Dona Perpétua, que nos cuidou por nove anos enquanto minha mãe trabalhava. Saíamos quase todas as manhãs da Vila Dainese rumo ao São Roque, primeiro para ir à creche, depois ao parquinho e anos mais tarde para freqüentar a quarta série do ensino fundamental na escola estadual Marcelino Tombi.
São tantas lembranças de infância, como as brincadeiras de rua, as travessuras em meio às árvores e aos grandes, diria gigantescos para época, canos de uma futura obra pública de saneamento no bairro. Não me esqueço quando num entardecer uma cobra surgiu no terreno da casa do nosso amigo Renan. Foi um rebuliço na rua, vizinhos correndo para ver a rastejante que nos parecia uma coral, de listras vermelhas, brancas e pretas. Com sucesso o avô do nosso amigo conseguiu se livrar no animal peçonhento.
Provavelmente, como todos diziam, vinha ela – a cobra - do buracão. Assim era conhecida a região da Gruta Dainese. A ausência de uma identidade para aquele local o transformava num simples orifício que rasgava a terra e corria uma nascente. E de lá surgiam também diversos causos alimentados pela garotada e até pelos idosos. Uma de um gado que teria escorregado em uma das quedas d’água de lá, outra que um garoto ao brincar de trampolim caíra na pequena represa que se formava entre as pedras, mas que nada havia acontecido.
A última vez que estive lá foi nesse ano mesmo, junto a um amigo que mora ao lado da gruta. Eu que sempre fui apaixonado por aquele lugar, não me esqueço de uma frase que ele me disse nesse passeio: “Nossa, tinha até me esquecido como aqui é bonito”. E penso o quão triste é saber que até as pessoas que amam aquele local, porque sei que ele compartilha desse sentimento comigo, esquecem de alguma forma que ele existe.
Daí, entendo que isso se dá por essa desconstrução de identidade local, por exemplo, ao chamarmos de buracão, algo tão genérico que se perde perante o simples significado de todas as coisas que classificamos como um furo, uma abertura. Não é como falar do Jardim Botânico ou do Zoológico Municipal que estão, na medida do possível, preservados. Pelo menos os moradores dos nobres bairros que estão no seu entorno não reclamam. Entende o que quero dizer, caro leitor?
Trata-se de um silêncio público, sobretudo de nossos gestores que transformam a gruta nesse buracão. E para os colegas munícipes que não conhecem tal local eu descrevo-o em apenas algumas palavras. A Gruta Dainese trata-se de uma das maiores, se não a maior área natural de Americana, possui três quedas d’águas, uma delas de 18m de altura, paredões de pedra, bromélias, samambaias, e outras espécies vegetais de mata atlântica. Quando eu mostro algumas fotos que tirei esse ano ninguém acredita que é em Americana. E sabe o que nós munícipes e gestores públicos fazemos dela? Um buracão.
Eu já perdi a conta dos milhares de reais que a gruta já recebeu nos últimos anos, eu particularmente suponho e contabilizo mais de 12 milhões nos últimos dez anos. E nesse tempo só vi cercarem uma parte de seu entorno, com alambrados que hoje nem existem mais, e agora estão construindo uma pista de caminhada às suas margens. Apenas isso. Pergunto-me para onde foram todos os recursos captados nos últimos anos? O que foi feito de educação ambiental e preservação da memória das comunidades do entorno? Quantas mudas de árvores foram plantadas para recuperação da flora, inclusive nas áreas que estão sofrendo erosão?
Desde os tempos de menino, sempre acompanho o que acontece com a gruta e só a vejo nos discursos dos gestores públicos em época de eleição. Um desrespeito total para com os cidadãos, para com suas responsabilidades públicas e profissionais, para com o mundo. Nem mesmo o partido verde (PV) que por seus princípios ambientais deveria cuidar desse patrimônio, nunca vi militar, de fato, por essa causa. Nenhum político até hoje levantou essa bandeira como se fosse a mais importante. O máximo que fazem é serem simpatizantes a uma ação do outro, até porque quem discordará em preservar um patrimônio ambiental? Bem, até alguém querer, já perdemos o direito à nossa memória, consumimos um patrimônio não só ambiental, mas imaterial também, como os contos da meninice.
Vamos salvar a gruta!

