segunda-feira, maio 27, 2013

Fragmentos

(...) É que o aburguesado não suporta ver-se apartado das elites, seja qual for. Se eu acreditasse nos pecados capitais diria que vários deles são muito gulosos, não por nutrição e por esquecerem-se dos miseráveis que passam fome, mas por não estarem nunca satisfeitos, serem exagerados, demasiadamente demagogos. Querem sempre mais, consumo cultural, intelectual, tudo banal.

***

É sintoma físico. Ultrapassa a alma, penetra a carne, coopta o Eros e transpassa a pele. É chagas ao deitar, pânico ao levantar. Invade, ocupa e hospeda-se sem que peça, atravessa e dispersa. É nó que sufoca, provoca e tira apetite, difícil de desatar. Prende-nos e liberta-nos em ideias, planos e sonhos. É grito sublimado em suspiro, pulsão de vida e morte. Um querer avassalador e finito. É simples apaixonar-se. Um contato íntimo, mesmo que subjetivo, entre o Eu e o Outro.

***


Livre pensar e agir para nossa pequena, quase que insignificante, prática no mundo. Quiçá alçar pelo menos o reconhecimento e conquistar alguns dos frutos daquilo que pretendemos de concreto, pois os sonhos e a ideologia nos saem caros de mais quando um rio já poluído nos trava, mesmo quando almejamos o mesmo destino. Bem dizia Kant, que a liberdade não está dada, ela se constitui em processo. Livre pensar e agir nesse mundo do reconhecimento, atravessado por tantas ideologias que nos travam e nos deixam sem destino.

***

Não toca mais os poros, os pelos, o peito. Toca na rádio, no som, na alma. Soa sino, sua pele, soa a sua melodia, sem que interpele e fale. Escuta-se e sente-se.  

terça-feira, maio 21, 2013

Americana no "Proteste Já"


            Ainda que eu não acredite na mídia como modelo de participação política, por ora é um dos poucos meios que tem gerado respostas rápidas aos descasos e desmandes de autoridades públicas. Diante da politicagem contemporânea, em que os votos dizem mais que qualquer ética e compromisso social, não importa a realidade, mas o que se vê e percebe-se dela, mesmo que superficialmente. Mais uma vez, a cidade do espetáculo, da performance, como definiriam alguns autores, move-se apenas por aquilo que se tem visibilidade. Contudo, aprendamos a lidar com o que temos para o agora, objetivamente. Mesmo que carreguemos o peso de uma possível alienação, o pragmatismo nos põe em ação e os movimentos precisam disso. Mais uma vez um escândalo envolvendo a gestão de Americana. E não são poucos os fatos que descredibilizam e deslegitimam a atual gestão. Só para refrescarmos a memória:
            Denúncias de irregularidades nas obras atreladas ao PAC - Programa de Aceleração do Crescimento na Avenida Brasil. Executivo, num retrocesso pela transparência democrática, propõe revogação da lei mentor - a qual obriga a prestação de contas com gastos de publicidade e câmara aprova em bloco pela base aliada. Fantástico mostra a investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) de Sorocaba, a qual aponta suspeita de propina com envolvimento do prefeito e secretário da saúde em parceria com a instituição SAS. Ministério Público eleitoral acusa prefeito Diego De Nadai e seu vice de terem praticado caixa 2 na campanha por conta de um montante de R$ 350 mil que não possui comprovação. Ministério Público Federal recebe uma denúncia de fraude no SUS, em que a direção do hospital municipal está "coagindo" médicos a registrar internação mesmo quando os pacientes são atendidos e liberados – para receber repasses do governo federal. Corrupção associada ao projeto 2º tempo, ligados a Federação Paulista de Xadrez (envolvendo R$ 3,4 milhões) – Investigação do MPF de Piracicaba. Nepotismo – Diego De Nadai nomeia irmã como secretária da promoção social e Paulo Chocolate contrata a própria namorada para assessorar a presidência. Diego De Nadai concede por meio de decreto uma área de 120 m² à Frente Regional de Defesa da Cidadania e dos Direitos Sociais cujo líder é seu assessor, Capivara. Esposa do ex-assessor da Prefeitura de Americana, Marco Antonio de Paula (Capivara), ocupa seu cargo após exoneração e recebe mais de R$ 50 mil como funcionária fantasma. Gestão de Diego De Nadai (PSDB) é investigada pela Polícia Civil sob a acusação de fraude na licitação que resultou na terceirização de parte da merenda escolar.
            A de hoje: a cidade aparece no quadro “Proteste já” do CQC por uma obra prometida há dois anos, sem qualquer avanço. Sejamos francos, será que o prefeito de Americana não teria como sanar esse engodo junto ao seu “padrinho” governador tucano? Ele não responde e deixa a tarefa ao seu assessor, que cá pra nós, não responde nada objetivamente. 
- Respostas por avaliação e diagnósticos não dizem nada, nos tragam o parecer e soluções, por favor! 
                Os representantes estão para isso. Curioso pensar que as obras da Avenida Brasil mesmo embargadas tiveram seqüência. Ah, como disse uma entrevistada, foi a eleição! Uma avenida central da cidade tem visibilidade, representa votos, portanto, deve estar bem iluminada! Aliás, com luminárias robustas a cada metro. Uma estrada às margens da cidade quem vê? Dessa vez, por sorte ou azar, dependendo a perspectiva, foi a mídia. E segue o link para vermos a matéria: 


domingo, maio 05, 2013

Beija-flor


Noites curtas e dizeres longos de uma escuta atenta
Diria do teu cheiro e mais um pouco daquilo e disto desta casa
Esquenta quando senta, assenta e acalenta
Ascende aquilo que nos põe em brasa
Roça rosto, roça corpo, roça, fala-me e inventa
O que de nós extravasa e vasa

Fuja, corra e saia daquilo que persegue
Ombros, queixos e cochilo
Raia o sol, deite e deleite-se antes que o amanhã chegue
Ria e sorria ao pensar nisto e naquilo
Eu, tantas coisas e este texto entregue
Abafado, contido, de quase tudo entre nós em sigilo

quinta-feira, maio 02, 2013

Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia


        