Veja mais fotos pelo link: http://turismoamericanasp.blogspot.com/2011/03/gruta-dainese.html

Um trabalho bem interessante que encontrei no YOUTUBE, feito pelo GEFAU, bem diferente do vídeo institucional feito pela Câmara Municipal do município em que, lamentavelmente, os vereadores não sabem nem distinguir a diferença entre Mata Atlântica e Floresta Amazônica.
http://www.youtube.com/watch?v=m1Egv8mKYus&feature=related

quinta-feira, outubro 20, 2011

Imagem do dia: A morte de Gaddafi



Revolucionários contrários ao ditador Muammar Gaddafi - Líbia. Foto: Folha de SP
 
  
Não apenas um mote da revolução francesa, os ideais “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” tornaram-se princípios universais. Estes certamente são defendidos por qualquer movimento que se choque com idéias e formas de governos contrários e antíteses dos valores proclamados por volta dos anos de 1790.
Um governo autoritário e ditatorial, como o de Gaddafi e tantos outros mundo afora, jamais estará alinhado com a liberdade humana, com a igualdade dos povos e com a fraternidade entre pares e etnias múltiplas.
Os revoltantes comemoram hoje a morte do ditador que assolou seu país em 40 anos sobrepondo aos princípios básicos à humanidade suas regalias. Mordomias estas que não se limitavam apenas ao poder soberano na Líbia, mas também ao acúmulo de riqueza em detrimento a pobreza extrema de sua nação, à luxos como inúmeras residências frente a miséria e  ausência de direitos sobre qualquer metro quadrado  por parte de alguns de seus conterrâneos.
Penso o quanto esses revolucionários têm a nos ensinar, não só pela luta por suas próprias vidas, mas por recuperar (ou manter vivo) os propósitos de uma transformação social baseada na ética, no valor humano, nos princípios de salvaguarda de um mundo em constante mudança. Assim, reflito o quanto as amarras, quase imperceptíveis, nos mantém nessa antítese dos ideais: Liberdade, igualdade e fraternidade.
Num contexto de conforto concedido ao custo da manutenção de um sistema, precisamos enxergar as atas que nos prendem e nos mantém alienados e limitados apenas as nossas realidades.  Precisamos nos armar contra as desigualdades ante uma realidade de todos. Penso quantos “Gaddafis” mantêm-se escondidos na maquina pública extorquindo não apenas a riqueza material de um povo, mas seus direitos básicos à vida, ao bem estar, à vivência digna do que vem a ser a experiência humana.  
Sendo assim, iniciativas contemporâneas como as proclamadas pelos atos contra a corrupção serão sempre bem vindas.  E por sorte ou conjuntura não precisamos das armar usadas pelos homens líbios. Cabe pontuar que uma de suas pautas tem a obrigação de ser discutida nas casas de leis – tornar atos corruptos crimes hediondos. Não podemos nos sujeitar a apatia e deixar que representantes públicos saiam ilesos diante de atos que furtam tais direitos. Não podemos aceitar que determinados pseudos ministros e chefes de estado, vulgos sindicalistas e partidários nos roubem o que é de mais digno a pessoa humana – a ética e o compromisso com os ideais coletivos supracitados.
Gostaria que a morte de Gaddafi nos trouxesse a vida, uma vida de esperança que nos salve de uma inércia alienante e que revigore a vontade de militar contra qualquer abuso de poder em qualquer parte do mundo. E mais, que nos mova à ação. 

 