         Anteontem ensaiávamos a valsa de debutantes e logo amanhã já completaremos a maioridade. Hoje, aos 17 anos, novamente vamos às ruas para mostrar que ainda temos fôlego para dizer do que nos cala e nos põem a dizer cotidianamente. 
            O Uruguai aprova o casamento homoafetivo, a França torna-se o 14º país a reconhecer igualdade plena entre casais heterossexuais e homossexuais, São Paulo oficializa o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e autoridades de Uganda discutem um projeto de lei sobre a união homossexual. Marco Feliciano, deputado acusado de racismo e homofobia, é pauta nacional e alvo de protestos em várias partes do mundo por ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Daniela Mercury assume seu relacionamento com outra mulher. Empresas nacionais associam suas marcas à igualdade mostrando-se a favor do casamento igualitário. Um movimento pelas redes sociais surpreende positivamente: grupos de grandes times de futebol dizem não a intolerância. 
            Se por um lado notamos as mudanças, por outro, observamos as respostas reacionárias às transformações. A frente conservadora, liderada por fundamentalistas religiosos, ascende nas casas legislativas Brasil a fora. Parlamentares encaminham projetos de leis contrariando-se a laicidade do Estado. Internautas, sem qualquer compromisso ético, compartilham depoimentos preconceituosos, sexistas, machistas, homofóbicos e fascistas. Apesar de uma pesquisa do instituto Ifop apontar que 63% dos franceses apóiam o casamento homossexual, centenas de pessoas foram às ruas em protesto contra uma lei que garanta tal direito. Autoridades de Uganda, mesmo com a pressão internacional e de seus próprios cidadãos pelos direitos de homossexuais, realizam discussões de portas fechadas. No IV ato contra Feliciano, na capital paulista, um jovem sozinho atira uma garrafa de coca-cola cheia contra centenas manifestantes que estavam nas ruas. 
            O que leva tantas pessoas saírem de suas casas contra uma lei que garanta o direito a outrem? O que lhes interessa e afeta? De que coragem se vale um sujeito que, individualmente, agride um coletivo? Como se confere o ímpeto em julgar-se mais assertivo, justo e correto que todos os demais? Por que, ainda hoje, discutem-se pautas de interesse comum à surdina? Será que o intervencionismo religioso atroz não está preso a um período histórico, como a Idade Média?
            Se prestarmos atenção no cotidiano, o ataque e violência sobre sujeitos acontecem quando estes já estão desqualificados socialmente. Foi assim que se estabeleceu e tem se mantido a violência nas penitenciárias, a subalternidade dos negros, a agressão doméstica de mulheres, a exclusão dos imigrantes e a violação de direitos de homossexuais, sobretudo colocando-os nas selas, nos campos de concentração, nas cozinhas, nas senzalas e nos guetos, no lugar do não-dito, do invisível, para que sem história e memória não fossem e nem sejam dignos de respeito e direitos. Falamos de sujeitos e minorias que, historicamente e moralmente, são inferiorizados, silenciados e desprestigiados socialmente. Repetimos tais retóricas, pois ainda que consideremos os avanços, não superamos as desigualdades históricas.
            Não podemos negar a existência do abuso de poder e da punição arbitrária daqueles que já são marginalizados pela pobreza. Não é possível que desconsideremos o alto índice de agressão que mulheres são acometidas em suas casas por seus próprios cônjuges. Não é sensato que continuemos a banalizar a dor daqueles que, próximos ou distantes, sofrem por serem refugiados e imigrantes. Não dá mais para fecharmos os olhos diante das falas racistas ao discutirmos cotas raciais. Não podemos apagar os números da violência homofóbica no Brasil. 
            Tudo isso compreende um discurso e história oficial compartilhados hegemonicamente e não podemos estar apáticos ao que nos oprime. As realidades e verdades são múltiplas, próprias de cada um, mas o registro e memória têm sido daqueles que têm o direito em defender a sua voz.        
            Aquele rapaz que, sozinho, agrediu um coletivo, trazia consigo todos esses discursos e histórico de opressão que invisibilizam sujeitos. A ponto de entender-se superior e forte o bastante para atacar. Ele não agiu sozinho e não foram apenas os franceses que o encorajaram e legitimaram, mas Feliciano, Bolsonaro, Silas Malafaia, etc. 
            Contudo, há de se pontuar também as glórias. Marcos Feliciano nos uniu! Mulheres e homens; negros e brancos; heterossexuais e homossexuais; brasileiros e estrangeiros; militantes, partidários e apartidários se somaram nas ruas de capitais, das cidades interioranas, e até fora do país, para dizer que “A nossa luta é todo dia, contra o racismo, o machismo e a homofobia”. Por isso, não se trata apenas de sua permanência, mas de históricos de militância pelos Direitos Humanos e pela promoção de minorias.
            Assim, reforçamos o Direito à Igualdade e o Direito de não sofrer privação arbitrária da liberdade. Marchamos para reivindicar que o Estado brasileiro cumpra com os princípios de Yogyakarta, conforme documento publicado, em 2006, pela ONU – Organização das Nações Unidas.   Pois, não admitimos mais o gueto e a subalternidade. Para o armário, nunca mais! – União e conscientização na luta contra a homofobia.


Fábio Ortolano. Assistente de comunicação da APOGLBT e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP. Pesquisa as concepções de Sexualidade e Direitos Humanos de participantes das Paradas LGBT de São Paulo e Campinas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.


Luiz Carlos Gracia

Dedico o presente poema ao titular desse acróstico

Lindo, adjetivo simples e completo,
Único quando, entre muitos, simplesmente é.
Impar talvez seja como te digo do
Zelo, desvelo teu em notar que estava ali por ti.

Cativante sabes que és.
Adorável menino, só por não parar de sonhar contigo,
Resta-me a dúvida do mínimo ser tudo o que me parece muito.
Louco, varrido, imaturo talvez eu seja por falar-te tais coisas.
O desejo é assim, se deseja e ponto.
Sinceramente, quero que teu sincero olhar saiba desse querer de pronto.

Gato garoto, de beleza marcante,
Ator principal e coadjuvante.
Raro rapaz rouba-me a cena com sua presença,
Contraceno contigo cada papel que me pertença.
Insisto porque não desisto e assim vejo a peça,
Ainda que não sejas o que espero, persisto que algum papel me peça.

***

*Título da postagem emprestado de Regina Brett


domingo, fevereiro 03, 2013

Entrevista de Silas Malafaia em "De frente com Gabi"




Dentre tantas falas irresponsáveis, revoltantes, incoerentes, rasas e levianas, gostaria de responder algumas, uma vez que o pastor clama por verdades que ele próprio alega serem de Deus.
Antes de qualquer coisa vamos à conjuntura e uma reflexão rápida para posicionarmos as respostas. Vivemos num país que desde a colonização fora catequizado pelo cristianismo. O cenário das correntes religiosas vem mudando, como aponta o IBGE, contudo, compomos uma nação esmagadoramente cristã, em que a bíblia mais que documento sagrado, representa para muitos a verdade absoluta sobre a história, sobre a vida, sobre o mundo, sobre nós mesmos.
Paralelamente a isso somos um país que cronicamente se esquiva em dar valor à educação e aos demais Direitos Humanos. Mais que dados acadêmicos, a realidade cotidiana nos mostra: assistimos ao sucateamento dos serviços básicos de atendimento à população. Inseridos num sistema capitalista em que o mercado dita sobre as ações do Estado, não tem mais importância se o serviço público não funciona. Os planos de saúde estão aí e as escolas particulares são ótimas opções para o vestibular. Pouco importa se tudo isso é vazio.
Não digo que a religiosidade associa-se à falta de educação, muito menos à ignorância. Contudo, ela oferece e representa uma possibilidade de leitura do mundo e de todas as coisas. Se não temos acesso à informação, outras culturas e outras perspectivas, como podemos deixar de reforçar o que está posto hegemonicamente?
Infelizmente, diante disso, os dogmas e os princípios das diversas religiões são instituídos como verdades para todos. É complexo, pois muitos que nelas acreditam, transformam e significam vários de seus sentimentos a partir delas, como a esperança, o otimismo, a fé, e acabam fazendo delas a única forma de compreender a realidade.
Não se trata de discordar de uma passagem bíblica, da defesa de um principio, de um pastor que defende o que acredita. É mais que isso! Responder às falas rasas de Silas malafaia é contestar a sobreposição e sobrevalorização de ideais e crenças, é protestar contra a opressão religiosa e o oportunismo frente à fé ingênua de tantos fiéis, é um grito contra a prepotência de pessoas que se julgam detentoras do saber sobre todas as coisas. Vamos ao ponto.
Primeiramente, Malafaia é incoerente, uma vez que defende uma perspectiva criacionista e para explicar a sexualidade busca sustentar seu discurso na biologia.
A biologia, por exemplo, tem se dedicado a buscar anomalias endocrinológicas, neurológicas e genéticas, entretanto, nenhuma pesquisa até hoje conseguiu comprovar e explicar a homossexualidade de maneira a se esgotarem os questionamentos. Até porque nem mesmo a biologia é objetiva como a matemática e a física. Se pensarmos na sexualidade humana, ela é totalmente atravessada pelo social, vejamos como concebemos a puberdade em diferentes épocas.
Quanto à psicologia, e aqui abro um parêntese para compartilhar um incomodo que julgo ser próprio de muitos psicólogos e estudiosos da psicologia ao ver o dito pastor se pronunciar em nome de tal campo do conhecimento, são tantas perspectivas dentro da própria psicologia, que não há como falar em consenso. Freud, precursor da psicanálise, em seus ensaios sobre a sexualidade, fala da pulsão e dos objetos sexuais. Trata da homossexualidade como inversão e não está de acordo com uma postura curativa. Acrescenta ainda que a leitura sobre a inversão advém do que o contexto permite. Já outra hipótese, dentro da linha comportamental, defende que a homossexualidade associa-se às experiências primevas, positivas e negativas, reforçadas em atos masturbatórios.
A medicina por muitos anos fez uso de manuais que conceituavam desvios sexuais, caracterizando perversões morais em patologias. Contudo, avançados os estudos, a medicina não considera mais homossexualidade como uma doença mental.
Thomas Laqueur, em Inventando o Sexo - Corpo e gênero dos gregos à Freud, relata como o sexo, sexualidade e gênero foi sendo concebido desde a era clássica até o modernismo científico. Por milhares de anos, por exemplo, acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, invertida, para dentro. Logo a compreensão desses três elementos (sexo, sexualidade e gênero) associava-se a um único modelo. Por volta de 1800 escritores começaram a atribuir as diferenças fundamentais entre homens e mulheres e aos finais do século XVIII o antigo modelo metafísico de compreensão do homem e mulher deu lugar a um modelo de dimorfismo radical, de divergência biológica. A visão dominante desde este século era, portanto, de que havia dois sexos, fato que determinava a vida política, econômica e social, bem como os papéis de gênero. Logo, estabelecem-se dois modelos para a leitura dos três elementos acima citados.
Notemos que a própria ciência muda conforme se avançam os estudos. Não há verdades que se estabelecem em qualquer época e lugar. Desde os primeiros estudos sobre a sexualidade até as pesquisas pós-modernas sobre o tema muito se criticou, analisou e refletiu. E diante disso tudo não há como crer que um único livro possa dar respostas a todos os anseios e dúvidas. 
Além disso, a bíblia não pode ser a única referência para todas as coisas. Afinal, será que poderíamos explicar o mundo somente através de palavras? Será que o que significamos é igual para o outro?  Independentemente das respostas, cabe atentar também às interpretações, que sob qualquer fonte podem ser enviesadas e deturpadas.
Vivemos hoje uma realidade triste para a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) no Brasil e no mundo. Suicídios de jovens, punição  em algumas nações, assassinatos, etc. Aqui destacamos o alto índice de violência direcionada à outrem motivada pela homofobia.  
Segundo o Grupo Gay da Bahia o número de assassinatos de homossexuais aumentou 27% no Brasil neste ano que passou. De acordo com o levantamento foram 338 assassinatos motivados por homofobia em 2012. Isso quer dizer que quase todos os dias um homossexual é morto em nosso país devido à intolerância e o ódio.  Cabe mencionar ainda que muitos casos nem são registrados. Além disso, há os casos de suicídio, estes nem expressos em números.
Outro levantamento é o da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH-PR), que em julho do ano passado mostrou alguns números referentes à homofobia em 2011, ainda que consideremos a subnotificação: foram denunciadas 6.809 violações de direitos humanos contra LGBTs, envolvendo 1.713 vítimas e 2.275 suspeitos. Os estados com maior incidência foram São Paulo (1.110), Minas Gerais (563), Rio de Janeiro (518), Ceará (476) e Bahia (468). 67,5% das vítimas se identificaram como sendo do sexo masculino; 26,4% do sexo feminino; e 6,1% não informaram sexo. 47,1% tinham entre 15 e 29 anos. Com relação aos principais tipos de violação, 42,5% dos casos registrados foram de violência psicológica; 22,5% de discriminação; e 15,9% violência física. Quanto quem pratica a violência, em 61,9% dos casos o agressor é próximo da vítima, em 38,2% são familiares, sendo que em 42% dos casos a violência se deu dentro de casa; 5,5% das violações foram registradas em instituições governamentais – sendo 3,9% em escolas e universidades, 0,9% em hospitais do SUS, e 0,7% em presídios, delegacias e cadeias.
E são inúmeras as fontes a serem consultadas. Relatórios, artigos acadêmicos, etc. É só pesquisar. São Paulo, por exemplo, já possui até um mapa da homofobia, mostrando os bairros mais perigosos e com maiores índices de denúncias de violência homofóbica.  Ou seja, os dados, os números e as múltiplas referencias sobre a homofobia no Brasil já conferem o quanto ela é real em nosso cotidiano, resta saber sua origem.
Queremos saber se esta homofobia é construída a partir de um argumento e razão fundamentalista. Se é o preconceito travestido de crença que justifica a violência. 