sexta-feira, setembro 30, 2011

Inconstância

Não é porque não te quero por um momento que não te desejo para a vida inteira. Talvez eu sempre precise de um tempo só meu. Não quero um amor finito a um único tempo, minhas ambições afetivas são atemporais. Meu amor, eu desejo e quero reinventá-lo para que seu tom não seja demasiadamente marcado em mim, pois não quero uma pintura manchada e sim um desenho em cada detalhe, afinal só uma obra de arte fica para a eternidade.
Eu até posso buscar e vislumbrar outras telas, outros corpos, em que eu transcreva e transponha em traços abstratos meus sentimentos, contudo, nenhuma delas será tão completa quanto você. Em nenhum deles haverá espaço suficiente para que eu registre os contornos mais fortes em que os românticos possam se identificar.
Não quero uma obra feita, acabada por suas perspectivas de retoques finais. Eu quero um esboço de amor, um rascunho meu, nosso. Não suponha que um amor diferente seja menor. As medidas de um sentimento jamais serão passíveis de estabelecermos justaposições. E não julgue minhas intenções particulares exclusivas a mim, pois elas são nossas e buscam um amor verdadeiro desvinculado de padrões e projetos de outrem.
Alguém que a vida inteira sonhou, ao encontrar a razão, não poderia deixar de conduzir a fantasia ao real. Por isso, não me cobre mais que o amor verdadeiro, livre, liberto. Eu quero um sonho em carne e osso. E ter, para nós, um amor planejado aos moldes dos outros é o mesmo que ignorarmos sua essência e transformá-lo em cópia. Seria o mesmo que reduzi-lo a inverdade de um sonho inventado. 
Assim, promessas jamais serão condizentes com a liberdade. O amanhã já é muito para garantia de que estaremos presos um ao outro. O amor deve estar salvaguardado hoje, como o carinho e a conquista de agora. Só assim, no futuro, seremos os artistas de nossas próprias telas e poderemos tê-las como nossas.


LINIERS

segunda-feira, setembro 26, 2011

Realidades desconexas



Os gritos preenchidos com palavras de ordem me faziam refletir sobre tantas coisas presentes naqueles encontros. “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz” foi a frase que mais me marcou no 9º Congresso da UEE – SP (União Estadual de Estudantes de São Paulo) e no 51º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudante), ambos realizados em 2009.  Não sei ao certo se todos dirigiam suas falas e gritos a determinados atores, inclusive, suponho que não, pois nem todos estavam ali pelo mesmo propósito.
Assim, me perguntava quem seria o interlocutor de cada agrupamento ali presente e a quem se dirigiam os discursos. De um lado, era vista uma maioria esmagadora de representantes da União da Juventude Socialista (UJS), boa parte deles filiados e simpatizantes ao PCdoB. Estes eram, sobretudo, de universidades privadas. Do outro, pude notar alguns coletivos que se apresentavam como Frente de oposição à atual UNE - alienada, pelega e partidarizada. Estes eram compostos, principalmente, por alunos de universidades públicas.
Mais evidente que a escolha das bandeiras do movimento, que a eleição dos novos representantes, que a discussão sobre educação, política e mudança social no país era a briga de poder e a ausência de diálogo entre as duas grandes frentes que se chocavam naqueles espaços. Os protagonistas em cena revelavam a realidade mais comum vivenciada em nosso cotidiano, os conflitos e opressões de classe.
Se por um lado pouco politizados eram os colegas da UNE e da UJS que haviam passado nas Universidades e Faculdades Brasil a fora arrebanhando delegados sem qualquer discussão e reflexão para os congressos supracitados, por outro não me soava legitimo, naquela conjuntura, o discurso de uma minoria elitizada de estudantes de universidades públicas que se enxergavam como os detentores da sabedoria e ignoravam e invisibilizavam uma realidade ali presente.
Nem todas as ovelhas eram fies a seus pastores e podiam, sim, contribuir para uma transformação social, mesmo sem saber o caminho. Além do desmantelamento dos reais propósitos do movimento estudantil aferidos pela UNE, me incomodava o tom de superioridade em tratar da verdade daqueles que, em condição de elite, se julgavam conhecedores de uma verdade para todos.
Bem, há tantas coisas a se pensar diante desse relato que nem sei por onde começar, contudo, três questões me parecem de suma importância: O que é educação? E como ela é construída no Brasil? Igual e justa para todos?
Lendo uma propaganda de certa universidade privada em que apontam um ranking, o qual a posiciona entre as melhores do Brasil, pensei: Por mais tortuosas que sejam as contestações sobre um ensino privado, elas sempre serão bem vindas. Pois a educação deve estar o mais distante possível do mercado, para que não se transforme em mercadoria, como em muitos casos já acontece, por exemplo, na matéria publicitária.
Aliás, nem mesmo as universidades públicas e seus pupilos devem estar atentos e presos a classificações e rankings e sim preocupados com a educação e busca do saber para toda a sociedade e não apenas para si. Devem, ainda, pensar na mudança social sem se olhar como protagonistas e donos da verdade.  É preciso que conectemos as realidades desconexas, se é que em algum momento elas estão dissociadas.  