Fábio Ortolano

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=3wx3fdnOEos#!

terça-feira, janeiro 01, 2013

Composição da mesa diretora da Câmara municipal de Americana - SP


Mais um passo ao retrocesso histórico para o município de Americana. Mais uma vez as cartas marcadas foram postas na mesa. E o que jogamos? É uma brincadeira? Temos 137 anos e ainda brincamos? Quais são as regras que nos orientam?
Ao que parece, estamos no jogo da democracia. Contudo, faltam peças, o tabuleiro já tem marcas, o dado está viciado, os jogadores usam as mesmas táticas. Será que ainda somos crianças preguiçosas que nem lemos as instruções?
Paulo Chocolate foi eleito presidente da Câmara e Valdecir Duzzi seu vice. Leonora do Postinho compõe a mesa diretora. Era tudo previsível, não é? Aliados e oposição de governo, como sempre previsíveis. Números exatos de votação, tudo certo, objetivo, afinal, todos os representantes, das inúmeras frentes ideológicas e partidárias que compõem o cenário político americanense pensam semelhante. Eu entendi certo?
Para uma cidade que poderia se orgulhar dos índices de desenvolvimento humano que conquistou na sua história, mergulhar num cenário de marasmo político, de cartas postas e previsíveis, é vislumbrar um futuro pouco promissor.
Daí, engana-se aquele que confere e associa à contemporaneidade o bom IDH que o município apresenta. Seríamos levianos, ingênuos e, em certos casos, até oportunistas em afirmarmos isso. A educação, a saúde e a longevidade de uma sociedade, por exemplo, que nos apontam a qualidade de vida de um lugar e de um povo, são produções sociais que se moldam em ações e contextos históricos que compreendem épocas, gerações, e não apenas anos e momentos pontuais.
Numa leitura simples da nossa realidade sócio-histórica nos vejo como presas de um capitalismo selvagem. A sociedade da tradição, família e propriedade se isenta propositalmente de uma racionalidade crítica. Nossa indiferença e pouco caso com a política local muito têm a dizer sobre os valores e a ética que concebemos no cotidiano. Adiante teremos os reflexos de tudo que temos produzido hoje. 

terça-feira, novembro 06, 2012

Mudança social


                     Curioso tentarmos encontrar respostas e caminhos para uma mudança social.  Se nem mesmo o homem, sujeito repleto de subjetividades, poderia dar conta de certezas que o leve a destinos vislumbrados num projeto de futuro, como poderíamos pensar em transformações para um conjunto deles? Mulheres e homens compõem inúmeras realidades compartilhadas em sociedade e cada qual possivelmente as enxerga de uma maneira, pois o sujeito é histórico, cultural e social, fruto de uma produção discursiva que constrói socialmente, contudo é também reflexo de suas escolhas e ações particulares frente a esse social. Não há como qualquer individuo ser igual ao outro. Assim, supomos encontrar a resposta, pois é através do outro que nos entendemos e significamos. A mudança não é possível quando pensamos e a objetivamos em alguém sozinho, é sempre na relação com outrem que podemos mudar.
                        Por que às vezes temos a idéia de que vivemos no caos? O aumento da violência urbana, o abandono da educação, o esquecimento da cidadania, o distanciamento entre pais e filhos, entre pares e amigos, a apatia com o sofrimento alheio, a banalização do mal, a desestruturação das auto-estimas, a perda de caráter, o relativismo da gentileza, a performática da vida, a procura por corpos ideais, etc. Tudo isso parece alinhar-se uma lógica de busca por uma juventude que nos valha de anestésico para a morte, quando, talvez, não acreditemos mais na vida. É como Jurandir Freire Costa fala ao tratar da indiferença, em que nos esquivamos de olhar para o outro, certamente acabamos por destruir aquilo que não temos coragem de transformar.  
            Loïc Wacquant diz que o distanciamento cada vez maior entre os sujeitos ricos e pobres, bem como o crescente autocercamento das elites políticas, o afastamento das instituições dominantes da sociedade, tudo isso alimenta a hostilidade e a desconfiança, legitimando a ordem social, a autoridade e a repressão: a polícia.  E o controle é a peça-chave para entendermos a estabilidade e manutenção das coisas. Opressão, poder e competitividade estão em jogo numa sociedade que não se questiona e não se enxerga. A mudança nesse contexto parece limitada.
            Para Jurandir a nova sociedade global se tornou personagem de um mundo fantasma, vivemos num lugar que é internacional e, ao mesmo tempo, fictício. E sem as raízes e pertencimento, perdemos o sentido da história e do bem comum. No Brasil e em muitas partes do globo, as classes dirigentes ignoram os desfavorecidos, eis a primeira indiferença, que por sua vez pouco se importam com a vida das elites, segunda indiferença. Em meio a isso, a burguesia é acometida pela ansiedade, insegurança e sentimento de fracasso. Eleva-se o consumo de antidepressivos, as consultas terapêuticas, os shopping centers, a busca por respostas exotéricas, os gastos com produtos e serviços que prometem a felicidade, essa é a terceira indiferença, das elites para com elas mesmas.  É a incapacidade do olhar para outra coisa que não seja a si mesmo. O outro se perdeu nessa lógica da indiferença e quando não temos o outro não significamos a nós mesmos. Logo, não podemos mudar o que foge a nossa visão.
            Wacquant acredita que houve uma modernização da miséria, um novo regime de desigualdade e marginalidade urbana que trilha novos rumos e toma outras formas. Qualquer que fosse o rótulo utilizado para designar os marginalizados, ao que nos parece, estes não estão mais isolados num território, etnia, raça, sexualidade. A marginalidade apresenta outros sinais somado aos antigos, está em toda a cidade, em todos os grupos e tribos. Frei Betto coloca que hoje, pior do que antigamente, na sociedade em que vigora o individualismo, não mais falamos em marginalizados, e sim em excluídos. Não há mais a esperança de retorno, os sujeitos nem contornam o esperado, o modelo, estão postos para fora, no lugar da ausência. São invisibilizados na realidade.
                        Diante disso outras questões nos aparecem. O que está implícito nessas ações humanas? Como constituímos nosso projeto de futuro para vivermos em civilização? Quais são as possibilidades de ruptura nesse contexto? Será que é preciso mudar? Estamos satisfeitos com o que temos construídos como humanidade? Se a racionalidade é parte do que concebemos sobre nós mesmos, tais questionamentos já se legitimam como uma pulsão do nosso existir. Esbocemos possíveis respostas para tanto.
                        Diversos pensadores e intelectuais defendem que somos dominados e agimos pelos desejos. Nossa mecânica configura-se através das pulsões por aquilo que almejamos. E se somos seres sociais, certamente nossos desejos serão construções do social, produtos das diversas histórias, culturas e ideologias. Assim, vivemos num processo em que buscamos objetivar tais anseios. As relações entre indivíduo e o outro/cultura/mundo se dão nessa interação complexa em que todos se constituem mutuamente. Jose Leon Crochik, numa perspectiva da psicanálise, mostra como a constituição da personalidade dos sujeitos em relação com a cultura produz preconceitos e estereótipos, ou seja, significações do mundo. É como se uma economia reflexiva legitimasse a idéia que temos das coisas como verdades que atendam nossas expectativas. Jurandir Freire Costa fala de nossa devoção pelas palavras, as quais supomos serem verdades daquilo que pretendem designar. Ainda que os seres humanos se orientem pelo outro, pela cultura que o atravessa, sua pulsão de vida e morte advém de si. Para Crochik o preconceito é uma reação à mudança individual e social, é a eliminação do desconhecido e afirmação do conhecido. Voltemos à impressão de vivermos no caos, o homem que busca a estabilidade e a segurança, quando confrontado com as incertezas, certamente recorrerá ao que está cristalizado, posto de certa forma como verdade. É o que lhe confortará. Como, por exemplo, quando diante de uma explosão e visibilidade de múltiplas manifestações de sexualidades, e da relativização de temas como gênero e orientação sexual, muitos setores da sociedade firmam-se no fundamentalismo religioso. Nossas práticas decorrem sempre desse movimento entre o eu e o outro, numa busca de construção de si.
                        Assim, é nesse interstício sujeito/mundo que vislumbramos a possibilidade de ruptura. Precisamos considerar essa economia reflexiva e tentarmos transpô-la com idéias e propostas de vida novas. A academia sozinha certamente não daria conta de responder tais expectativas, contudo, como todos os múltiplos micro-espaços de atuação do sujeito, ela é capaz de propor ensaios para colocarmos em cena. A desconstrução proposta pela teoria queer advém dessa perspectiva. Não se trata de um relativismo raso, mas de um constante questionamento sobre a significação, classificação, categorização, disciplinarização das coisas.
                        Já nos está claro que não há como mudar alguém sem que seu entorno se transforme, contudo, também não é possível alterar uma conjuntura sem que mudemos cada um de nós. A resposta que nos parece óbvia, confunde-se com sua inexistência.  A meu ver, mudar é preciso, independente da nossa satisfação enquanto humanidade, pois esta associa-se a uma percepção que é subjetiva. Mudar é necessário, pois segue a lógica de perseguirmos algo, de sonharmos, de querermos a vida e não a morte. Mudar nos parece tão distante porque, paradoxalmente, a mudança se inscreve no presente e no cotidiano, que de tão próximos, não encontramos lugar para essa transformação que projetamos no futuro. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Amor

Talvez por sabermos e reconhecermos a importância do outro, por um sentimento egoico, por medo de nos vermos sozinhos, por alegrias e angústias vividas, por não termos o vazio ou nos vermos esvaziados, por ter a quem direcionar o carinho que nos falta. Talvez compliquemos o que queremos que não seja simples a ponto de nos parecer imperceptível. Seja o que for, que seja pra ser, quando ser é mais que ter, e apenas ser: amor. 




domingo, junho 24, 2012

"Pau Mole" (Maria Rezende)


Adoro pau mole.
Assim mesmo. 
Não bebo mate, 
não gosto de água de coco, 
não ando de bicicleta, 
não vi ET 
e a-d-o-r-o pau mole.
Adoro pau mole, 
pelo que ele expõe de vulnerável 
e pelo que encerra de possibilidade.
Adoro pau mole, 
porque tocar um pressupõe a existência de uma liberdade 
e uma intimidade que eu prezo e quero, sempre.
Porque ele é ícone do pós-sexo 
(que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.
Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.
É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come. 

sábado, junho 23, 2012

Que a prece seja verdadeira, pois o desejo é leviano.

Os passos diários nos marcam por apontarem o destino. Destino este que insistimos em olhar com receio, inseridos nessa cultura que nos constrói ariscos a ele. O caminho não é a única razão que nos põe em movimento, é talvez apenas a novela que escolhemos encenar. E esta não é a única que possivelmente assistiremos enquanto espectadores protagonistas.  O exercício constante de encarar a cena com o riso sustenta-se em saber que teremos o direito de chorar, de viver o drama, pois a comédia e o romance não nos bastam enquanto atores em aprimoramento.
 Assim, talvez não seja a materialidade das coisas que nos alimenta, mas a imaterialidade da vida que nos sustenta.  Essa contraditória força que nos domina cotidianamente - entre o que nos parece objetivo e subjetivo - é parte do que somos e da forma que existimos. Não é a necessidade de viver que nos move, mas o medo de olhar para a certeza que temos. Aproximar-se do epílogo envolve-nos aos clímaces da nossa trama.

“Eu só aceito a condição de ter você só pra mim. Eu sei, não é assim, mas deixa eu fingir e rir”. (Los Hermanos, Sentimental)

quinta-feira, junho 07, 2012

16ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo


                  Acontece no próximo domingo (10/06) a 16ª edição da Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de São Paulo. Um dentre tantos eventos, de diferentes tipos - que acontecem diariamente não só na capital paulistana, mas em diversas cidades dos estados brasileiros e pelo mundo a fora.
Alessandro Soares da Silva (2008) fala de movimentos e não movimento LGBT. Seja na perspectiva acadêmica, da militância, da visibilidade e até da festa os movimentos sociais não são, como muitos significam, algo institucionalizado, normatizado, estático. Seu nome já revela seu caráter de transitoriedade, de ação em processo.
Pensar em movimentos sociais requer uma atenção para além das estruturas sociais, dos contextos partes de um sistema. É preciso que se relacionem os significados e sentidos de todos aqueles que constroem o movimento, ou seja, tanto dos que participam nas ruas, escolas, universidades, ONGs, quanto daqueles que falam a respeito. Os discursos também são formas de significar o homem e o mundo.
Na última quarta-feira, no lançamento do livro “(In)Visibilidade Vigilante:  representações midiáticas da maior parada gay do planeta”, o autor Steven Fred Butterman (2012), professor da Universidade de Miami,  é questionado por um jornalista sobre a contradição do país que é cenário da maior parada do mundo ser também a nação que sustenta o maior índice de assassinatos de LGBTs na América. E cabe ressaltar que só são contabilizados aqueles que a morte foi registrada como conseqüência da intolerância homofóbica.
Ao responder, Steven fala da sua percepção sobre a parada de São Paulo como um espaço democrático, em que há todos os tipos de “tribos”, como a dos Skinheads simpatizantes a causa LGBT, uma das possibilidades explicativas da dimensão do evento paulistano. Acrescento a perspectiva da Consciência Política de Salvador Sandoval (2001), descrita a partir do sentimento de injustiça, da identidade coletiva, das expectativas societais, bem como dos interesses simbólicos e materiais.
Tudo isso faz do sujeito político, consciente ou não de sua ação, alguém parte de um movimento. E não apenas o protesto em repúdio à violência motivará os sujeitos, mas também a vontade de viver, de expressar a sexualidade – seja numa festa, num levante de cartazes, num grito ao megafone ou num ato suicida.
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Friedrich Nietzsche