domingo, setembro 18, 2011

Violência doméstica


             Caro leitor, novamente falarei sobre temas que causam repulsa, para alguns, sobretudo quanto a abordagem. Não que eu desconsidere o desconforto destes, contudo, diante de um cenário de violência em que vivemos é preciso refletir sobre as causas que o constitui. De maneira que, juntos tentemos entender algumas das realidades que nos atravessam. Hoje discorrerei sobre a violência doméstica e uma das perspectivas de sua origem.
            Fico admirado com a quantidade de mulheres que conheço e que sofreram ou sofrem violência dentro de suas próprias casas. Em quase todos os lugares que trabalhei, sempre tive uma colega que me relatava casos de abuso por parte de seus companheiros. Na última vez que estive em Sorocaba, soube, através de um amigo, que uma colega nossa da universidade tem sido agredida pelo parceiro. Talvez essas mulheres são parte dos números que apresentarei em seguida. Digo talvez, porque não sei se elas, em algum momento, denunciaram seus agressores.
            De acordo com a Agência Brasil, de abril de 2006 a junho desse ano, em apenas cinco anos de vigência da lei Maria da Penha, foram registrados 435 MIL relatos de violência. Só nesse ano foram mais de 293 mil atendimentos prestados pela Central de Atendimento à Mulher (Disque 180). Tratando das formas de agressão a partir do montante total, aproximadamente, 141 mil referem-se à violência física, 62 mil à brutalidade psicológica, 23 mil à agressão moral e 05 mil ao abuso sexual.
            Bem, o que faz delas reféns de seus próprios cônjuges? Por que a dificuldade em resistir? Quais são os fatores que tornam esses homens tão violentos? Pra mim, a resposta é a construção de uma cultura machista. Uma cultura baseada em poder, crenças e costumes. Perversa não apenas à mulher, mais ao homem também. Vítimas passivas e ativas de uma lógica opressora. E cabe a nós não negligenciarmos tais dados.
            Pensemos pela ótica religiosa, sendo ela parte de nossa cultura. Num país cujos valores do cristianismo são pregados e proclamados por todos os cantos, e que, para alguns, tratam-se de verdades absolutas, devemos refletir como tal crença cotidianamente e silenciosamente vai enraizando-se em nossa realidade.
            "Vós, mulheres sujeitai-vos a vosso marido, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” (Efésios 5:22-24)
            "O homem não deve cobrir a cabeça, porque ele é a imagem e o reflexo de Deus, a mulher, no entanto, é o reflexo do homem. Porque o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem." (1 Coríntios 11:7-9)
             Pensar como tais passagens bíblicas se contextualizam em nosso dia-a-dia parece-me uma tarefa complexa, conseqüentemente, nada fácil. Contudo, não tenho dúvida quanto às formas em que elas se materializam e de que se faz necessário o exercício de contestá-las. Entendo que trechos soltos não traduzam o sentido de uma realidade, mas não podemos desconsiderar que eles são parte dela.
            Embora eu vislumbre algumas hipóteses, pergunto-me o porquê as igrejas não tratam ou pouco falam de uma violência tão comum nas famílias brasileiras. Afinal, das 435 mil mulheres que relataram a violência nos últimos anos, 72% de seus agressores são seus cônjuges. Gostaria que as igrejas se preocupassem e discutissem, em seus cultos e encontros, o bem estar social, a saúde física e mental, bem como as múltiplas realidades de todos os sujeitos, enquanto pessoas humanas.

            A lei 11.340 – “Maria da Penha” – dita, em seu Art. 2o, que “Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social”.

               

segunda-feira, setembro 12, 2011

Pronunciamento de Dilma Rousseff em 7 SET



TÓPICOS APRESENTADOS PARA ANÁLISE E REFLEXÃO:

¾      Inovação do mercado diante da crise internacional;
¾      Mérito dos brasileiros;
¾      Qualidade de vida e acesso aos serviços públicos;
¾      Melhor educação, saúde e segurança;
¾      "Na complexidade da vida em sociedade, cada conquista gera um desafio" - Aumento do emprego, necessidade de mão de obra qualificada;
¾      Aumento das Instituições de ensino Federais e programas de incentivo a formação qualificada e de pesquisas externas;
¾      Combate às drogas, em especial o crack, com apoio às vitimas. Em uma ponta o controle das fronteiras, na outra a criação de uma rede de apoio em saúde mental de múltiplas frentes;
¾      Brasil sem miséria: Retirar 16 milhões de pessoas que vivem em extrema pobreza;
¾      Brasil Maior: Defesa e incentivo às empresas nacionais;
¾      PAC: Um dos maiores programas de Infraestrutura do mundo;
¾      Minha Casa, Minha Vida: Programa de habitação popular;
¾      PRÉ-SAL: Riqueza a se transformar em bem estar para um povo;
¾      Combate à corrupção;
¾      “Mostrar que o maior valor que podemos alcançar, para nós e não para o outro, é o de garantir a qualidade de vida dos 190 milhões de brasileiros”.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Uma conversa de facebook