quinta-feira, março 29, 2012

Educação e sujeitos

A conjuntura atual da educação no Brasil vem sendo pautada em discussões acadêmicas, nos discursos do cotidiano de senso comum, nas mídias, etc. Almeida (2005) nos traz uma percepção consensual em todos esses discursos entendem a educação brasileira como de má qualidade, a qual é compreendida pelos aspectos de eficiência, eficácia e produtividade. O autor reflete e questiona tal conceito e aspectos dessa qualidade influenciadora dos contextos e sujeitos. Algo que trataremos adiante.
Conseqüentemente os atores envolvidos tornam-se alvos de críticas e analises, sejam elas embasadas e elaboradas ou aquelas mais rasas. Isso nos remete um comentário da filósofa, psicanalista e poeta, Viviane Mosé, que, ao refletir sobre os males do mundo numa entrevista concedida ao programa Provocações, considera ser responsável pela sua compreensão, o pensamento Socrático-Platônico-Aristotélico, o qual coloca na linguagem ocidental uma estrutura de sujeito, verbo e predicado, em que sempre há um sujeito causador de alguma coisa.
Sendo assim, se pensarmos na realidade da educação, tanto em nosso território como em qualquer parte do globo, sempre associaremos os fatos aos sujeitos. Dessa maneira podemos pensar em coletivos, o que seria mais óbvio ao tratar de um contexto social. Certamente o coletivo de educadores, trabalhadores dedicados a docência serão referências em potencial ao se refletir sobre educação.
Ferreira (2011), referindo-se aos trabalhadores de educação, considera-os sujeitos adoecidos, alienados ao trabalho, às políticas estatais e como um ser político e agente histórico. O autor nos pontua algumas definições estabelecidas na década de 90 para educadores, numa fase de “proletarização” dos docentes, enxergando-os como “semi-profissionais”, pois se entendia nessa visão a existência de duas categorias, a de funcionários e a de proletários, em que o primeiro tinha autonomia e controle do processo de trabalho e o segundo que não possuía os meios de produção e vendia sua força trabalho.
Entretanto, essa idéia na perspectiva marxista está errada, pois todos aqueles que não possuem os meios de produção próprios são proletários, como pontua Ferreira (2011). Este considera, ainda, que o processo atual não é o de transformação dos docentes em proletários, pois eles sempre assim foram, mas sim, de aprofundamento da alienação e da precarização de suas vidas e condições de trabalho.
E isso acaba sendo reforçado pelo próprio discurso dos atores envolvidos, sejam eles educadores, educandos ou qualquer outro membro da comunidade escolar e pessoas externas, como autoridades públicas, comunidade civil, etc. E sendo o discurso uma produção social, constituído na relação linguagem-história-sujeito, entendemos o mesmo como uma forma de significação da realidade e dos próprios indivíduos, portanto, ao falarmos da violência existente na escola, dos currículos mal formulados, do adoecimento dos professores, estamos reforçando e afirmando uma idéia de espaço problemático e de sujeitos “patologizados”.
Foucault (1988), ao tratar da história da sexualidade, nos apresenta o discurso como lugar do poder. Quando mais se falou em sexualidade no ocidente, mais esta foi reprimida, pois colocou em discurso a norma, os parâmetros de normalidade, pois ela precisava ser vigiada.
Almeida (2005), ainda que não tenha olhado por tal perspectiva, aproximou-se, em certa medida, de um dos pontos da reflexão de Foucault, pois coloca que a concepção de qualidade tem sido construída a partir de modelos, o qual pressupõe parâmetros para sua avaliação. Dessa forma, os discursos sobre qualidade e reforma da educação visam uma padronização e universalização da matriz educacional. Ignora-se a subjetividade da maneira ser-estar, a singularidade humana e particularidades de certas comunidades. Ou seja, reforça um mal estar, pois exclui ou visa transformar o que ou quem se difere do modelo, pois a educação, os educares e o alunado também devem ser vigiados.
Tal autor defende que o ideal de qualidade é a não comparação, a incomensurabilidade, pois não se compara singularidades. E no sentido ontológico do ponto de vista de qualidade ninguém é melhor que ninguém. Sendo assim, para ele é preciso ir à contramão desses discursos de melhoria da qualidade na educação, pensando numa qualidade das singularidades humanas. É preciso aceitar e respeitar as subjetividades associadas ao ser-estar, não como uma unicidade, mas como uma multiplicidade de singularidades, sem hierarquias de seres humanos e povos.
É preciso enxergar e dar autonomia aos atores da educação, não silenciá-los quando mais se fala em educação. E não estar alienado é também não render-se ao que está dado, inclusive quando se trata de qualidade. Deve-se contestar, pois por mais que as condições de trabalho estejam precarizadas é preciso considerar que não se trata apenas de alguém que causou alguma coisa, como nos sugeriria as estruturas de linguagem baseadas no pensamento Socrático-Platônico-Aristotélico, ainda que os discursos sejam parte da significação da realidade e sujeitos. Para mudar o que consideramos precário necessitamos primeiro julgar o que seja qualidade para nossa vivência e experiência humana no mundo. 

  • ALMEIDA, D. M. de. Subjetividade e discurso da qualidade educacional: contra a difamação docente (2005). 
  • FERREIRA, C. R. Pauperização e alienação do trabalho docente: contradições e perspectivas para o movimento dos trabalhadores de educação (2011).
  • VIVIANE MOSÉ em entrevista concedida à  Antônio Abujamra no programa Provocações (TV Cultura):

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

A liberdade do oprimido

A sociedade contemporânea, sobretudo uma conjuntura social de classes, tem suas ironias e contradições: O opressor, pela necessidade de se manter no poder, restringe e sufoca sua experiência de vida. A ânsia em oprimir e o medo de perder uma posição de conforto deixam os sujeitos presos a um único modelo penoso a todos, um exemplo quadrado como sua própria consciência de si. Já o oprimido, pelo simples fato de apenas resistir à opressão, se vê mais livre de determinadas amarras. Não que este não sofra, só é mais franco em algumas situações. Sua subversão confere o bônus de não viver à custa de uma ordem e um padrão estabelecido.
Hoje escutei um comentário de uma mulher que dizia não adotar um cachorro vira-lata, pois o marido só queria se fosse um de raça. Tava na cara que essa era a opinião dela, mas projetou-a ao marido. Diante de uma situação constrangedora para uma doce e nobre senhora, desculpou-se dizendo não ter preconceito.  Sua filha, uma pequena de aproximadamente sete anos, foi embora da clínica veterinária chateada por não levar o casal de filhotes que estava nos braços. Penso no que essas mães ensinam aos seus filhos.
Minutos depois, indo para casa, estive atento a conversa de duas moças no ônibus. Pareciam colegas e comentavam sobre o tempo abafado. Uma delas falava rindo à outra que montaria uma piscina em casa e que nadaria o quanto antes, pois os ratos roeriam o plástico. Não só a amiga, mas várias pessoas riram da espontaneidade da passageira ao relatar sobre seu momento de lazer, inclusive eu e uma menininha ao seu lado. Sua falta de pudores não só deixou-a liberta como trouxe o que há de mais interessante entre os humanos, a identificação com o outro. Pois naquele calor, todos certamente gostariam de fazer o mesmo.
Sustentar um status é ilusório, pois demanda uma força sobre humana, que precisa estar sempre antenada, ligada, quase persecutória. E como o status é performático, se desmancha com o tempo e dissolve-se nas ações.  No mínimo, quem busca sempre alimentá-lo, perde sua autenticidade e vive enjaulado. Isso me faz recordar uma charge do Laerte, em que retrava o consolo dos prisioneiros. Na reflexão ele mostra um passarinho preso à gaiola, que fica aos gritos taxando todos os estereótipos marginais ao padrão de poder: “Gorda, feia, viado, preto, aleijado, anão, pobre (...)”.
A opressão é a fuga dos cárceres da ignorância. E para a última, não há fiança que lhe pague.

domingo, janeiro 29, 2012

Alice no país das maravilhas

A pesquisa Datafolha, realizada nos dias 26 e 27 de janeiro na cidade de São Paulo, aponta que 82% da população paulistana aprova a operação da polícia na cracolândia.  E contrariando a idéia leviana e politiqueira de muitos, mesmo dentro de qualquer categoria (partido político, idade, escolaridade e renda familiar) a aprovação estava muito acima da rejeição.
Não só a comprovação de uma visão alienada das realidades contidas em cena, essa pesquisa mostra o valor policial, do controle em nossa sociedade, a qual sempre precisa ser vigiada, punida e castigada. Revela nossa ignorância e menoridade em tratar das pautas e interesses coletivos. A ausência de maturidade para enfrentar o caos nos traz um preço alto enquanto civilização – a morte e opressão de muitos homens e mulheres.
A questão vai muito além do tráfico de drogas, afinal, nesse país quase tudo se comercializa às avessas, e mais, causa dependência física e psíquica. Exemplificando, o tráfico de influências, a indústria farmacêutica, o comércio da fé. E o argumento do Estado, aprovado pela maioria, é o combate às drogas.
De fato, a dependência de substâncias como a cocaína e o crack traz inúmeros malefícios tanto aos sujeitos, usuários e familiares, quanto para a comunidade, haja vista as conseqüências como o crime organizado, as demandas dirigidas ao SUS, etc. Mas isso não é uma exclusividade dessas drogas, considerando os danos que as gorduras, os açúcares, os remédios, os parlamentares e os fundamentalistas causam também aos indivíduos e sociedade.
 Assim, imaginem se resolvêssemos aplicar o mesmo tratamento aos hipocondríacos, aos políticos e aos fundamentalistas religiosos. Certamente entraríamos numa guerra civil crônica.
Os resultados supostos para a ação deixam claras as intenções: marginalizar e invisibilizar os problemas sociais.  Pois, 82% dos entrevistados também acreditam que a operação fará com que os usuários busquem o crack em outras regiões da cidade.
Essa pesquisa desvenda que as pessoas não querem tratar do problema e sim projetá-lo na periferia e controlá-lo. Assim é mais fácil, não é? É tão mais simples por cerca elétrica no muro, por seguro no carro, pagar um bom plano de saúde, não é mesmo? Discutir políticas públicas, pautas e problemas de interesse coletivo requerem tanto tempo, vontade e concessões. A maioridade é tão pesada que o melhor é nem ver e discutir isso. Assim, é como se não existissem os conflitos e as crises sociais. Bom mesmo é não deixar a menoridade e viver pra sempre no país das maravilhas.


quarta-feira, novembro 09, 2011

SOBRE OS ACONTECIMENTOS NA USP

Caro leitor, confesso que em meio a tantas opiniões chego à certeza de que as pessoas não estão falando da mesma coisa. Aliás, não é para menos. Um fato pôs em discurso inúmeros questionamentos a beira de uma explosão. Alguns ensaiam dar as respostas para que, posteriormente, venha confortar o ponto final.
Contudo, para nossa felicidade ou infelicidade, dependendo da ótica que olhamos, a experiência e história humana jamais terão uma pontuação que as limite no tempo, tudo é processo. Assim, não me preocupo em saber quem está certo, meu esforço nesse artigo é refletir quais são esses questionamentos que estão nos vindo à tona.
Faço isso, pois acredito que ninguém que luta por uma causa, seja nos moldes que for, deva ser tratado como vândalo ou delinqüente, por que acredito, também, que um coletivo, em hipótese alguma, pode esquecer-se de que suas bandeiras não devem limitar-se a benefícios em que apenas seus pares sejam beneficiados.
Em pauta nas discussões sobre os acontecimentos da USP vejo posicionamentos em relação ao controle do Estado, ao acesso nas universidades públicas, à concepção de crime para o uso da maconha, à gestão do movimento estudantil na atualidade.
A respeito do controle do Estado e a partir da força policial, penso que cada comunidade deve escolher a forma como quer ser organizada. O argumento de que o policiamento é necessário cai por terra se compararmos o índice de criminalidade e violência na universidade e fora dela.
Não se trata de uma visão simplista pelo desejo de um "baseado", e sim um direito de liberdade, inclusive, de ser responsável por suas próprias escolhas. A maconha sempre existiu nos contextos universitários e em muitas culturas ela é utilizada, mas diante de um cenário conservador ela é vista como um pecado para que os pecadores sejam julgados. Bem, há de se considerar que, por ser ilegal, movimenta um mercado paralelo oneroso a toda a sociedade, entretanto, o comércio legalizado também me assusta, considerando o poder que a indústria farmacêutica tem hoje na sociedade brasileira.  Temos que refletir.
Outro ponto, é que não querer identificar-se como indivíduo é também mostrar-se como um coletivo, uma força conjunta. Não só os estudantes não quiseram se identificar, os agentes da Polícia Militar também não estavam identificados, como deveriam estar.
Com relação ao acesso, é certo que o burguês tem mais chances de entrar hoje numa universidade pública, haja vista o descaso crônico com a educação fundamental e ensino médio por parte de governantes como Geraldo Alckmin que por anos esteve à frente do governo do estado e hoje manda a PM na USP. Por outro lado é bom deixar claro que muitos alunos de baixa renda, de diversas partes do país e extratos sociais estudam nas inúmeras universidades públicas Brasil afora, tal como na Universidade de São Paulo. Às vezes me parece que afirmar ser a USP um espaço da elite é reforçar um poder de classe, como se fosse uma comunidade homogênea, uma casta superior. Não é!
Será mesmo o burguês que, sem ter o que fazer e sustentado pelos pais, procura um movimento sem causa? Podemos resumir assim? Nos meus anos de graduação não via esses “playboyzinhos” preocupados com isso não, aliás, muito pelo contrário, por suas condições mantinham-se em posição de conforto, não participavam de assembléias, raramente se dedicavam às programações de interesse público e coletivo e pouco se importavam com as transformações na universidade e suas responsabilidades frente à sociedade que a mantém. Apenas preenchiam seus currículos acadêmicos para ostentar o título de sua profissão e universidade, como uma marca. Não é a toa que as faculdades e Institutos da USP com os cursos mais concorridos, onde certamente concentram os tais filhos de papai, são sempre os últimos a aderirem um movimento.
O fato, como bem posiciona Clara Roman, na Carta Capital, é que o movimento estudantil, dividido em tribos enfrenta radicalismos. A comunicação dentro da própria comunidade está difícil, um reflexo da sociedade de hoje, do individualismo, da despolitização, da falta de interesse pelo coletivo, pelo público. Uma conjuntura social prisioneira de uma crítica pontual.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Gruta Dainese - Pelo direito à memoria