Já que esse blog é construído e esboçado hoje a fim de trazer ao leitor um discurso manifesto, penso nas múltiplas possibilidades de explorá-lo. De maneira à melhor atender seus objetivos. Obviamente, concluo que os diversos discursos serão da maior valia para uma construção da reflexão humana, pautada nas diferentes perspectivas e realidades, as quais convivem no mesmo espaço e/ou diálogo.
Bem, recortei e colei uma conversa trocada numa rede social na data desta postagem. Os nomes são fictícios, de forma a preservar a identidade de seus autores. Registro, ainda, minha profunda admiração por Gláucia, precursora desse debate que possivelmente não terminará num ponto final. Certamente, aqueles que participaram da conversa, bem como aqueles que a leram, darão continuidade, nem que seja no dia seguinte ou daqui dois anos, quando pensarem em todas ou uma das perspectivas e realidades contidas em cada discurso.
A linguagem e compreensão do mundo é assim: processo.
 ***
GLÁUCIA: "Essa é uma forma de dizer que país queremos, com moralidade e justiça. É um grito que precisa ser ouvido (...) A classe média saiu de casa e veio para a rua. Foi assim com as Diretas-Já e com o impeachment. É assim que começa", disse o presidente da OAB durante a marcha.
ROGÉRIO: Começa o quê mesmo?
TATIANE: é assim que começam novas amizades e tal, mais amigos no facebook, mais fofocas sobre a vida dos outros, essas coisas...
ROGÉRIO: Ah, tá, só se for...
JOÃO: É assim que começam a vender dindins/geladinhos tão deliciosos quanto os de goiaba e de coco que chupamos hoje...
GLAUCIA: Vamos lá.
Ficha Limpa - o projeto circulou por todo o país, e foram coletadas mais de 1,3 milhões de assinaturas em seu favor – o que corresponde a 1% dos eleitores brasileiros (a iniciativa popular - prevista na Lei Magna - só se efetiva ...como PL quando se apresenta ao menos 1% de assinaturas de todos os eleitores do país);
Diretas já - movimento popular/civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil ocorrido em 1983-1984, depois de anos de regime de ditadura (na maior manifestação pública da história do país, a Praça da Sé recebeu mais de 1,5 milhão de pessoas);
Impeachment - movimento popular de maioria estudantil - os caras-pintadas - exigindo o impeachment de Collor, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, além de não ter conseguido controlar a inflação “quase exponencial” de 80% ao mês e custosos gastos públicos. O último dos encontros reuniu mais de 750 mil no Vale do Anhangabaú;
Parada LGBT de SP – evento anual de orgulho gay, considerada a maior do mundo – recordes de mais de 3 milhões de pessoas -, que reivindica especialmente o combate à homofobia, dentre outros direitos civis, a exemplo do tema do ano de 2009: “Pela Isonomia dos Direitos”. A maior vitória foi certamente a decisão do STF, ainda há pouco, pelo reconhecimento da união estável de casais homossexuais;
Cada vez mais eu tenho a certeza que só se “começa” uma mudança (ainda que pequena) pelo impacto de um grande público. Esses exemplos corroboram aquela máxima, por vezes usada de maneira prosaica, de que “a voz do povo é a voz de Deus”. 1,3 milhão para Ficha Limpa, 1,5 milhão para Diretas, 750 mil para Impeachment, 3 milhões na Parada Gay, etc. Ainda tem a Marcha das Margaridas, Marcha das Vadias, Marcha contra a corrupção...
Dizer que a Marcha da Av. Paulista só teve quorum porque a tal “classe média” não iria viajar num feriado de meio de semana - e por mais que eu tenha severas críticas à (limitada) amplitude classista, étnica, racial e de gênero desses movimentos - me parece de uma tamanha mesquinhez, reacionarismo e conformismo, sem igual. Chega a me dar asco.