Lembro-me como se fosse ontem quando eu e meu irmão gêmeo passávamos as tardes no bairro vizinho ao que fomos criados, ficávamos na casa de uma senhora, a Dona Perpétua, que nos cuidou por nove anos enquanto minha mãe trabalhava. Saíamos quase todas as manhãs da Vila Dainese rumo ao São Roque, primeiro para ir à creche, depois ao parquinho e anos mais tarde para freqüentar a quarta série do ensino fundamental na escola estadual Marcelino Tombi.
São tantas lembranças de infância, como as brincadeiras de rua, as travessuras em meio às árvores e aos grandes, diria gigantescos para época, canos de uma futura obra pública de saneamento no bairro. Não me esqueço quando num entardecer uma cobra surgiu no terreno da casa do nosso amigo Renan. Foi um rebuliço na rua, vizinhos correndo para ver a rastejante que nos parecia uma coral, de listras vermelhas, brancas e pretas. Com sucesso o avô do nosso amigo conseguiu se livrar no animal peçonhento.
Provavelmente, como todos diziam, vinha ela – a cobra - do buracão. Assim era conhecida a região da Gruta Dainese. A ausência de uma identidade para aquele local o transformava num simples orifício que rasgava a terra e corria uma nascente. E de lá surgiam também diversos causos alimentados pela garotada e até pelos idosos. Uma de um gado que teria escorregado em uma das quedas d’água de lá, outra que um garoto ao brincar de trampolim caíra na pequena represa que se formava entre as pedras, mas que nada havia acontecido.
A última vez que estive lá foi nesse ano mesmo, junto a um amigo que mora ao lado da gruta. Eu que sempre fui apaixonado por aquele lugar, não me esqueço de uma frase que ele me disse nesse passeio: “Nossa, tinha até me esquecido como aqui é bonito”. E penso o quão triste é saber que até as pessoas que amam aquele local, porque sei que ele compartilha desse sentimento comigo, esquecem de alguma forma que ele existe.
Daí, entendo que isso se dá por essa desconstrução de identidade local, por exemplo, ao chamarmos de buracão, algo tão genérico que se perde perante o simples significado de todas as coisas que classificamos como um furo, uma abertura. Não é como falar do Jardim Botânico ou do Zoológico Municipal que estão, na medida do possível, preservados. Pelo menos os moradores dos nobres bairros que estão no seu entorno não reclamam. Entende o que quero dizer, caro leitor?
Trata-se de um silêncio público, sobretudo de nossos gestores que transformam a gruta nesse buracão. E para os colegas munícipes que não conhecem tal local eu descrevo-o em apenas algumas palavras. A Gruta Dainese trata-se de uma das maiores, se não a maior área natural de Americana, possui três quedas d’águas, uma delas de 18m de altura, paredões de pedra, bromélias, samambaias, e outras espécies vegetais de mata atlântica. Quando eu mostro algumas fotos que tirei esse ano ninguém acredita que é em Americana. E sabe o que nós munícipes e gestores públicos fazemos dela? Um buracão.
Eu já perdi a conta dos milhares de reais que a gruta já recebeu nos últimos anos, eu particularmente suponho e contabilizo mais de 12 milhões nos últimos dez anos. E nesse tempo só vi cercarem uma parte de seu entorno, com alambrados que hoje nem existem mais, e agora estão construindo uma pista de caminhada às suas margens. Apenas isso. Pergunto-me para onde foram todos os recursos captados nos últimos anos? O que foi feito de educação ambiental e preservação da memória das comunidades do entorno? Quantas mudas de árvores foram plantadas para recuperação da flora, inclusive nas áreas que estão sofrendo erosão?
Desde os tempos de menino, sempre acompanho o que acontece com a gruta e só a vejo nos discursos dos gestores públicos em época de eleição. Um desrespeito total para com os cidadãos, para com suas responsabilidades públicas e profissionais, para com o mundo. Nem mesmo o partido verde (PV) que por seus princípios ambientais deveria cuidar desse patrimônio, nunca vi militar, de fato, por essa causa. Nenhum político até hoje levantou essa bandeira como se fosse a mais importante. O máximo que fazem é serem simpatizantes a uma ação do outro, até porque quem discordará em preservar um patrimônio ambiental? Bem, até alguém querer, já perdemos o direito à nossa memória, consumimos um patrimônio não só ambiental, mas imaterial também, como os contos da meninice.
Vamos salvar a gruta!

Veja mais fotos pelo link: http://turismoamericanasp.blogspot.com/2011/03/gruta-dainese.html

Um trabalho bem interessante que encontrei no YOUTUBE, feito pelo GEFAU, bem diferente do vídeo institucional feito pela Câmara Municipal do município em que, lamentavelmente, os vereadores não sabem nem distinguir a diferença entre Mata Atlântica e Floresta Amazônica.
http://www.youtube.com/watch?v=m1Egv8mKYus&feature=related