OSCAR: Mudanças Sociais no Brasil :D É sempre bom acreditar nelas. Desmonte de ditaduras no norte da África, reivindicações em países europeus questionando a crise econômica crônica, marchas contra corrupção, passeatas pela descriminalização da maconha, paradas pela diversidade sexual e de gênero, manifestos por um mundo mais justo são sempre bem vindos para contestar um sistema econômico e social. Independente dos motivos, o exercício de ir às ruas (espaço público, não privado) já é um avanço incrível nesse contexto que nos assola e oprime TODOS OS DIAS e que nos deixa presos a tantas amarras e pudores frente a transformação. Glaucia, procure o artigo do Arnaldo Jabor que saiu na última terça (6), no caderno 2 do ESTADÃO. É muito bom. Eu adorei.
GLAUCIA: Esses "intelectuais" me dão gastura. hhahaha Mas verei.
ROGÉRIO: Nossa agora meu sensor deu tilt: uma série de argumentos revolucionários redundaram no Jabor. Bizarro! E mais: Jabor = intelectual? Desculpa, não entendi mesmo mais nada agora.
Glaucia e Oscar, toda glória à manifestação popular, óbvio! O que merece ser bem pesado é a real capacidade desses movimentos - muito mais performáticos do que transformadores, além de ser inteligentemente captados pelos jornalões, do jeito... que lhes convém - nos levarem à redenção contra corrupção, safadeza, preconceito, racismo, etc! A catarse coletiva fica muito bem na foto; manter o espírito de mudança, no dia a dia, é algo que custa bem mais (e dá muito menos IBOPE). E de hipocrisia, meus caros, o mundo tá cheio! Grande e sincero abraço!
OSCAR: É, (de fato) na sociedade do espetáculo, o que importa é a performance. Já dizia certa rainha "mais do que ser, é preciso parecer". Assim, como parte dessa sociedade, penso que olhar para o mundo e seus defeitos é também olharmos o que temos de sua podridão. Usemos de suas armadilhas como nossas armas. Até podemos dar um tiro no pé, mas assim teremos um exército numa luta que é de todos. O texto do Arnaldo Jabor retrata bem o espírito e ideologia que se dissolvem com o tempo, seu saudosismo talvez seja desse espetáculo de outrora. E se há saudade, é porque, de alguma forma, ele acredita que ali existiu algo que ultrapassava a performance. Nem que seja uma ótica burguesa, pra mim, até a ilusória mudança social se pensada/feita por qualquer coletivo é válida. São munições para revoluções além dos microespaços, tão desgastantes a todos aqueles tentam colocá-las na prática.
GLAUCIA: Endosso a leitura de: A sociedade do espetáculo - do francês e neomarxista Guy Debord. A luta de classes contemporânea se revela e se reproduz diariamente na aparência, enquanto a melhor forma de apartar as classes. Mais do que ser burguês, é preciso parecer burguês. Mais do que não ser proletariado, é preciso não parecer proletariado. Ora, isso põe em xeque ou acalora o debate acerca de nossas militâncias. Será que a performance faz menor a causa? Confesso que me senti usurpada quando soube, há pouco, que o PSDB estava na manifestação de ontem filmando e fotografando este “furo de reportagem” para seu programa partidário. E igualmente estarrecida com a abordagem dada pela Veja – PiG-mãe do inferno! – na reportagem sobre o pré e pós marcha (me lembrou o próprio Impeachment, incentivada em rede nacional pela TV do Marinho). 
Embora todo o ceticismo de Carta Capital ,
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-revolucao-nao-partira-do-vao-livre-do-masp e também de outros veículos centro-esquerda, só me reafirme a ânsia pela crítica ao “movimento da classe média cansada” (que dó de você!) e pelo debate acerca da “classe média hipócrita”, não poderei deixar de concordar com Oscar, quando diz que: “até a ilusória mudança social se pensada/feita por qualquer coletivo é válida” (pondero apenas o pronominal “qualquer”, não posso ser tolerante a todo tipo de coletivo!). Aliás, se é para relativizar, chega a ser mais nonsense ainda os “medianos” (em classe e em pró-atividade), que assistem a marcha pela Rede Globo, julgam-se politizados ao censurar uma marcha forjada e, honestamente, não se interessam e nem conseguem mobilizar a luta contra a corrupção e impunidade no seu cotidiano.